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Meditação contra o HIV

Publicado por educaçãoevida em Agosto 27, 2008

29 Julho 2008

Pesquisadores da Universidade da Califórnia publicaram uma pesquisa que diz que a prática da meditação pode brecar a diminuição das células CD4-T no sangue de pessoas que possuem o vírus HIV. As CD4-T são o cérebro do nosso sistema imunológico e também as células mais atacadas pelo vírus. Se elas diminuem, o sistema imunológico do paciente enfraquece.

Estudos anteriores já tinham constatado que o estresse acelera a redução das CD4-T. Agora, com a solução em mãos, os cientistas esperam que a prática ajude a conter o progresso da doença.

A pesquisa avaliou dois grupos de pacientes (que faziam e que não faziam a meditação) durante oito semanas. A primeira metade não demonstrou perda das células, enquanto o segundo time teve um declínio das CD4-T.

A notícia é boa para todo mundo, inclusive para os estressadinhos (ou você não percebe que sempre fica resfriado quando está sobrecarregado com trabalho?).

Endereço desta matéria:
http://www.superinteressante.com.br/blogs/cienciamaluca/97293_post.shtml

1987 – 2008 Editora Abril S.A. Todos os direitos reservados.

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É só respirar

Publicado por educaçãoevida em Agosto 27, 2008

Capa

out 2003

Recomendada pelos médicos, estudada pelos cientistas, praticada por milhões mundo afora. Conheça essa técnica ancestral de autoconhecimento e tudo o que ela pode fazer por você

Jomar Morais

Na sala vazia e silenciosa, dois monges zen, com seus mantos e cabeças raspadas, estão sentados no chão, lado a lado, pernas cruzadas. Depois de alguns instantes, o mais jovem lança um olhar surpreso e irônico para o mestre. Sereno, o velho monge comenta: “É só isso, mesmo. Não vai acontecer mais nada”. Não se trata de uma cena real. É só uma charge publicada na renomada revista americana The New Yorker, brincando com o novo hábito americano de meditar regularmente, como fazem os orientais há milhares de anos. A fina ironia da charge, no entanto, tem a ver com a realidade. Embora singela, a atitude de sentar sobre uma almofada (ficar em posição de lótus exige um preparo de monge) e ficar atento à própria respiração é tão fora de propósito em nossa rotina atabalhoada que é fácil se identificar com o jovem monge, perplexo e irônico, ao encará-la pela primeira vez. Comigo não foi diferente.

Na primeira vez em que me detive a acompanhar o compasso da respiração, o sentimento inicial foi de surpresa. Espantei-me pela rapidez com que tudo caminhou para a inatividade. O turbilhão de pensamentos que ocupava minha mente (uma conta para pagar, uma cena do filme que vi no dia anterior, uma ótima piada para contar aos amigos) foi desaparecendo sem que eu me desse conta. O incômodo da perna dormente, pressionada pela flexão, logo foi substituído por um inesperado prazer, prazer de simplesmente respirar. Então, de repente, foi como se tudo houvesse parado nos primeiros segundos depois de acordar, aqueles instantes em que você se sente presente e alerta, mas com a cabeça vazia. Enfim, aqueles poucos segundos do dia em que nada acontece.

Foi então que tudo ficou meio irônico: o êxtase, o delicioso estranhamento que entupiu meus sentimentos, acabou em um segundo! E no instante seguinte todos os pensamentos voltaram: a conta, o filme, a piada e mais um monte de coisas. Rindo comigo mesmo, me perguntei – talvez como um jovem monge perplexo e desconfiado – se não haveria algo mais divertido para fazer naquele instante. Mas logo me peguei novamente de olhos fechados.

Quer dizer que meditar é só parar e não pensar em nada? É. Como afirmam os especialistas, é um não-fazer. Mas, acredite, não é fácil. Não para ocidentais como eu e você, acostumados com a idéia de que, para resolver um assunto, o primeiro passo é pensar bastante nele. Na meditação, a idéia é exatamente o oposto: parar de pensar, por mais bizarro que isso pareça.

A novidade é que, mesmo parecendo alienígena, a meditação conquista cada vez mais adeptos no Ocidente. Dez milhões de americanos meditam regularmente em casa e em hospitais, escolas, empresas, aeroportos e até em quiosques de internet. Entre os milhões de meditadores americanos estão celebridades de grosso calibre, como o dirigente da Ford, Bill Ford, e o ex-vice-presidente Al Gore. No Brasil, a exemplo da Hollywood dos anos 90, a meditação entrou para a rotina de estrelas – como a atriz Christiani Torloni e a apresentadora Angélica, que recorreu à prática para livrar-se de uma crise de síndrome do pânico – e virou ferramenta diária de produtividade em empresas e até em alguns círculos do poder. O prefeito de Recife, João Paulo, por exemplo, só inicia o expediente após meditar por alguns minutos.

Mas como é que algo assim, na contramão do pragmatismo moderno, consegue empolgar tanta gente? Como pode haver gente capaz de pagar caro para participar de sessões de meditação – ou seja, para ficar sentado em silêncio em uma sala quase sem móveis?

Sem dúvida há muita gente desiludida com o modo de vida ocidental (a destruição do meio ambiente, a vida cada vez mais solitária das grandes cidades e a competição pelo ganha-pão). Mas esse contingente não é capaz de explicar, sozinho, a explosão da meditação. A verdade é que a ciência resolveu se debruçar sobre os efeitos dessa prática, e as notícias dos laboratórios de pesquisa cada vez convencem mais pessoas a relaxar em posição de lótus.

O principal resultado dessas pesquisas pode ser resumido em duas palavras: meditação funciona. Ou seja, por mais estranho que pareça aos ratos de academia que se esfalfam em exercícios para melhorar a capacidade cardiorrespiratória, não fazer nada por alguns minutos diariamente tem efeitos palpáveis, reais e mensuráveis no corpo. E o melhor: só apareceram efeitos positivos (pelo menos até agora). Ou seja, aquilo que os adeptos da tradicional medicina chinesa e os mestres budistas viviam repetindo (com um sorriso bondoso no rosto) começa a ser comprovado por alguns renomados centros de pesquisa ocidentais, como as universidades Harvard, Columbia, Stanford e Massachusetts, nos Estados Unidos, e pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), no Brasil.

É difícil listar as descobertas porque as pesquisas sobre a meditação alcançaram a maioridade recentemente. Mais precisamente no ano 2000, quando o líder do budismo tibetano, o Dalai Lama (sempre ele), encontrou-se com um grupo de psicólogos e neurologistas na Índia e sugeriu que os cientistas estudassem um time de craques em meditação durante o transe, para ver o que ocorria com seus corpos. Os cientistas abraçaram o desafio e, desde então, as pesquisas não param de produzir surpresas. Já se sabe, por exemplo, que meditar afeta, de fato, as ondas cerebrais. Sabe-se também que isso tem efeitos positivos sobre o sistema imunológico, reduz a tensão e alivia a dor. “Três décadas de pesquisas mostraram que a meditação é um bom antídoto ao estresse”, diz o jornalista e psicólogo americano Daniel Goleman, autor dos livros Inteligência Emocional e Como Lidar com as Emoções Destrutivas, este o relato do encontro dos cientistas com o Dalai Lama.

“Agora, o que está mira dos pesquisadores é saber como a meditação pode treinar a mente e reformatar o cérebro”, afirma Daniel.

A piada dos dois monges, lá no início desta reportagem, não é gratuita. Afinal, faz séculos que se pratica meditação no Oriente, por recomendação religiosa (veja quadro sobre as meditações religiosas na página 62). O detalhe é que agora a orientação também é médica. Nos anos 70, quando a prática começou a se espalhar pelo Ocidente, impulsionada pelo movimento hippie, o cantor e compositor brasileiro Walter Franco cantava que tudo era uma questão de “manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo”. Hoje, os versos de Walter poderiam fazer parte de uma receita médica, de um treinamento em uma grande empresa ou até mesmo de um programa para a recuperação de presos.

“Focalizar a atenção no mundo interior, como se faz na meditação, é uma situação terapêutica”, diz o psicólogo José Roberto Leite, coordenador do instituto de medicina comportamental da Unifesp. “Queremos avaliar o alcance dessa prática e isolá-la de seu aspecto supersticioso.” Por trás dessa intenção está o fato de que as causas de doenças mudaram muito nos últimos 100 anos. No passado, os males eram causados principalmente por microorganismos. As pessoas morriam de poliomielite, de sarampo, de varíola e outras doenças causadas por bactérias e vírus. Mas isso mudou, graças às melhorias em saneamento e à criação de antibióticos e vacinas. “Hoje, a maioria das doenças é causada por coisas como hipertensão, obesidade e dependência química, que estão ligadas a padrões inadequados de comportamento”, diz José Roberto. Ou seja, o que mata hoje são os maus hábitos.

E são esses maus hábitos que se pretende combater pela meditação, também conhecida pelo pomposo nome de “prática contemplativa”. Apaziguar a mente, os cientistas estão descobrindo agora, pode reduzir o nível de ansiedade e corrigir comportamentos pouco saudáveis. O cardiologista Herbert Benson, da Universidade Harvard, um dos maiores pesquisadores da meditação e do poder das crenças na promoção da saúde, chega a estimar em seu livro Medicina Espiritual que 60% das consultas médicas poderiam ser evitadas se as pessoas apenas usassem a mente para combater as tensões causadoras de complicações físicas.

Mas, afinal, como é que se medita e o que acontece durante a prática contemplativa? Bem, há um leque de modalidades para quem deseja meditar, mas a receita básica é a mesma: concentração. Vale concentrar-se na respiração, uma imagem (um ponto ou uma imagem de santo), um som ou na repetição de uma palavra (o famoso mantra, como “ohmmm”, por exemplo). Parar de pensar equivale a ficar quase que exclusivamente no presente. Faz sentido. Os pensamentos são feitos basicamente de duas substâncias: as idéias e experiências que ouvimos, vivemos ou aprendemos no passado e os planos e apreensões que temos para o futuro. É naqueles raros momentos em que o meditador consegue livrar-se desses ruídos que surgem os sentimentos comuns nas descrições de iogues famosos: sensação de estar ligado com o Universo ou ter uma superconsciência do mundo. Meditar é, portanto, concentrar-se em cada vez menos coisas, inibindo os sentidos e esvaziando a mente. Tudo isso sem perder o estado de alerta, ou seja, sem dormir.

Mas como saber se deu certo? Como saber se você meditou? Essa é a melhor parte da história: não há nota ou avaliação. A não ser que você medite plugado em um aparelho de eletroencefalograma para saber se suas ondas cerebrais se alteraram. Como isso é pouco prático, a melhor medida para seu desempenho é você mesmo. Só você pode dizer o que sentiu e se foi bom.

BIOLOGIA DO ZEN

Os efeitos da meditação sobre o corpo são surpreendentes. Nos primeiros estudos sobre a meditação, na década de 60, o cardiologista Benson, de Harvard, e outros pesquisadores submeteram meditadores a experimentos nos quais a pressão arterial, os ritmos cerebrais e cardíacos e mesmo a temperatura da pele e do reto eram monitorados. Constatou-se então que, enquanto meditavam, eles consumiam 17% menos oxigênio e seu ritmo cardíaco caía para incríveis três batimentos por minuto (a média para pessoas em repouso é de 60 b.p.m.). Isso acontecia quando as ondas cerebrais alcançavam o ritmo teta, mais lento e poderoso, no qual a mente atingiria o estado de “superconsciência” relatado pelos iogues e caracterizado por insights e alegria.

As ondas teta vibram a apenas quatro ciclos por segundo. Para se ter uma idéia, quando estamos ativos o cérebro emite ondas beta, de oscilação em torno de 13 ciclos por segundo. Você conhece essa sensação causada pelas ondas teta. É aquele embotamento dos sentidos que surge nos segundos que antecedem o sono. Naquele momento, nosso cérebro funciona no ritmo teta. Mas os meditadores pesquisados não estavam dormindo. Ao contrário, estavam bem acordados e serenos.

Mais tarde, percebeu-se também que no momento da meditação o fluxo sanguíneo diminuía em quase todas as áreas cerebrais, mas aumentava na região do sistema límbico, o chamado “cérebro emocional”, responsável pelas emoções, a memória e os ritmos do coração, da respiração e do metabolismo. O cardiologista Benson, que escreveu um clássico sobre o tema nos anos 90 – A Resposta do Relaxamento – , tomou emprestado um pouco da humildade oriental e disse que seu trabalho se resumiu a explicar biologicamente técnicas conhecidas há milênios.

Desde então, uma série de novas pesquisas, respaldadas em imagens da intimidade neurológica feitas por tomógrafos sofisticados que retratam o cérebro em funcionamento, levantou o véu sobre outros segredos. Um dos estudos mais abrangentes e reveladores foi realizado por Andrew Newberg, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos. A idéia era registrar o que ocorre com o cérebro quando se alcança o clímax em práticas místicas como a meditação e a oração. Newberg rastreou a atividade cerebral de um grupo de budistas em meditação profunda e de um grupo de freiras franciscanas rezando fervorosamente.

Ele constatou uma significativa alteração no lobo parietal superior, localizado na parte anterior do cérebro e responsável pelo senso de orientação – a capacidade de percepção do espaço e do tempo e da própria individualidade. Segundo as descobertas de Newberg, à medida que a contemplação se torna mais profunda, a atividade na região diminui aos poucos até cessar totalmente no momento de pico, aquele em que o meditador experimenta a sensação de unicidade com o Universo, cerca de uma hora após o início da concentração. Nesse instante, privados de impulsos elétricos, os neurônios do lobo parietal desligam os mecanismos das funções visuais e motoras e o meditador ou devoto perde a noção do “eu” e sente-se prazerosamente expandido, além de qualquer limite. É o nirvana. Ou seja, Newberg registrou em seus aparelhos a imagem de um cérebro literalmente no paraíso.

Mas não é só isso. As imagens revelaram que, durante a experiência, os lobos temporais (sede das emoções no cérebro) tiveram sua atividade redobrada, o que explicaria a enorme influência da meditação sobre as emoções e a personalidade dos praticantes. Newberg não teve dúvida em sua conclusão: as sensações de elevação e contato com o divino vivenciadas por budistas e freiras são um fenômeno real, baseado em fatos biológicos.

Mas há quem veja tudo isso com uma certa desconfiança. “Ao que parece, estamos diante de um fenômeno de marketing”, disse Richard Sloan, psicólogo do Centro Médico Presbiteriano de Columbia, em Nova York, comentando o encontro do Dalai com os cientistas, há três anos. Segundo Richard, é discutível se o impacto da meditação sobre o sistema nervoso e a saúde tem um efeito profundo e duradouro ou apenas superficial e efêmero. Então, está na hora de conferir o que os estudos dizem a respeito.

MENTE QUIETA, CORPO SAUDÁVEL

A meditação ajuda a controlar a ansiedade e a aliviar a dor? Ao que tudo indica, sim. Nessas duas áreas os cientistas encontraram as maiores evidências da ação terapêutica da meditação, medida em dezenas de pesquisas. Nos últimos 24 anos, só a Clínica de Redução do Estresse da Universidade de Massachusetts monitorou 14 mil portadores de câncer, aids, dor crônica e complicações gástricas. Os técnicos descobriram que, submetidos a sessões de meditação que alteraram o foco de sua atenção, os pacientes reduziram o nível de ansiedade e diminuíram ou abandonaram o uso de analgésicos. Ou seja, eles aprenderam a entender a dor, em vez de combatê-la. Com isso, deixaram de antecipá-la ou amplificá-la por meio do medo de vir a senti-la. Sim, porque boa parte da sensação dolorosa é psicológica, fabricada pelo medo da dor. Resultado: as queixas de dor, segundo o diretor da clínica, Jon Kabat-Zinn, diminuíram, em média, 40%.

No hospital da Unifesp, em São Paulo, a meditação é indicada para pacientes com fibromialgia (dores nos músculos e articulações), fobias e compulsões. Ali, estudo recente dirigido pela doutora em biologia Elisa Harumi Kozasa atestou a melhoria da agilidade mental e motora em ansiosos e deprimidos que, durante três meses, meditaram sob a orientação de instrutores indianos. Outra pesquisa, coordenada pelas psicólogas Márcia Marchiori e Elaine de Siqueira Sales, deve comparar nos próximos meses os efeitos terapêuticos da meditação com os das técnicas de relaxamento físico.

O desempenho antiestresse da meditação, segundo estudos das universidades americanas Stanford e Columbia, acontece porque a mente aquietada inibe a produção de adrenalina e cortisol – hormônios secretados nas situações de estresse – , ao mesmo tempo que estimula no cérebro a produção de endorfinas, um tranqüilizante e analgésico natural tão poderoso quanto a morfina e responsável pela sensação de leveza nos momentos de alegria.

Já parece motivo suficiente para render-se aos mantras, mas tem mais. Investigações realizadas na Universidade Wisconsin, nos Estados Unidos, acrescentaram que meditar também melhora a ação do sistema imunológico, que defende o organismo contra o ataque de microorganismos (bactérias, vírus e outros germes). A experiência comparou dois grupos de voluntários – um constituído de pessoas que meditavam havia alguns meses e o outro de não-meditadores. Primeiro constatou-se que os meditadores tiveram um aumento na atividade da área cerebral relacionada às emoções positivas. Então, ambos os grupos foram vacinados contra gripe e submetidos a medições quatro semanas e oito semanas depois. O pessoal habituado a entoar mantras apresentou um número bem maior de anticorpos, o que sugere que seus sistemas de defesa estavam mais ativos.

Em abril passado, durante um encontro da Associação Americana de Urologia, anunciou-se que a meditação ajuda a conter o câncer da próstata. E alguns pesquisadores relataram que mulheres com câncer de mama que passaram a meditar tiveram elevação no nível de células imunológicas que combatem tumores. Mas essas descobertas estão longe de alcançar a unanimidade entre os cientistas. O psiquiatra americano Stephen Barret, um dos principais críticos às terapias alternativas nos Estados Unidos, desconfia desses resultados. “Meditar pode aliviar o estresse, mas sua ação nunca irá além disso no tratamento de doenças graves, como o câncer.” Mesmo um entusiasta da técnica, como Herbert Benson, não descarta os tratamentos ocidentais tradicionais. Para ele, a saúde e a longevidade no mundo moderno serão, cada vez mais, resultado de um tripé formado por remédios, cirurgias e cuidados pessoais, incluindo-se aqui a meditação e todo o poder catalisador das crenças nas reações orgânicas.

O CÉREBRO REPROGRAMADO

Mas ainda há muita coisa para ser descoberta sobre o mantra e os pesquisadores estão debruçados sobre os meditadores, tentando entender como é que um ato tão simples causa tantas modificações. Estudos como o de Wisconsin, que ligam disciplina mental a emoções positivas e ao bom desempenho do sistema imunológico, atiçam o interesse dos cientistas em avaliar o real poder da meditação na reformatação das funções cerebrais. E o que eles estão descobrindo é que, com suficiente prática, os neurônios podem reprogramar a atividade dos lobos cerebrais, especialmente a área relacionada à concentração e à orientação.

Não dá para negar que, sobre concentração, o Dalai Lama e os orientais, com sua atenção aos detalhes e sua atenção extrema, têm muito a ensinar aos ocidentais. “Só há pouco a psiquiatria ocidental reconheceu a existência do transtorno do déficit de atenção (uma síndrome caracterizada pela dificuldade de concentração, baixa tolerância à frustração e impulsividade), mas há milhares de anos tradições como o budismo afirmam que todos sofremos desse distúrbio com mais ou menos intensidade”, diz o psiquiatra Roger Walsh, da Universidade da Califórnia em Irvine.

A possibilidade de alterar em profundidade o cérebro, apenas meditando, talvez possa no futuro ajudar a prevenir ou a superar complicações vasculares a custo bem mais baixo que o das cirurgias. Ou a romper condicionamentos e redirecionar as mentes de indivíduos anti-sociais – o que, aliás, vem sendo testado com relativo êxito. Numa experiência na Kings County North Rehabilitation Facility, penitenciária próxima a Seattle, nos Estados Unidos, um grupo de prisioneiros condenados por crimes relacionados ao consumo de droga e álcool praticou vippassana (meditação budista com foco inicial na respiração, seguida de análise existencial) 11 horas por dia durante dez dias. Após voltarem para casa, apenas 56% deles reincidiram na criminalidade no prazo de dois anos, um índice considerado bom comparado aos 75% de reincidência entre os que não meditaram.

Já na Universidade Cambridge, nos Estados Unidos, um estudo constatou a redução de até 50% nas recaídas de pacientes com depressão crônica que passaram a meditar regularmente. A doença é acompanhada por uma diminuição no nível do serotonina no cérebro, processo geralmente revertido com o uso de antidepressivos, como Prozac. A meditação aumenta a produção desse neurotransmissor, funcionando como um antidepressivo natural. Em Cotia, em São Paulo, um programa de meditação para crianças carentes, conduzido pela monja Sinceridade no Templo Zu Lai (sede da primeira universidade budista do país), tem resultado em mudanças no comportamento de 128 meninos de favelas. “Eles melhoraram significativamente a concentração. E a convivência social com eles tornou-se mais tranqüila”, diz ela.

FAST FOOD MENTAL?

Toda essa popularidade, porém, não permite afirmar que a meditação continuará mantendo alguma identidade com a prática ancestral do Oriente. Além de sua gradual transformação em técnica laica, ocorre neste momento uma rápida adaptação do modo de usá-la ao estilo de vida ocidental.

Em vez de contemplações que duram uma eternidade (você aí teria pique para ficar quatro horas sentado no chão, imóvel, como faz diariamente o Dalai Lama?), tornou-se padrão a meditação de 20 minutos duas vezes ao dia. Ainda assim, isso parece exigir uma boa dose de sacrifício de inquietos habitantes de metrópoles como Nova York e São Paulo. No próximo ano, o autor Victor Davich lançará nos Estados Unidos o livro Eight Minutes that Will Change your Life (“Oito Minutos que Mudarão sua Vida”) no qual defenderá um tipo de meditação “fast food” de não mais que oito minutos. Segundo ele, esse é o tempo que os americanos estão acostumados a se concentrar diariamente: os blocos de programas de TV duram exatamente isso, entre um comercial e outro. Da mesma forma, os mantras sonoros em sânscrito das meditações místicas foram substituídos por mantras mentais, baseados em palavras escolhidas ao acaso.

Tais ajustes são vistos com reservas por iogues, praticantes tradicionalistas e até instrutores mais liberais, como a americana Susan Andrews, para quem é saudável tirar a meditação “das nuvens do esoterismo” e aproximá-la da ciência. “Relaxamento e pensamento positivo são efeitos colaterais da meditação, não sua meta”, diz Susan. “O grande alvo é atingir a hiperconsciência, o samadhi, aquele estado de plenitude, iluminação e êxtase indescritível.” A questão é que para chegar lá o meditador precisa deixar de lado a idéia de que meditar não implica qualquer esforço, cuidando de manter a concentração firme e afinada por pelo menos uma hora. E isso, admitamos, é algo que também exige um preparo de monge.

Sentado

No chão ou em uma cadeira, mantenha a coluna ereta e concentre-se nos movimentos da respiração, observando a entrada e a saída do ar pelas narinas. Se preferir, concentre-se num mantra, que pode ser qualquer palavra, uma frase ou apenas um murmúrio. Repita seu mantra a cada expiração. Fechar os olhos pode ajudar. Se ficar de olhos abertos, concentre o olhar em um ponto.

Em pé

Posicione-se junto a uma fileira de árvores e tente se sentir como uma delas. Concentre-se na respiração e imagine seus pés desenvolvendo raízes no chão.

Caminhando

É uma boa saída para quem, por algum motivo, não consegue ficar imóvel. O segredo é focar as pisadas, vendo-as como um todo ou como segmentos do movimento, que pode ser lento ou acelerado. Melhor caminhar em círculo, sem a expectativa de um ponto de chegada.

Visualização

Crie uma imagem significativa para você – pode ser um símbolo religioso ou uma paisagem – e concentre-se nela.

Hinduísmo

Textos sagrados do período védico, entre 2000 e 3000 a.C., fazem referências a mantras e contemplações. A meditação é uma das principais práticas do conjunto de escolas religiosas da Índia conhecido como hinduísmo.

Budismo

Foi meditando debaixo de uma figueira que o príncipe Sidarta Gautama alcançou a iluminação, por volta de 588 a.C., tornando-se o Buda. Prática fundamental no budismo, a meditação é vista, sobretudo, como um método de examinar a realidade pessoal e eliminar condicionamentos.

Cristianismo

Os chamados padres do deserto, da região de Alexandria, no Egito, é que consolidaram a meditação como hábito cristão no século 4. A prática, disseminada nos monastérios, desde o século passado vem sendo adotada por cristãos leigos.

Judaísmo

Os praticantes da Cabala, tradição esotérica judaica, difundiram a meditação entre seus adeptos na Europa, por volta do ano 1000, como uma forma de entrar em comunhão com Deus.

Islamismo

Também por volta do ano 1000, os sufis, que constituem o segmento místico dos muçulmanos, incorporaram a meditação aos seus rituais, os quais incluem o êxtase místico por meio da dança.

Independentes

Em 1967, um encontro dos Beatles com o guru Maharishi Mahesh Yogi iniciou a expansão da meditação transcendental no Ocidente e o florescimento de uma infinidade de gurus e técnicas meditativas que, desde então, atraem adeptos em toda parte.

Na livraria

A Mente Alerta, Jon Kabat-Zinn, Objetiva, Rio de Janeiro, 2001

Meditação e os Segredos da Mente, Susan Andrews, Instituto Visão Futuro, Porangaba, 2001

Why God Won´t Go Away, Andrew Newberg, Ballantine, Nova York, 2001

Yoga, Caco de Paulo e Marcia Bindo, São Paulo, Superinteressante, 2002

A Resposta do Relaxamento, Herbert Benson, Nova Era, 1995

Medicina Espiritual, Herbert Benson, Campus, Rio de Janeiro, 2003

Na internet

www.dharmanet.com.br

www.yoga.pro.br

www.mindandlife.org

fonte: http://super.abril.com.br/superarquivo/2003/conteudo_299306.shtml

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Meditar em prol da paz

Publicado por educaçãoevida em Agosto 27, 2008

nov 2002

O monge Laurence Freeman acredita que a disciplina espiritual conquistada com a meditação pode diluir o sentimento de violência

Maria Fernanda Vomero

Antes de se tornar um monge beneditino, o inglês Laurence Freeman foi jornalista, teve emprego em um banco de investimentos e passou seis meses trabalhando no escritório da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, como assistente do embaixador inglês. Em seu currículo, consta também um mestrado em Literatura Inglesa na Universidade de Oxford. Quando o monge John Main – que havia sido seu professor no colégio beneditino – criou um centro de meditação cristã para leigos em Londres, em 1975, Laurence resolveu participar da experiência. Passou seis meses no mosteiro aprendendo a meditar. “No fim daquele período, quando eu pensava em voltar para o meu trabalho como jornalista e para a vida acadêmica, já não conseguia sentir entusiasmo”, diz. Ao mesmo tempo, a vida contemplativa dos monges o deixou encantado. “Levei o verão todo para decidir o que fazer. A meditação foi o começo de uma longa jornada espiritual.

Como eu era um aprendiz vagaroso e indisciplinado, resolvi me tornar monge para continuar aquela jornada.” Em viagens e retiros espirituais pelo mundo, Dom Laurence divulga a prática meditativa como maneira de promover a paz. Ele é o guia espiritual da Comunidade Mundial para a Meditação Cristã, que reúne 27 centros de meditação e mais de uma centena de grupos presentes em mais de 50 países, inclusive no Brasil. Numa das visitas a São Paulo, Dom Laurence conversou com a Super.

Super – Qual a importância da prática da meditação?

A meditação é importante nos dias de hoje por causa do desequilíbrio das nossas vidas. Vivemos numa velocidade muito alta, sempre lutando contra o tempo. Gradualmente, vamos perdendo o contato com o centro do nosso ser, onde experimentamos paz, alegria, amor e os sentimentos essenciais para estarmos bem. Dia desses, em Londres, eu buscava um lugar para estacionar o carro. Ao virar a esquina, achei uma vaga e fiz uma manobra. Um ciclista que estava atrás de mim teve que desviar bruscamente. Não aconteceu nada grave, mas percebi que ele me seguia para tirar satisfações. E me xingava, gritando. Voltei-me para ele, pedi desculpas e perguntei o que poderia fazer para ajudá-lo. Ele ficou tão surpreso – afinal, esperava uma reação nervosa da minha parte – que disse apenas: “Prometa que nunca mais fará isso”. Foi engraçado, mas preocupante. O rapaz sentia uma raiva profunda, não somente por causa da fechada no trânsito. Era uma vontade de brigar, uma infelicidade intensa. Se falta paz dentro de cada um, imagine na sociedade como um todo.

A meditação pode resgatar essa paz interior?

Certamente. Note como, na sociedade, existe uma certa obsessão pela violência, mesmo nos momentos de lazer, em filmes e jogos. Por causa das condições da vida moderna, não temos tempo de estar em contato com as fontes de paz e alegria dentro de nós mesmos. Por isso, é fundamental ter uma disciplina espiritual, como a meditação. Sem esse contato profundo consigo mesmo, o indivíduo morre como ser humano. Hoje há um grande interesse no autoconhecimento. As pessoas querem saber mais sobre si mesmas, buscam os psicólogos. Isso é útil e proveitoso, afinal precisamos nos conhecer bem para viver com qualidade. As tradições religiosas, contudo, entendem o autoconhecimento de uma maneira bem mais profunda. Não se trata somente de saber algo mais sobre a própria personalidade, mas de estar em contato com o profundo de nós mesmos, onde Deus está. A tradição cristã sempre ensinou que conhecer-se verdadeiramente é conhecer a Deus.

A meditação sempre esteve presente na tradição cristã?

Sim, mas não tem sido central na vida espiritual diária dos cristãos. Durante muito tempo, a Igreja Católica ocidental envolveu-se em questões seculares e esteve preocupada com sua dimensão externa e com a conversão dos pagãos. Perdeu, aos poucos, sua vida interior e contemplativa. Nos séculos XVI e XVII, a contemplação foi marginalizada e a meditação acabou restrita a monges, padres e freiras. Nos últimos 50 anos, porém, vários monges católicos retomaram a tradição meditativa e formaram comunidades para estimular essa prática.

Há diferenças entre a meditação cristã e a budista?

Tanto diferenças quanto similaridades. A meditação é uma prática espiritual presente em diversas tradições religiosas. Pode ser definida como um jornada da mente para o coração. Você sai de uma atividade consciente para uma vivência espiritual. Conseguimos isso com muita disciplina, estando tranqüilos e silenciosos. Na prática, tanto cristãos quanto budistas vivem essa mesma experiência espiritual e os frutos são iguais: paz, alegria, paciência, bondade etc. Mas o significado da experiência meditativa é diferente. Nós, cristãos, acreditamos que, ao meditar, rezamos como Jesus Cristo rezava. Ele tinha tanto os momentos de contemplação profunda quanto de compromisso com os semelhantes. A ação concreta é resultado dessa viagem interior.

O senhor é um grande defensor do diálogo inter-religioso. Um exemplo foi o programa The Way of Peace (O Caminho da Paz), com o Dalai Lama. Como o senhor avalia a experiência?

Foi um programa que durou três anos, de 1998 a 2000. Queríamos explorar o diálogo entre budistas e cristãos, por meio da meditação, em três diferentes caminhos: uma peregrinação, um retiro espiritual e um trabalho conjunto pela paz. No primeiro ano, estivemos com o Dalai Lama em Bodhgaya, na Índia, um lugar sagrado para o budismo. No ano seguinte, o diálogo foi num retiro na Itália. E, por fim, fomos a Belfast, na Irlanda do Norte, refletir sobre a amizade entre as religiões e o processo de paz. Quisemos mostrar que a amizade espiritual entre budistas e cristãos, via meditação, podia colaborar para a solução dos conflitos entre católicos e protestantes. Em outras palavras, a amizade espiritual, em profundidade, contribui de modo poderoso para a paz entre as pessoas. Acho que fomos bem-sucedidos. Tivemos encontros com políticos, líderes religiosos, jovens e vítimas da violência. O Way of Peace continua com encontros anuais, quando refletimos sobre a ligação entre a meditação e o processo de paz. Tentamos mostrar que a violência não leva a lugar algum.

Como explicar os conflitos justificados pela religião?

Todas as religiões, em sua origem, pregam o amor e a paz. Se estimulam o conflito, alguma coisa está errada. Hoje há uma grande confusão entre fé e crenças. A fé é a capacidade humana para transcender, ou seja, para estabelecer um relacionamento profundo com Deus. Cada um descreve sua experiência de fé de um jeito diferente. As crenças são justamente o modo de expressar essa fé, conforme a tradição, os costumes e a cultura. Se nos apoiamos somente nas nossas crenças e esquecemos a fé, todos aqueles que têm uma crença diferente se tornam inimigos. Daí as divisões dentro da própria Igreja e entre os diversos grupos religiosos, as inimizades, os confrontos. A oração precisa ser profunda, senão a religião se torna perigosa.

Como a meditação contribui para o processo de paz no mundo?

Ela nos deixa conscientes das sementes de violência que estão dentro de nós: perda ou rejeição, tristeza, raiva. Assim, podemos corrigi-las precocemente. A meditação também nos coloca em contato com um espaço interior comum a todos os homens. Quando o indivíduo se sente parte desse “espaço de humanidade”, entende que é possível partilhar com os demais. Essa é a base da cooperação, da existência pacífica.

• Monge beneditino do mosteiro de Cristo Rei em Cockfosters, Londres.

• Tem 51 anos e é autor de seis livros sobre meditação cristã.

• Gosta de ler romances e, quando vem ao Brasil, aprecia correr ao longo da praia de Copacabana, no Rio.

“A meditação nos deixa conscientes das sementes de violência que estão dentro de nós”

Fonte: http://super.abril.com.br/superarquivo/2002/conteudo_260444.shtml

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A psicanálise no divã

Publicado por educaçãoevida em Agosto 27, 2008

out 2002

Cada vez mais pessoas estão trocando o analista por medicamentos, novos tratamentos psicológicos e terapias alternativas para aliviar o sofrimento da mente. Será que as idéias de Freud estão morrendo?

Rodrigo Cavalcante / Alceu Nunes

Freud explica” é um dos grandes clichês do século XX. Mesmo quem nunca leu sequer um parágrafo dos mais de 20 livros do fundador da psicanálise já esbarrou com termos como complexo de Édipo, desejos reprimidos, inveja do pênis, símbolos fálicos, ego, id e superego. A figura do gênio de cabelos grisalhos, barba bem aparada, com seu sugestivo charuto e um olhar que parece penetrar nas profundezas da alma humana faz parte do inconsciente de nossa época. Aliás, a própria noção do inconsciente está para Freud como a Teoria da Relatividade para Einstein ou a evolução para Darwin. Ainda hoje, pessoas em todo o mundo se submetem ao mesmo ritual que ele desenvolveu para tratar dos males da mente: vão a um especialista, sentam-se num móvel acolchoado e começam a falar.

Apesar de tão popular, a psicanálise (nome que Freud deu a esse método, em 1896), nunca foi alvo de tantas críticas como nos últimos anos. Neurologistas e estudiosos da mente dizem que boa parte dela está mais próxima da ficção do que da ciência e que as obras de Freud hoje não passam de boa literatura (ele escrevia muito bem). Psicólogos sociais acusam a ênfase dada por Freud às relações familiares e à sexualidade como modelos limitados de interpretação do sofrimento psíquico, propondo novos caminhos para cuidar dos problemas existenciais. Contribuindo para esvaziar ainda mais os consultórios dos psicanalistas, milhares de pessoas procuram alívio para o sofrimento da alma em psicoterapias não-freudianas e até mesmo na filosofia oriental e na redescoberta da própria espiritualidade.

“Só quem tem pouco bom senso levaria hoje a sério a maioria das idéias de Freud”, diz a psicóloga Sophie, professora da Faculdade Simmons, em Boston, nos Estados Unidos. Sua declaração seria mais uma dentre o coro de críticos de Freud, não fosse por um detalhe importante. O último nome de Sophie é Freud. Isso mesmo: a neta do fundador da psicanálise disse à Super que é bastante cética diante das teorias do avô e acha que pouca coisa de suas teses ainda pode ser considerada.

Não é a primeira vez que Sophie faz críticas à psicanálise. Em 1995, ela participou, junto com diversos críticos de Freud, nos Estados Unidos, de uma manifestação contra o tom “adulatório” de uma exposição sobre seu avô que seria inaugurada naquele ano, na Biblioteca do Congresso Americano. Além de ser adiada para 1998, quando finalmente foi aberta, a exposição incorporou uma “visão mais crítica de Freud” e foi um indício de que os ataques à psicanálise não iriam parar por aí.

Poucos desses críticos deixam de reconhecer, é claro, a genialidade e o pioneirismo do pensador austríaco. Mas isso não os impede de atingir em cheio a psicanálise ao contestarem sua validade atual como tratamento clínico da mente. “Não há nenhuma prova de que os seus resultados sejam eficazes”, diz a neta de Freud. “A psicanálise se tornou uma espécie de religião.” Como o tratamento pode ser prolongado por anos, exigindo sessões semanais, ela ainda teria o inconveniente de ser uma religião muito cara.

Afinal, vale ou não a pena pagar por anos de análise? Os psicanalistas afirmam que sim e rebatem as críticas dizendo que elas são típicas de uma época em que as pessoas querem resolver seus problemas existenciais na farmácia, como se fosse possível encontrar a felicidade em cartelas de antidepressivos, como o Prozac. O problema com as drogas é que elas atuariam nos sintomas e não nas causas do sofrimento psíquico. Passado o efeito do medicamento, todas as insatisfações voltariam porque seus nós não teriam sido desatados. “Ninguém tem dúvidas de que muitas das novas drogas podem aliviar os sintomas de diversas doenças da mente”, diz Peter Gay, psicanalista, historiador, professor emérito da Universidade de Yale e autor da famosa biografia Freud: Uma Vida para o Nosso Tempo. “Mas elas não podem curar ninguém. A técnica do tratamento pela fala, criação de Freud, é e permanecerá essencial.” (Veja as principais idéias de Freud e suas críticas na página ao lado.)

Talvez seja cedo para afirmar se, no futuro, Freud será mais lembrado como o médico que inventou um tratamento revolucionário para as doenças mentais ou como um dos 26 autores mais importantes da literatura, na seleção que o crítico literário Harold Bloom fez em seu livro O Cânone Ocidental.

O próprio Freud, em alguns de seus textos, aventou a possibilidade de que um dia a psicanálise talvez fosse deixada para trás, substituída por um novo tratamento. A única coisa certa é que, para continuar mantendo seu grau de influência, ela terá que responder aos seus principais concorrentes do início do século XXI.

Freud x neurociência

Pouca gente sabe, mas antes de criar a psicanálise o próprio Freud passou anos de sua vida tentando entender o funcionamento da fisiologia do cérebro e como ele poderia desencadear os distúrbios mentais, igualzinho a qualquer neurocientista moderno. Entre 1882 e 1885, Freud trabalhou com pacientes que sofriam de lesão cerebral no Hospital Geral de Viena, já tendo pesquisado o sistema nervoso de lampréias e lagostins. Então por que boa parte dos neurocientistas atuais vive criticando suas idéias?

“Não se trata de uma crítica a Freud, trata-se de reconhecer que os modelos da psicanálise não se encaixam com o que sabemos hoje sobre o funcionamento do cérebro”, diz o neurocientista Ivan Izquierdo, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. “Sabe-se hoje que doenças como a esquizofrenia, que no passado era relacionada a um trauma psicológico, têm origem orgânica.” Izquierdo diz que diversos estudos revelam que os pacientes esquizofrênicos têm um déficit anatômico na região do nosso cérebro que fica logo abaixo da testa, conhecida como córtex pré-frontal.

Esse déficit geraria uma falha na chamada memória de trabalho (a memória usada para nos orientar no aqui e agora), fazendo com que o esquizofrênico perceba a realidade como alucinação. “Para controlar os mecanismos que disparam essas alucinações, a medicação é fundamental”, diz o neurocientista. “Utilizar o modelo freudiano para tentar curar alguns desses distúrbios pode ser tão inútil quanto tentar encontrar um erro num programa de computador quando a base do problema está na máquina.”

Máquina? Não seria uma simplificação comparar um homem a um computador, traçando uma linha clara entre um hardware, formado pelo cérebro e suas interações químicas, e um software, constituído por nossas emoções, pensamentos e experiências de vida? Izquierdo diz que é claro que a divisão não é tão simples e há uma série de interações entre as predisposições orgânicas e história de vida. “Se você tem uma tendência para a depressão, por exemplo, é óbvio que ela vai estar associada a algumas passagens de sua vida”, diz Izquierdo. “Mas a predisposição já estava lá, enquanto outras pessoas, com experiências semelhantes, reagem de outra forma apenas por não terem a mesma tendência.”

Ele diz que isso não significa que um evento como a perda de uma pessoa querida ou um trauma de guerra não possa causar um distúrbio numa pessoa normal. “É claro que pode”, diz Izquierdo. Mas mesmo nesses casos, conhecidos como síndrome pós-trauma, ele diz que a psicanálise freudiana nem sempre é útil e às vezes pode até ter efeito negativo. “Trabalhar com a memória nesses casos pode despertar sensações terríveis que agravam o estado do paciente”, diz.

“É claro que é fundamental fazer algum tratamento psicológico, mas outras terapias não-freudianas podem ser mais indicadas.”

Apesar de reconhecer a importância do legado de Freud com a criação do tratamento pela fala – disseminado em quase todas as terapias –, Izquierdo diz que usar conceitos como o de complexo de Édipo para entender a psique é quase tão gratuito como era, no tempo de Jesus, dizer que um epilético estava possuído pelo demônio. “A psicanálise está cheia de metáforas que podem até ser úteis para descrever algumas condições humanas”, diz Izquierdo. “Mas útil não quer dizer verdadeiro.” Então como explicar o depoimento de milhares de pessoas que atestam que a análise freudiana mudou suas vidas para melhor?

O neurocientista Renato Sabattini, da Unicamp, diz ter a resposta para essa pergunta: “A psicanálise funciona, sim. Mas não pela validade de suas teorias, e sim pelo efeito placebo que a fala tem no tratamento de distúrbios da mente”. Sabattini diz que em casos de depressão e ansiedade esse efeito pode ter resultados favoráveis de até 40%.

Já em casos em que a origem orgânica seria mais evidente, como na esquizofrenia, os resultados seriam menores, cerca de 20%. “Não se trata de negar o óbvio benefício que ouvir o paciente pode trazer”, diz

Sabattini. “Trata-se de reconhecer que não há nenhuma base científica que sustente a psicanálise.”

Como exemplo, ele cita o papel que Freud deu aos sonhos em seu livro

A Interpretação dos Sonhos, um marco na história da psicanálise, escrito em 1900. Para Freud, o conteúdo do sonho, por mais absurdo que possa parecer ao senso comum, estaria repleto de desejos inconscientes que poderiam ser identificados pela interpretação do analista. “Se você sonhasse com alguns objetos fálicos, isso poderia significar desejos sexuais implícitos, o que era típico da sociedade em que ele viveu”, diz Sabattini. “Hoje, se um sujeito passa muito tempo sem um contato sexual, ele não sonha com objetos que lembram órgãos sexuais. Ele sonha com sexo explícito.” Sabattini diz que a neurociência pode mostrar apenas que o sonho funciona como uma espécie de organizador do cérebro e diz que animais que são privados de entrar no estado de sono REM, responsável pelo sonho, passam a ter inúmeros problemas, como déficit de aprendizado.

“É claro que, se você procurar, pode encontrar no seu sonho padrões e significados para o que quiser”, diz Sabattini. “Da mesma forma que você pode dar inúmeros significados a um quadro abstrato numa exposição de arte moderna.” Mas isso é ciência?

“Não”, responde Adolf Grünbaum, considerado um dos mais ferrenhos críticos da psicanálise no mundo. Professor de Psiquiatria e chefe do departamento de Filosofia da Ciência da Universidade de Pittsburgh, Estados Unidos, ele espinafra a validade do método inventado por Freud em seus livros The Foundations of Psychoanalysis: A Philosophical Critique (Os Fundamentos da Psicanálise: Uma Crítica Filosófica, inédito no Brasil) e Validation in the Clinical Theory of Psychoanalysis (Validade na Teoria Clínica da Psicanálise, também inédito aqui). “Está claro que ela já está morrendo em países como a Alemanha, a Suíça e os Estados Unidos”, diz Grünbaum. “Talvez ela tenha uma sobrevida maior na França, Itália e Argentina, mas basta observar o decrescente número de psiquiatras que estudam para ser psicanalistas para constatar sua decadência.” Ele diz que essa tendência deve se manter graças a três fatores.

O primeiro seria a falta de evidências de que o tratamento psicanalítico tem uma boa relação custo/benefício – para ele, há tratamentos mais rápidos e baratos, e ninguém conseguiu provar que a psicanálise é mais eficiente do que esses tratamentos. A segunda razão seria a ascensão dos novos medicamentos. Aliadas a psicoterapias de curto prazo, as novas drogas estariam tomando o lugar da psicanálise.

E o terceiro e mais controverso fator seria a falta de critérios para o credenciamento de psicanalistas, ao menos nos Estados Unidos. “Há todo um sistema corrompido e arbitrário, já que não existem pré-requisitos sólidos para alguém ser considerado um psicanalista”, diz o psiquiatra.

Para Grünbaum, um dos traços marcantes que comprovaria a falta de fundamento científico da psicanálise estaria em sua quase infinita capacidade para rebater qualquer dado que contradiga suas teorias. Costuma-se ilustrar esse traço com a história de um analista que, baseado nas palavras de um adolescente, interpreta que o garoto apresenta uma clássica síndrome de Édipo: quer matar seu pai e copular com sua mãe. Se o rapaz concordar com a interpretação, ótimo. Se a rejeitar, sua negação é uma forte prova de que ele está reprimindo seus impulsos. Essa estratégia é conhecida pelos detratores da psicanálise como “cara eu ganho, coroa você perde”, e teria sido usada por Freud e seus seguidores. “Não é à toa que nas principais universidades americanas as idéias de Freud estão saindo dos departamentos de medicina e psicologia e sobrevivem apenas nos cursos de literatura.”

Será mesmo? Pelo menos no Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Iowa, há um neurocientista bem mais cauteloso em suas críticas à psicanálise. Conhecido no Brasil por seus livros O Erro de Descartes e O Mistério da Consciência, o neurologista António Damásio diz que, mesmo reconhecendo as limitações da psicanálise, é preciso admitir que Freud estava correto em vários aspectos sobre o cérebro. “O problema central da psicanálise não está em Freud”, diz Damásio. “Está num imenso número de psicanalistas que se fecharam ao mundo exterior, apegando-se a teorias como se fossem dogmas religiosos.”

Freud X Psicologia Social

Não deixa de ser uma ironia, mas enquanto a neurociência critica o método freudiano pela falta de objetividade, uma corrente da psicologia contemporânea diz que a psicanálise não pode ajudar o homem moderno exatamente pelo motivo oposto: ela estaria excessivamente fechada num modelo de indivíduo do tempo de Freud, não levando em consideração que há uma infinidade de outras causas que podem ser responsáveis pelos distúrbios mentais.

Ou seja: uma acusação é de falta de solidez científica; a outra é de excesso de rigidez e cientificismo na hora de lidar com o comportamento humano. “Não adianta ficar procurando a origem do sofrimento psíquico apenas no inconsciente, como faz a psicanálise, ou numa origem orgânica, como fazem os neurocientistas”, diz Luis Antônio Baptista, professor de Psicologia Social da Universidade Federal Fluminense (UFF). “Há outros fatores no mundo real, como viver numa cidade violenta ou o medo de perder o emprego, que podem, por exemplo, levar alguém à depressão.”

O que Luis Antônio e outros psicólogos sociais criticam no método psicanalítico é a ênfase de que existe uma clara fronteira entre o indivíduo, de um lado, e o mundo externo, do outro. Ou seja: sabe essa idéia que você tem de que de há um universo só seu, bem separado da vida social? Pois é. Para esses psicólogos, essa idéia de indivíduo não tem nada de natural. “Ela é um produto de uma época e, como tal, muda de tempo em tempo e pode até mesmo variar de cultura para cultura”, diz Silvia Carvalho, professora de psicologia social da UFF. Seria inútil, por exemplo, tentar adaptar alguns conceitos psicanalíticos para um membro da comunidade ianomâmi, que teria uma visão de indivíduo completamente diferente de quem vive numa sociedade capitalista competitiva. Da mesma forma, conceitos como o complexo de Édipo seriam produto da sociedade vienense no tempo de Freud, e não “eventos naturais” válidos em qualquer época.

Michel Foucault, Gilles Deleuze e Félix Guattari são os três filósofos franceses que serviram de base para esse questionamento da psicanálise. Em 1972, Guatarri e Deleuze escreveram juntos o livro O Anti-Édipo, criticando as idéias de Freud e seus seguidores por sempre buscarem um evento ou um trauma original para enquadrar o analisado numa certa categoria. Segundo os dois filósofos franceses, essa é uma visão extremamente reducionista do homem. O problema é: se já era complicado para um psicanalista vasculhar o mundo interior de uma pessoa, como lidar com o sofrimento pessoal de alguém alargando essas fronteiras para outras fatores como a política, a economia? Parece impossível na prática, não?

A médica e analista carioca Ana Rego Monteiro garante que é perfeitamente viável. Ela diz que, em vez de privilegiar, como na psicanálise, as relações familiares e a infância como uma das fontes mais importantes para o sofrimento de alguém, o analista tem que levar em conta que outras forças como a pressão no trabalho ou mesmo a exigência de se enquadrar num padrão de beleza não devem ter necessariamente um peso menor que aqueles fatores para desencadear uma depressão. “No lugar de classificar o paciente dentro de um quadro de doença psíquica, é preciso analisar as forças que estão atuando para produzir esse sofrimento”, diz a analista. Ela propõe, por exemplo, que o aumento de transtornos como a síndrome de pânico estaria ligado às mudanças econômicas, políticas e tecnológicas do mundo moderno. “É inútil querer curar alguém apenas com medicamentos ou tentando solucionar conflitos interiores”, afirma. “É preciso entender o conjunto de outras forças políticas que agem na mente dessa pessoa.”

Freud x Nova Era

Como um bom gastroenterologista, Wilhelm Kenzler cuidava com esmero do estômago de seus pacientes. Examinava, entubava, operava e indicava remédios para aliviar a dor. Até que um dia, quando fazia seu doutorado na Alemanha, na década de 1950, ele atendeu um homem com uma intrigante dor de estômago. Depois de um exame físico detalhado, o médico não achou absolutamente nada de anormal com o paciente – pelo menos até começar a conversar com ele. “Ele sentou e me contou sua história de vida”, diz Kenzler. “Quando me disse que queria largar sua mulher, 15 anos mais velha que ele, e que seu relacionamento com ela era típico de mãe e filho, percebi qual a verdadeira origem de sua dor de estômago.”

Depois disso, o médico decidiu estudar psicanálise para compreender melhor as chamadas doenças psicossomáticas – que produzem sintomas físicos mas têm origem na mente. “Me submeti a cinco anos de análise, fiz o curso na Sociedade Brasileira de Psicanálise, mas cheguei à conclusão de que o modelo freudiano era insuficiente como resposta às minhas inquietações”, diz Kenzler. Foi então que ele tomou uma decisão cada vez mais comum entre as pessoas que procuram alternativas para o divã: trocou Freud pela espiritualidade. “A psicanálise cuida apenas de uma dimensão do ser humano, mas há outras dimensões que precisam ser levadas em consideração”, diz.

Você já deve ter notado que esse tipo de crítica a Freud é totalmente diferente das feitas pelos neurocientistas ou por novas correntes da psicologia. Não se trata de acusar a psicanálise de falta de rigor científico ou de negligência diante do contexto social. Trata-se de criticá-la por ignorar a existência de outros estados transcendentais da mente que nem a teoria de Freud nem a psicologia ocidental e muito menos a psiquiatria levam em consideração.

“Ninguém tem dúvida de que a visão de Freud sobre o funcionamento da mente e o desenvolvimento da personalidade tiveram conseqüências extraordinárias”, disse à Super o físico austríaco e professor da Universidade de Berkeley, na Califórnia, Fritjof Capra. Considerado um dos mais famosos críticos da visão mecanicista da ciência ocidental, ele diz que a psicanálise freudiana terminou se fechando para as experiências religiosas e místicas. “Apesar de Freud ter se interessado pela religião e pela espiritualidade durante toda a sua vida, ele chegou a considerar a religião uma neurose da humanidade”, diz o físico. “Isso fez com que experiências dessa natureza passassem a ser enquadradas até mesmo como sintomas de uma psicose.”

A americana Suzan Andrews, monja de meditação radicada em São Paulo, diz que essa limitação da psicanálise freudiana não existe à toa. “De William James a Freud, a psicologia ocidental tem pouco mais de 200 anos”, diz Suzan. “Já a psicologia oriental estuda esses estados mentais há cerca de 7000 anos.”

Suzan, que passou 30 anos entre a Índia e a China estudando técnicas de meditação, diz que o método freudiano de cura pela fala não é o melhor caminho para tratar do sofrimento da mente. “Em vez de alívio, ficar falando de suas angústias despende ainda mais energia do corpo”, diz Suzan. “A meditação pode trazer resultados melhores que o tratamento verbal.” Mas isso, por acaso, não seria uma fuga dos problemas existenciais que a psicanálise traria à tona?

Ela garante que não. “Não se trata de fugir dos nossos conflitos internos”, diz Suzan. “Trata-se de fortalecer a mente para que você responda a esses conflitos com compaixão, até mesmo porque a origem deles não está necessariamente restrita a passagens da infância.”

A insistência em procurar a origem da infelicidade humana com base apenas nessa vida é, para as correntes espiritualistas, a maior limitação da psicanálise. Isso mesmo: para eles, boa parte do que você é hoje em dia é produto de inúmeras reencarnações.

É nisso que acreditam, por exemplo, as milhares de pessoas que lêem e seguem a filosofia budista do Dalai Lama, líder espiritual do povo tibetano. (Leia a reportagem de capa da

Super “A Vida Segundo o Dalai”, edição de agosto de 2001.) O psiquiatra americano Howard Cutler, que escreveu com o Dalai Lama o best-seller A Arte da Felicidade, resume assim a principal semelhança e a maior diferença entre o budismo e a psicanálise: “A semelhança é que as duas filosofias acreditam que há algo como o inconsciente que registra eventos do passado e moldam nosso comportamento”, diz Cutler. “A diferença é que, segundo o budismo, esses registros podem ter origem em vidas passadas.” Nesse caso, pouco adiantaria ir a um analista para compreender seus problemas atuais trabalhando com lembranças dessa vida. E talvez por isso exista cada vez mais gente buscando a felicidade e o auto-conhecimento na sua própria religiosidade – em detrimento do divã.

O futuro de Freud

É bem provável que a essa altura você já esteja pensando em como vai dizer a seu psicanalista que pretende suspender suas sessões. Mas será que os críticos de Freud conseguirão, realmente, enterrá-lo no passado? “Freud sobreviverá”, garante o historiador Peter Gay. Quanto às críticas de que a psicanálise não tem base científica e sempre arruma um jeito de ter resposta para tudo, ele rebate: “Esse ataque é extremamente simplista. Freud deixou clara sua aversão ao analista com respostas prontas para tudo. Só um irresponsável se comportaria dessa forma.” O problema é: quem pode definir quais parâmetros um terapeuta tem que seguir para ser chamado de psicanalista?

“Por enquanto, ninguém”, diz Márcio Giovanetti, presidente da Associação Brasileira de Psicanálise. Como a profissão não é regulamentada no Brasil, ele diz que qualquer um pode dizer que é psicanalista – mesmo que não tenha lido sequer um parágrafo da obra de Freud. “Esse é um dos motivos pelos quais algumas pessoas terminam descrentes quanto à psicanálise”, diz Giovanetti. “Mas é um absurdo pôr em dúvida a validade dos conceitos de Freud pela atuação de maus profissionais. Até porque isso pode ocorrer em qualquer profissão.”

Quanto à acusação de que Freud criou uma espécie de religião dogmática, os psicanalistas lembram que ele fez inúmeras revisões de suas teorias quando elas não se adequavam ao tratamento clínico. E mais: Freud teria premeditado o papel que as drogas poderiam ter, num texto de 1938, um ano antes de sua morte, quando escreveu que “o futuro poderá nos ensinar a exercer uma influência direta (na mente) por meio de substâncias químicas”.

O psicanalista e professor do departamento de Psiquiatria da Unicamp, Mário Eduardo Pereira, diz que é preciso acabar com essa idéia de que de um lado está a psiquiatria e, do outro, a psicanálise. “Assim como alguns psicanalistas podem ter uma devoção quase religiosa aos modelos de Freud, há um discurso não menos religioso de que os novos medicamentos podem resolver tudo sozinho.”

A historiadora e psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco é uma das principais críticas desse discurso da psicofarmacologia. Em seu livro Por que a psicanálise?, ela lembra que nem os criadores desses medicamentos acreditavam que eles seriam uma espécie de pílula mágica para os males existenciais. O psicanalista Renato Mezan, professor da PUC de São Paulo, concorda: “Essa questão de que existe uma oposição entre a neurociência e a psicanálise está mal colocada” diz. “Não há nenhuma incompatibilidade entre as duas, ao contrário: drogas como os antidepressivos podem ajudar a criar melhores condições para que o paciente possa ser analisado.”

O historiador Peter Gay diz que, no futuro, um caminho promissor para o estudo da mente terá até que contar com a parceria de neurologistas e psicanalistas. “Já existem pessoas nesse momento que estão tentando formular uma nova teoria da mente que possa congregar o trabalho dos neurologistas com o dos psicanalistas”, diz Gay.

“O problema é que falta um grande inovador como Freud para unir a produção dessas diferentes áreas.” O psiquiatra Henrique Del Nero, da USP, diz que se a psicanálise não fizer isso ela se tornará apenas “uma forma sofisticada e cara de buscar autoconhecimento.” Mas, afinal, as idéias de Freud morreram ou não?

Talvez tenha sido o americano John Horgan, ex-editor da revista Scientific American e bastante conhecido pelo seu ceticismo, quem tenha dado a resposta mais perspicaz a essa pergunta. Em seu livro A Mente Desconhecida, ele diz que não, Freud ainda não está morto. Mas, em vez de atribuir essa sobrevivência à validade intrínseca das teorias do fundador da psicanálise, ele aponta uma razão mais singela para a persistência das idéias de Freud: “Se os modelos da psicanálise são deficientes, a neurologia também estaria longe, muito longe de desvendar o maior mistério da ciência: a mente humana. E, para aumentar o nível de felicidade de alguém que sofre, vale o que funcionar, seja a ciência ou não. É isso, aparentemente, que as pessoas estão dizendo aos estudiosos.

Teoria trincada: será que o tratamento psicanalítico criado por Freud sobreviverá até o fim do século XXI?

Perguntado certa vez se o seu charuto não seria um símbolo fálico, Freud teria respondido: “Às vezes, um charuto é apenas um charuto”

A teoria psicanalítica teria sido escrita para a sociedade vienense na passagem do século XIX para o século XX – e não traduziria mais a psique humana de hoje

Freud editando o manuscrito de um de seus últimos livros: no final da vida, ele chegou a prever que os medicamentos teriam papel destacado no tratamento dos distúrbios da mente

Sigmund Freud, numa foto de 1939, ano de sua morte: mais de meio século depois, o mundo ainda é freudiano

Inconsciente

Apesar de não ter sido o primeiro a usar esse conceito, Freud inovou ao tratá-lo como uma espécie de depósito dos nossos desejos reprimidos ligados à sexualidade ou à agressão que ficam atuando sobre a mente consciente. Ao ouvir o paciente falar livremente no divã, o psicanalista o ajuda a compreender como a pressão do inconsciente está produzindo seus distúrbios para que ele possa se libertar deles.

Outras correntes, como a psicologia cognitiva, também trabalham com o conceito do inconsciente. A diferença é que, nesse caso, o inconsciente em princípio não poderia ser acessado pela consciência. Ele seria uma espécie de processador paralelo inerente à mente humana – e não um repositório de desejos reprimidos.

Sonhos

Com a publicação do seu livro A Interpretação dos Sonhos (1900), Freud diz que o sonho é a linguagem simbólica pela qual se manifesta o inconsciente, com todos os seus conflitos não resolvidos e desejos reprimidos.

A neurociência vê o sonho como um mecanismo auto-regulador do nosso cérebro. Ele faria a digestão dos acontecimentos do dia organizando quais informações devem ser guardadas nos arquivos da memória de longa duração e apagando as que não foram usadas.

Infância e sexualidade

Freud acredita que a mente adulta vai sendo moldada na infância, de acordo com as experiências de prazer e desprazer que ela vivencia em cada fase do desenvolvimento da libido – libido, para Freud, é a energia corporal expressa pelos instintos sexuais. Ela já estaria presente no bebê, por exemplo, ao se relacionar com seus pais. Se o bebê for menino, ele deseja ter a mãe para si e enxerga o pai como um rival que reprime seu desejo (complexo de Édipo). Já a menina desejaria o pai – mas também reprime essa vontade por temer perder o amor de sua mãe por isso. Mesmo permanecendo ocultos no inconsciente, esses desejos poderiam gerar distúrbios na mente do adulto.

Ainda que reconheçam o pioneirismo de Freud em descobrir que a criança também sente prazer sexual (não expressa ainda pelos órgãos genitais), seus opositores dizem que ele exagera na atenção que dá às relações da criança com seus pais como determinantes para definir o equilíbrio da vida mental do adulto. Para esses críticos, essa abordagem seria válida apenas no conceito da família da sociedade vienense em que Freud viveu.

Id, superego e ego

Para Freud, a personalidade está dividida em três partes. A primeira delas, o id, seria a mais profunda da psique humana. Lá estariam depositados os impulsos instintivos dominados pelo desejo de prazer. Ou seja: é o lado animal do homem, quase todo insconsciente. Já o superego seria uma espécie de polícia interna. É aquela voz que parece ser o senhor da razão, julgando nossos atos e, na maioria das vezes, censurando-nos. No meio do conflito entre os desejos do id e a censura do superego, estaria o ego. O ego é a parte da personalidade que está em contato direto com a realidade externa. Criado a partir do id, tem a função de garantir a saúde, a segurança e a sanidade da pessoa.

Alguns críticos dizem que esse modelo de Freud não tem nenhuma contrapartida com a neurociência – mas a neurociência tampouco parece ter algum modelo completo do funcionamento da mente. Enquanto psicólogos sociais consideram essa divisão reducionista, os espiritualistas dizem que a mente não está dividida apenas em três partes. Haveria outras forças, transcendentais, atuando sobre ela.

NA LIVRARIA

Por que a Psicanálise?, Elisabeth Roudinesco, Jorge Zahar Editor, 1994

Freud – Uma Vida para o Nosso Tempo, Peter Gay, Companhia das Letras, 1990

A Mente Desconhecida, John Horgan, Companhia das Letras, 2002

Freud, Sigmund Freud, Abril Cultural, 1978

Folha Explica Freud, Luiz Tenório Oliveira Lima, Publifolha, 2001

O Ponto de Mutação, Fritjof Capra, Cultrix, 2000

A Arte da Felicidade, Dalai Lama e Howard Cutler, Martins Fontes, 2002

The Freud Encyclopedia, Edward Erwin, Routledge, 2002

Tempo de Muda, Renato Mezan, Companhia das Letras, 1998

Dicionário de Psicanálise, Elisabeth Roudinesco, Jorge Zahar Editor, 1998

Fonte: http://super.abril.com.br/superarquivo/2002/conteudo_257517.shtml

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Programado para a fé

Publicado por educaçãoevida em Agosto 27, 2008

ago 2002

Imagens do cérebro, obtidas durante sessões de preces e meditação, ajudam a neurologia a desvendar os mistérios que cercam os fenômenos espirituais e indicam que há uma base biológica para a crença humana

Jomar Morais / Rodrigo Maroja

No início, é só uma sensação de crescente tranqüilidade. Pequenos incômodos ambientais, como o zumbido de um mosquito ou a elevação da temperatura, deixam de ser obstáculos à concentração. A ansiedade cede lugar à observação serena da vida, a uma paz indefinível. Então, numa súbita e indelével onda tem-se a impressão de que o corpo e a própria individualidade se dissolveram. Não existe mais limite entre o indivíduo e o resto do mundo, não há tempo nem espaço. Uma “iluminação” repentina parece esclarecer todas as coisas.

Você já experimentou ou deve conhecer alguém que passou por uma experiência semelhante. Delírio? Viagem? Mergulho numa outra dimensão? O Dalai Lama diz que já passou por isso (e, muito à vontade, repete a dose diariamente). No século XII, São Francisco de Assis, o santo do mundo natural, experimentou as mesmas sensações. Chico Xavier, o médium brasileiro que morreu no dia 30 de junho, conhecia o fenômeno desde criancinha. Na verdade, não existe uma única religião no planeta sem casos do gênero para narrar. Mas, afinal, o que é esse estado alterado de consciência tão constante em todos os credos? A resposta pode estar no seu cérebro. Pelo menos, segundo a mais recente tentativa da ciência para explicar a origem das experiências místicas que une a neurologia com a teologia: a neuroteologia.

O estudo das experiências religiosas não é novo. Mas quase nunca a ciência levou a sério esse tipo de pesquisa. A psiquiatria e a psicologia do início do século XX incluíram a experiência mística dentro do rol de doenças mentais. “Apesar da sua importância na vida das pessoas, a religião sempre foi tratada com indiferença ou apatia pela maioria dos psicólogos e neurocientistas”, diz David Wulff, psicólogo e professor do Wheaton College, em Massachusetts, Estados Unidos. Com a neuroteologia, isso está mudando. A partir de imagens obtidas por tomógrafos que detectam quais áreas do cérebro são ativadas em diferentes atividades, pesquisadores procuram agora entender o complexo relacionamento entre espiritualidade e cérebro, lançando as bases do que vem sendo considerada uma biologia da fé.

Não se trata de conversão dos céticos cientistas às crenças milenares. Eles continuam exigentes como antes na busca de provas que possam ser confirmadas em experiências realizadas por laboratórios. A diferença está nas novas técnicas de investigação e na importância crescente atribuída a esse tipo de pesquisa. Para isso, certos cientistas não têm hesitado sequer em se transformar em cobaias de seus próprios estudos. Eles se submetem ao fenômeno da consciência alterada durante transes naturais ou provocados, a fim de avaliarem nas entranhas a sensação de estar fora do espaço e do tempo relatada pelos religiosos. E, ao retornarem à normalidade, quase sempre trazem consigo alguma descoberta.

Nessas ocasiões, é comum um místico afirmar que se encontra na presença de Deus ou de uma entidade espiritual. Um cientista pode ter uma resposta diferente, como ocorreu com o neurologista americano James Austin quando experimentou, há 20 anos, uma sensação semelhante à descrita no início desta reportagem. Austin apreciava o rio Tâmisa fluir enquanto esperava um metrô em Londres quando tudo aconteceu: o senso de individualidade desapareceu e ele sentiu-se unido aos edifícios, ao rio e às nuvens, em meio a uma sensação de eternidade. Foram segundos infindáveis de deslumbramento. “Todos os meus receios, inclusive o medo da morte, desapareceram.

Eu havia alcançado a compreensão da natureza última das coisas”, revelou Austin, há três anos, no livro Zen and the Brain (O Zen e o cérebro), publicado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT, e ainda não traduzido para o português. Para o neurologista, no entanto, o extraordinário fenômeno não foi uma prova da existência de Deus. “Foi uma prova da existência do cérebro”, diz o pesquisador.

O estudo de Austin tem o mérito de ser um dos pioneiros na nova vertente de pesquisas dos eventos místicos, mas está longe de encerrar o assunto. De lá para cá, várias outras experiências foram realizadas por cientistas de universidades renomadas, como Harvard e Columbia, culminando com uma incursão inédita no território cerebral realizada por dois pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, também nos Estados Unidos: o radiologista Andrew Newberg e o psiquiatra Eugene d’Aquili, falecido há dois anos. Os dados da pesquisa estão no livro Why God Won’t Go Away (Por que Deus não vai embora, ainda sem tradução no Brasil) e confirmam o avanço do estudo dos fenômenos místicos em relação às técnicas tradicionais. Antes, podia-se apenas medir a alteração das ondas cerebrais – de beta para alfa – durante as experiências contemplativas, mas não se sabia por que a mudança ocorria nem que áreas do cérebro eram responsáveis por isso.

Newberg e D’Aquili avaliaram o desempenho cerebral de oito praticantes budistas, durante sessões de meditação, e o de um grupo de freiras franciscanas, enquanto elas rezavam fervorosamente durante 45 minutos. A maior novidade emergiu das imagens do lobo parietal superior, a área do cérebro localizada na parte de trás do crânio. Constatou-se que, no transcorrer das meditações, a atividade nessa região diminuía gradualmente até ficar praticamente bloqueada no momento de pico, aquele em que o meditador experimenta a sensação de iluminação religiosa. Justamente a mesma área do cérebro que, em estado normal, proporciona ao homem o senso de orientação no espaço e no tempo, bem como a diferenciação entre o indivíduo e os demais seres e coisas.

É como se, privados de impulsos elétricos, os neurônios do lobo parietal desligassem os mecanismos das funções visuais e motoras do organismo. Quando a experiência foi repetida com as franciscanas – cujas rezas enfatizam mais palavras que imagens – registrou-se uma excitação da região associada à linguagem, na base do lobo parietal, mas elas também tiveram os impulsos da área de orientação bloqueados ao atingirem o êxtase.

O que os budistas e as freiras sentiram não é resultado de auto-sugestão ou de uma doença mental, asseguram os pesquisadores. É algo real, baseado em eventos biológicos. “O sentimento de unicidade parece paralisar os receptores sensórios da região parietal”, diz Newberg. Com isso, o cérebro fica impossibilitado de traçar fronteiras e percebe o “eu” como um ente expandido, ilimitado e unido a todas as coisas. A sensação de unicidade, porém, é apenas uma – talvez a mais marcante – das impressões causadas pelas experiências místicas profundas. Os êxtases incluem, ainda, uma intensa alteração emocional com expressões de alegria e pavor. E, nesse aspecto, as imagens do cérebro trazem mais revelações.

As imagens dos lobos temporais, onde repousa o chamado “cérebro emocional” ou sistema límbico, mostram uma atividade redobrada dessas áreas durante as experiências contemplativas, o que ajuda a explicar as marcas deixadas por tais eventos na personalidade das pessoas. Formado numa etapa remota da evolução, quando surgiram os répteis, o sistema límbico está associado às emoções e reações instintivas. Nos humanos esses impulsos estão integrados a funções cognitivas superiores produzindo assim uma complexa experiência emocional. Cabe ao sistema límbico monitorar nossas vivências, atribuindo a cada uma delas um valor sentimental, o traço emotivo que permanece na memória e, não raro, pode ser a causa de fortes mudanças de atitude.

Você certamente já ouviu falar de alguém que mudou radicalmente os hábitos e o modo de ver a vida depois de escapar ileso de um acidente ou após ser alvo de uma demonstração extrema de amor num momento de dificuldade. Em escalas diferentes, eu e você certamente já fomos protagonistas de cenas do gênero, nas quais o sistema límbico assume o papel de diretor da peça. Na história das religiões eventos como esse são freqüentes. O judeu Saulo, por exemplo, comandava uma blitz policial para prender líderes cristãos no século I, quando teria experimentado um transe durante o qual viu o próprio Cristo propor-lhe uma nova vida. Depois disso, convertido, tornou-se o apóstolo Paulo, o grande responsável pela propagação do Cristianismo.

Sabe-se agora que uma intensa atividade elétrica nos lobos temporais pode levar alguém ao êxtase místico, o que faz com que alguns pesquisadores associem uma conexão entre o fenômeno religioso e o ataque de epilepsia, quando idêntica atividade dos lobos é registrada. Não há nada conclusivo sobre tal hipótese, mas uma engenhoca concebida para testá-la – um capacete que emite descargas elétricas, inventado por Michael Persinger, da Universidade Laurentian, em Sudbury, Canadá – confirmou que estímulos elétricos na base do sistema límbico podem provocar alucinações, a sensação de estar fora do corpo e o senso do divino. Ao estimular a mesma área, durante cirurgias no cérebro, alguns pacientes também relataram sentimentos religiosos.

A influência decisiva do “cérebro emocional” nos eventos místicos, diz Newberg, pode esclarecer, ainda, por que os rituais são uma prática tão importante nas religiões. Os movimentos estilizados e repetitivos, os símbolos como a cruz e as imagens sagradas e os cânticos usados nas cerimônias religiosas as diferenciam das ações cotidianas e, desse modo, ajudariam o cérebro a percebê-los como eventos mais significativos. Esses acessórios ativam o sistema límbico, ora produzindo alegria e harmonia, ora tensão e medo, facilitando a transição para os estados alterados de consciência.

E as experiências transcendentais não estariam restritas aos círculos de iniciados, mas são comuns mesmo entre as pessoas que não são religiosas. Na década passada, uma pesquisa do Instituto Gallup apurou que 53% dos americanos adultos admitiam já ter vivenciado um momento de súbito despertar espiritual ou insight, um lampejo intuitivo. Os relatos dessas experiências aumentavam com a idade, a educação e a renda das pessoas ouvidas. Apesar de não existirem dados precisos sobre o assunto no Brasil, seria razoável admitir que uma sondagem do gênero poderia registrar percentuais ainda maiores que os da pesquisa americana, se considerarmos que a crença em Deus é compartilhada por 99% da população, segundo apurou o Instituto Vox Populi no semestre passado – e o país é um celeiro mundial de religiões mediúnicas.

Os pesquisadores acreditam que não existe um só homem com as funções cerebrais em dia que não tenha experimentado um estado de êxtase semelhante aos dos místicos. Lembra aquele grito de gol que você deixou sair no meio da torcida organizada do seu time? Pois é, aquela impressão de que o tempo parou e você ficou maior que o estádio, enquanto berrava? É a mesma que, desde o início deste texto, estamos chamando de sensação de unicidade. E aquele arrepio que tomou conta de você ao cantar o hino nacional naquela passeata? Até quando você dança ou ouve um discurso empolgante – enfim, quando está diante de algum recurso que desperte o sistema límbico – é possível sentir, pelo menos parcialmente, o que os místicos costumam vivenciar quando buscam Deus.

Newberg e D’Aquili estudaram essas variantes e concluíram que isso acontece com pessoas absolutamente saudáveis. Os portadores de psicoses, como os esquizofrênicos, podem até entrar em transe, ter visões e ouvir vozes. Mas, nesse caso, segundo os pesquisadores, o fenômeno, relacionado a processos obsessivos, é repetitivo e torturante e não espontâneo e criativo como ocorre nas experiências místicas. Robert Formam, especialista em religiões comparadas do Hunter College de Nova York, diz que os indivíduos que passaram por uma experiência mística se mostram mais abertos a inovações e apresentam um grau maior de tolerância com a ambigüidade e a incerteza. Em compensação, diz o psicólogo David Wullf, eles também teriam mais dificuldade em distinguir o que é imaginação do que é real.

OK. Depois de tudo o que foi escrito, podemos então dizer que o funcionamento do cérebro explica todas as sensações que, ao longo de milênios, o homem tem atribuído aos deuses e a outras forças imponderáveis? Não é bem assim. No fundo, a polêmica continua. O que mudou foram os novos argumentos trazidos pela neuroteologia.

Proponha-se a questão a um neurofisiologista convencional, como o professor Luis Eugênio Mello, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e a resposta virá, taxativa: “As experiências místicas têm relação direta com o efeito placebo, que pode ser gerado por condicionamento ou por expectativa. O fato de se acreditar que alguma coisa vai acontecer acaba gerando conseqüências sobre as reações fisiológicas”. Luis Eugênio não aceita a hipótese de que o cérebro foi “meticulosamente preparado” para a experiência transcendental, como acredita Newberg, e acha que se temos essa predisposição à fé ela surgiu “por acaso”, usando áreas relevantes para outros processos neurais. Idéia semelhante têm ateus e materialistas, para os quais o denominador comum de todos aqueles fenômenos é o cérebro e nada mais.

“Não podemos dizer que eles estão errados”, afirma Newberg. “Nem que estão errados os que acreditam na existência de algum tipo de interação do cérebro com algo divino.” O único consenso, por enquanto, é que todas as nossas experiências, sejam as da realidade concreta sejam as místicas, ocorrem em nossa estrutura cerebral. A neuroteologia, no entanto, levanta suspeitas sobre o que poderia ser uma dimensão da consciência além dos lobos e feixes de neurônios, a partir da constatação de que a consciência persiste quando o indivíduo perde a noção do “eu” e os sentidos deixam de funcionar.

O fato de as experiências espirituais estarem associadas à atividade dos neurônios não quer dizer, necessariamente, que tais experiências são meras ilusões neurológicas, segundo Newberg, mas certamente que a engrenagem cerebral possui um mecanismo para a transcendência. “A questão central é determinar se a atividade neurológica associada à experiência espiritual significa que o cérebro é a causa dessa experiência ou se, em vez isso, está percebendo uma realidade além do corpo”, acrescenta o cientista. Até que se alcance um consenso, só a fé, seja numa teoria científica seja num dogma, será capaz de responder se Deus é uma criação do nosso cérebro ou se o nosso cérebro foi criado por Deus.

O cérebro de uma freira se altera quando ela se concentra em uma oração

Na década passada, uma pesquisa do Instituto Gallup revelou que 53% dos americanos de diversas religiões já vivenciaram um momento de súbito despertar espiritual

Ninguém precisa ser religioso para ter uma experiência transcendental

Há 50 000 anos, os neardentais que vagaram entre a África, a Ásia e a Europa, tornaram-se as primeiras criaturas a sepultar seus mortos com cerimônia. Junto com os corpos, eles enterraram ferramentas, armas, roupas e outros suprimentos que deixaram para a posteridade uma dúvida: teriam os nossos primos da Idade da Pedra equipado os defuntos com utensílios por acharem que, além do túmulo, eles continuariam a viver?

É significativo que tais esboços de prática religiosa, os mais antigos de que se tem notícia na história, estejam associados a esse grupo. Segundo Andrew Newberg, em seu estudo sobre o “circuito espiritual” do cérebro, eles foram os primeiros a possuir uma estrutura cerebral suficientemente poderosa para compreender a morte, dotada de um lobo parietal semelhante ao nosso, e, portanto, habilitada a processar as construções mitológicas. Em resumo: sabiam diferenciar a vida da morte e transcender a essa com a crença na imortalidade. Milhões de anos antes, outro ancestral humano, o Australopithecus, também chegou a exibir um lobo parietal desenvolvido mas, ao que parece, jamais foi capaz de produzir algum tipo de cerimônia elaborada. Faltava-lhe a estrutura neuronial necessária à linguagem, outro detalhe fundamental no desenvolvimento dos mitos.

Com o lobo parietal, possibilidades opostas – por exemplo, vida-morte, existência do predador-não-existência do predador – foram resolvidas por meio das mesmas funções cognitivas usadas para perceber o mundo físico. Como conseqüência, isso pode ter induzido a mente a transformar idéias em convicções e possibilidades em crenças. Os mitos e a própria religião seriam, dessa forma, quase uma conseqüência da evolução da nossa espécie. Isso explicaria, então, porque os mitos estão presentes em todas as culturas humanas.

Pascal Boyer, professor da Universidade Washington, em Saint Louis, Estados Unidos, é um dos poucos pesquisadores que discordam dessa “inevitabilidade biológica” para a crença nos mitos. No livro Religion Explained (A religião explicada, ainda não traduzido para o português), Boyer diz que a suposta universalidade de tais conceitos é apenas o efeito de uma seleção aleatória. A experiência humana, afirma, teria gerado um gigantesco arquivo de informações que o homem só conseguiu preservar parcialmente, em meio a milhões de mensagens perdidas, esquecidas, ignoradas, distorcidas e, algumas vezes, inventadas por nada. Formou-se então, segundo Boyer, uma sopa de representações e mensagens das quais só algumas acabaram fixando-se no imaginário coletivo. Seria o caso de alguns mitos religiosos.

Joseph Campbell, o renomado especialista em religiões autor dos livros As Máscaras de Deus e O Poder do Mito, foi um dos primeiros pesquisadores a destacar a universalidade de algumas dessas narrativas. Virgens que concebem enviados divinos, dilúvios, expulsões do paraíso, regiões celestes e infernais, tentações demoníacas e ressurreições não seriam exclusividade da Bíblia judaico-cristã. São argumentos mitológicos que se repetem nas diversas tradições religiosas do planeta e têm origem, segundo Campbell, em aspirações e crenças comuns. Veja-se, por exemplo, o episódio da tentação de Cristo. O Evangelho narra que Jesus retirou-se para orar no deserto e ali, durante 40 dias, foi assediado por Satanás, disposto a desviá-lo do seu propósito mediante a oferta de poder e prazeres. Cristo sobreviveu ao cerco e retornou fortalecido para cumprir sua missão. Cinco séculos antes, conforme a tradição budista, o jovem príncipe Sidarta enfrentou provação semelhante.

Ao exilar-se na floresta para meditar, durante 40 dias ele combateu as insinuações do demônio Mara, obstinado em tirá-lo da sua busca. Sidarta resistiu e alcançou a meta da iluminação espiritual, tornando-se Buda.

São igualmente universais certos elementos da ritualística religiosa, como a música e os movimentos ritmados, importantes na estimulação do sistema límbico que levariam ao estado de transe. Durante a história, a humanidade experimentou transes provocados pelo canto, pela dança ou por plantas alucinógenas. Alguns pesquisadores dizem que a perda desse costume – ainda preservado pelo espiritismo, os cultos afro-brasileiros, os evangélicos pentecostais e os católicos carismáticos – pode ter sido nociva ao homem.

“Trata-se de uma perda perigosa”, diz o doutor em Antropologia da Religião José Jorge de Carvalho, da Universidade de Brasília. “As pessoas que praticam o transe formam uma grande reserva de autocontrole. Muitas são capazes de enfrentar situações de adversidade extrema sem se estressarem.” A ênfase dada à racionalidade na civilização moderna privilegia as atividades do córtex cerebral mas, de acordo com José Jorge, o córtex é eficiente para mapear e controlar o mundo externo, não para lidar com o mundo interior, o mundo das emoções. “No transe, o cérebro emocional é exercitado”, diz José Jorge.

No passado, acredita Newberg, o sentimento e as práticas místicas foram fundamentais para a própria sobrevivência e evolução da humanidade, ainda que as religiões estejam associadas aos conflitos mais sangrentos da civilização. Os rituais ajudaram a reduzir a agressividade dos membros do grupo e a estabelecer laços sociais fortes entre eles. Evitaram a dispersão e facilitaram o esforço coletivo como nenhum outro recurso. “O poder dos mitos está no fato de que seus símbolos e temas nos conectam à parte mais essencial de nós mesmos de um modo que a lógica e a razão, sozinhas, não conseguem fazer”, diz Newberg.

Os mitos seriam uma conseqüência natural da evolução humana

Na livraria

Why God Won’t Go Away, Andrew Newberg e Eugene D’Aquili, Ballantine Books, EUA, 2001

Religion Explained, Pascal Boyer, Basic Books, EUA, 2001

O Universo Autoconsiente, Amit Goswami, Rosa dos Tempos, Rio de Janeiro, 2001

O Tao da Física, Fritjof Capra, Cultrix, São Paulo, 1999

Na internet

www.andrewnewberg.com

www.innerworlds.50megs.com

Fonte: http://super.abril.com.br/superarquivo/2002/conteudo_249087.shtml

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Dê férias para sua alma

Publicado por educaçãoevida em Agosto 27, 2008

mai 2002

Leia, respire, medite. No sul da França, um mosteiro budista mostra como a vida pode ser mais simples

Ruth de Aquino, de Paris

Era uma viagem de alto risco. Nunca tinha lido nada sobre Budismo. O máximo que eu tinha me permitido na linha do esoterismo era fazer meu mapa astral. Cultura oriental, para mim, se resumia a shiatsu e sushis. Agora, iria passar alguns dias num retiro em Plum Village (Vila das Ameixas), na Dordogne, sul da França. O objetivo era escrever uma reportagem sobre o fundador da Igreja Budista Unificada, Thich Nhat Hanh, o mestre zen vietnamita que, em 1967, foi indicado por Martin Luther King para ganhar o Prêmio Nobel da Paz. Decidi levar para o retiro meus dois filhos, que me visitavam em Paris. Bruno, 19 anos, e Pedro, 14, são cariocas, surfistas, amam a praia. Era um verão chuvoso. No site de Plum Village, percebi que a viagem não prometia descanso. Eu teria que acordar às cinco e meia da manhã para meditar em jejum. Passaria os dias em palestras, caminhadas e sessões de meditação. Iria trabalhar em grupo – cortar legumes e verduras, limpar a cozinha, lavar louça.

Meditação, trabalho e chuva no campo, junto com os filhos, nas férias escolares? Não parecia muito inteligente. Afinal, em nossa última aventura, tínhamos mergulhado em Fernando de Noronha. Para conhecer Plum Village em família, a hora certa é o verão europeu, quando os lótus florescem, há adolescentes e o tempo ajuda. Quem sabe, aprenderíamos outro tipo de “mergulho”? O que era para ser uma reportagem virou uma revelação. Para nós três.

Thich Nhat Hanh é pequeno, a testa lisa, careca como todos os monges. Tem 74 anos, mas o rosto jovem e seu humor simples atraem as crianças, que sempre o rodeiam nas caminhadas em Plum Village. Thich significa “mestre” e é assim que ele é conhecido. (Algumas de suas frases estão reproduzidas ao longo desta matéria.) Exilou-se na França nos anos 60, depois de dar uma palestra pacifista nos Estados Unidos e ser proibido de voltar ao Vietnã. Na maior parte do ano, viaja. Dá palestras na Alemanha, na França, no Brasil. Produz retiros especiais na França para executivos, psicanalistas, presidiários e refugiados vietnamitas. É escritor, jardineiro, professor, ativista da paz. No Retiro do Verão, em julho, recebe 1 600 pessoas de cerca de 15 países em Plum Village, comunidade que fundou há quase 20 anos.

Fala e anda devagar, e repete sem cansar seus ensinamentos. Tay, como o monge é chamado, tenta ensinar gente de todas as idades a respirar direito e a aproveitar o momento presente. É o princípio de tudo. Parece pouco? Não é.

O exercício de paciência começa na inscrição. Telefonar para os monges, só das 9 às 10h30 e das 16 às 17 horas, às terças, quartas, sextas e sábados. E, mesmo assim, quase não respondem. Você não entende como uma Igreja Budista com sucursais no Canadá, Estados Unidos e Europa possa ser tão “desorganizada”. Só mais tarde fica claro que se trata de um sutra ou um ensinamento para a arte da paciência. É possível, sim, fazer a inscrição pelo site, mas o período mínimo que a comunidade aceita é uma semana, em casos raros três ou quatro dias. Os retiros duram normalmente um mês e o de inverno é para os residentes e os monges. Um mês é o tempo ideal, segundo os monges. Mas, se você aprender de cara duas lições – concentrar-se em cada coisa que estiver fazendo e controlar a respiração, a emoção e o silêncio –, terá aprendido muito.

O trem barulhento que cobre os 85 quilômetros de Bordeaux à minúscula estação de Sainte Foy la Grande já é uma experiência. Parece uma viagem aos anos 70. Batas, mochilas, cabelos longos, vestidos inocentes, botas, uma moda romântica e desleixada. É fácil identificar quem vai para o retiro. Os iniciados têm o ar desligado, os modos gentis, e sorriem por nada. São sete núcleos em Plum Village, distantes alguns quilômetros entre si. Da estação de trem, 20 a 30 minutos de carro para o núcleo mais próximo. Eu já tinha sido informada por telefone (depois de inúmeras tentativas), que alguém iria nos pegar na estação, mas que precisaria chegar na quarta-feira. É o dia da chegada, quando as discussões, à noite, se dedicam aos novatos, aos iniciantes. Na porta da estação, nos aguardavam algumas caminhonetes, com os monges-motoristas. Os grupos chegam sem saber para onde vão, fazem muitas perguntas, os monges falam pouco, sorriem, e confirmo que treinar a paciência será realmente um dos requisitos.

Chegamos ao núcleo principal, Upper Hamlet, onde vou fazer o registro formal com meus filhos. Chove. Uma sala de 26 metros quadrados, onde se entra sem sapatos, e onde se empilham alguns monges e três terminais de computador. Só um dos monges, o irmão Ananda, é bom no computador. Primeiro choque cultural: eles não aceitam cartões de crédito ou de banco e eu não tinha levado dinheiro. Mas nos aceitam em confiança. Tudo continua parecendo desorganizado. Não temos a menor idéia do que esperam de nós ou do que vamos fazer. Antes do jantar, alguém nos leva a um núcleo recém-aberto, West Hamlet, isolado, que se resume a umas casas de pedra no meio do campo, e vinhedos a perder de vista. Bruno, Pedro e eu ficamos sem fôlego com a calma e a beleza. Somos levados a um quarto com parca iluminação, três camas, um banheiro. Roupa de cama limpa. Quem cuida desse núcleo é um casal de budistas. Moram ali. Cresceram juntos, eram vizinhos na Austrália.

Como somos uma família de novatos, eles explicam que o silêncio será apreciado. Em alguns períodos – no café da manhã, nos primeiros 15 minutos de cada refeição e à noite –, o silêncio deve ser total, ou seja, nem conversa sussurrada. Nada é imposto, nem o programa de meditação e discussões. Faz quem quer.

Para quem nunca entrou numa comunidade dessas, a primeira sensação é de estranheza. De repente, toca o telefone, e todos, inclusive as crianças, param o que estão fazendo, se calam e aguardam o terceiro toque. Só depois voltam ao “normal”. O mesmo acontece com três badaladas do sino, ou três toques do relógio. Os gestos, os talheres e as palavras suspensos no ar. O ritmo da cidade grande fica longe. Os passos rápidos parecem deslocados numa comunidade em que todos andam devagar. Fica evidente como as pessoas se deixam influenciar pelo ambiente. Imaginar que aquele ali ao lado falando baixo e sorrindo com delicadeza, dividindo trabalhos e se comportando educadamente, pode estar, de volta ao seu cotidiano, brigando… Para quem não sabe, é a tal “energia negativa do hábito” (vasana, em sânscrito) que nos leva a fazer e a dizer coisas que não queremos e que provocam mal-estar em todos.

Fumo, carne e álcool são vetados. Pede-se que se evite sexo durante os retiros. Mas a corrente de Thich Nhat Hanh é bem menos rigorosa que várias outras comunidades budistas, como a tibetana, por exemplo. No “dia da preguiça” em Plum Village, um dia por semana em que não há atividades programadas, pede-se que se “resista à tentação de ir à cidade”. Os monges acham que sair no meio do retiro quebra o processo mental de conscientização. As dicas são passeios nos lagos, nas trilhas, nos vinhedos. Ninguém fica ali “preso”. E há quem realmente não se habitua só à comida vegetariana e fica doido para sair e comer um hambúrguer. Esse pega o carro ou uma carona e vai à cidade. Ninguém é punido.

Há uma organização natural e simples, na qual você se encaixa sem perceber. Cada visitante é destinado a uma “família” de umas 12, 15 pessoas. A nossa era a Dandelion (dente de leão). Se faz sol, pode ser embaixo da árvore, em bancos de madeira. Se chove, vai-se para o templo principal ou um dos abrigos. Quem já fez terapia de grupo sabe que, dependendo de quem está ali, o papo pode ser aborrecido ou interessante. Holandeses, franceses, suecos, italianos, cada um com suas angústias. A holandesa, linda, tinha vergonha de ser modelo. O americano, pouco mais de 20 anos, decidira doar tudo e ir morar em Plum Village. O monge que coordenava as discussões sempre destacava um dos temas que o Tay tivesse abordado pela manhã.

Não é um spa. Mesmo no verão, acordar às cinco e meia da manhã é um desafio. Escuro, frio. Pedro, nos seus 14 anos, nem tentava. Eu e meu filho mais velho ouvíamos o sino, levantávamos e, agasalhados, andávamos cinco minutos até o pequeno templo de meditação local de West Hamlet, iluminado com um lampião. Em jejum, sem conversar. Tirávamos os sapatos, escolhíamos o melhor suporte, almofadas ou banquinhos de madeira, nos sentávamos em posição de lótus ou nos ajoelhávamos para meditar, costas eretas, olhos fechados. Mas, de preferência, sempre sem esforço, sem sacrifício. Meditar é não pensar. Ou então, nas meditações guiadas, refletir sobre alguns sentimentos, guiados pelo mestre. Bruno e eu jamais tínhamos meditado. Foi uma experiência curta mas intensa. “Despertar” dessa meditação e sair do templo com o dia clareando, o ar puro de doer nas narinas, sempre em silêncio, dá uma sensação de flutuar no tempo e no espaço. Acordávamos Pedro e íamos tomar o café. Pão integral, cereais, iogurte, tudo saudável.

De carona com um espanhol que vai todos os anos a Plum Village, íamos para o núcleo principal, Upper Hamlet, passando por colinas e vales. E prosseguíamos com o programa: às 8h30, palestra do Tay, para a qual vêm todos os que estão hospedados nos sete núcleos. Ele fala em inglês, francês ou vietnamita, dependendo da ocasião. Há traduções simultâneas em várias línguas, como espanhol, italiano e outras. Tay ensina como controlar a raiva, no trabalho e na família. Como resistir ao consumismo. Seja qual for o assunto, o objetivo é que as pessoas ali, em Plum Village, voltem ao mundo “lá fora” dispostas a buscar o equilíbrio. Tay convoca aleatoriamente um homem, uma mulher e duas crianças na platéia para que representem uma família. Cada um tem que expressar suas queixas para com o comportamento do outro. Os problemas são tão conhecidos por quem já experimentou o casamento! O “casal” tem que chegar a um consenso. As crianças entram no jogo, aconselhando os pais a dar mais tempo a elas.

Depois da palestra, passa-se a uma caminhada lenta e silenciosa. A flor de lótus parece extraterrena, imensa e alta, nascendo da água como uma vitória-régia, de vários tons de rosa, com uma corola verde e estranha. Esse exercício de se concentrar no presente, somado ao hábito de sorrir para desconhecidos, transforma sua relação com o mundo. Qualquer pessoa de fora terá a impressão de testemunhar uma cerimônia em que todos estão drogados. Deslizam, não caminham. O tempo ganha outra dimensão.

Às 13 horas, almoço. No refeitório repleto, o ruído é apenas dos talheres e das crianças menores. Nos primeiros 15 minutos de refeição, ninguém conversa. É artificial? Muito. Mas é uma disciplina com a qual a gente se acostuma, especialmente quando lembra que não vai ser assim para sempre. Às vezes, no mundo normal, fora de Plum Village, também é duro comer com alguém falando bobagem ao seu lado. Ou comer discutindo. Ou trabalhar comendo. Tudo isso é pouco saudável, mas muito freqüente, todos sabemos.

No retiro, lava-se a própria louça, em tendas abertas fora do refeitório. À tarde, faz-se working meditation, o trabalho em grupo, em sistema de rodízio entre as “famílias”. Quem cozinha mesmo são os monges e os residentes, mas os “hóspedes” como nós ajudam a cortar legumes, verduras e a limpar a cozinha – uma tarefa e tanto. Às 16h30, é hora da conversa com a “família”. Às 18h15, o jantar. Depois, uma hora de “meditação sentada” no templo principal de Upper Hamlet. E, às 22h15, vai-se dormir. Da meditação noturna até o fim do café da manhã no dia seguinte pede-se que todos respeitem o noble silence – silêncio nobre. Uma forma de não incomodar os outros e dormir em total sossego.

Esse programa não precisa ser seguido religiosamente. Como nossa temporada seria curta, eu e Bruno cumprimos todas as etapas. À noite, eu ficava exausta. Pedro pegava mais leve. Ouvia as palestras, aprendia os cânticos, discutia com a “família”, mas escapava em programas diferentes com os outros adolescentes. Quem tem menos de 15 anos vai, na primeira noite, para a “sala de transformação”. Pedro estava meio assustado. Brincávamos dizendo que ele iria sair da sala careca e de bata. Claro que não foi isso. Mas, mesmo assim, ficou surpreso com Plum Village.

Quando a chuva forte impedia a caminhada diária, Tay ia para a “sala de transformação” e contava histórias para as crianças e seus pais, junto à figura do Buda. Explicava que Buda não era um deus, mas sim um homem que encontrou o caminho da compreensão. Dharma significa o caminho. Sangha é a comunidade, os homens e mulheres que se engajam na plena consciência. E a plena consciência (chánh niêm, em vietnamita) é o contrário do esquecimento e da alienação. As lições são os sutras. E os exercícios mais importantes são os da respiração consciente para administrar as dificuldades do dia-a-dia.

Tay jardinava quando um jornalista lhe perguntou por que desperdiçava tempo plantando alface, quando poderia estar escrevendo livros ou dando palestras. “Se eu parar de plantar alface, não consigo mais escrever”, respondeu Tay. O maior desafio de Plum Village está fora dos limites daquela área verde. Despejar de volta na correria, na poluição, na briga pela sobrevivência dos centros urbanos, um exército de pessoas que consigam manter a tolerância, a saúde e a lealdade acima das divergências. Nos últimos três anos, 218 373 pessoas fizeram retiros em Plum Village. A maioria volta e leva amigos, filhos e namorados. Para uma experiência quase impossível de descrever numa reportagem…

Para saber mais

Na internet

www.plumvillage.org

www.bouddharama.com

www.zen-deshimaru.com

“Em Plum Village, as pessoas falam e andam devagar. A gente aprende a respirar direito e a aproveitar o momento. Parece pouco. Mas não é”

A flor de lótus (acima) faz parte da paisagem. Longas caminhadas diárias compõem o cotidiano daqueles que desejam fugir da paranóia urbana

O clima de serenidade e as instalações simples garantem aos visitantes de Plum Village momentos de paz e de contato com a natureza do sul da França

“O sorriso deve ser uma prática, especialmente nos momentos difíceis”

“Quando aprendermos a entrar em contato com a paz, estaremos curados. Não é uma questão de fé, é uma questão de prática”

“O futuro é composto de uma única substância chamada presente”

“Existe uma montanha dentro de você. Você é mais sólido e alegre do que pensa”

Nos ônibus parisienses um anúncio ensina: “Saiba como se tornar zen: basta comprar o passe anual de transporte público e seu estresse acaba”. Claro que o conceito histórico do zen é mais profundo. Mas o que nós, ocidentais do século 21, chamamos de zen tem semelhanças com essa filosofia que nasceu antes de Cristo e muito antes do próprio Buda: a paz de espírito. A primeira definição de zen foi encontrada num texto chinês do século 10 a.C. A palavra zen é japonesa, e sua origem é um ideograma chinês, o tch’na ou chana, que significa “absorção”. Os japoneses conseguiam ler os ideogramas chineses mas pronunciavam de forma diferente. Há 2 600 anos, quando Buda transformou o conceito em filosofia, sua língua era o pali: nesse idioma, o ideograma chinês foi transcrito como jhana. Chana, jhana ou zen, tudo quer dizer “absorção”.

Ao longo dos séculos, os mestres transmitiram os ensinamentos sem interrupção a seus discípulos, e o Zen tornou-se uma importante escola do Budismo, que alia a filosofia e a psicologia à sua principal prática: a meditação sentada. O Zen tem duas correntes principais: Soto e Rinzai. O Zen é a prática do zazen, a meditação. Mas nem todos os budistas compartilham o mesmo conceito sobre meditação. Há práticas mais rígidas, que a corrente vietnamita de Tich Nhat Hanh compara a “árvores secas, sem alma, nem alegria, destinadas a destruir todos os tipos de desejo”. Aos novatos, o mestre recomenda o método do “reconhecimento puro”, sem julgamento: que se medite acolhendo da mesma forma sentimentos de compaixão ou cólera. O objetivo é que uma hora de meditação por dia, por exemplo, valha por 24 horas. Foi na posição de lótus que, diz a história, o Buda alcançou a luz ou o despertar há 2 600 anos.

Mas essa postura de êxtase (ekstasis, no qual eks significa fora, além, e stasis, imobilidade, substância), com as costas retas, o tórax levemente para a frente, o olhar para a frente, o corpo sem tensão e as pernas cruzadas em forma de lótus ou semi-lótus, já existia na pré-história, de acordo com os arqueólogos. Na Irlanda, na Grécia, na Índia, descobertas de figuras esculpidas, estátuas e esqueletos em posição de zazen mostram que 11 000 anos antes de Cristo essa postura já era conhecida. Muito antes de Buda, o deus da ioga e da dança, Siva, também estava sentado na postura zazen embaixo de uma figueira. No Ocidente, Zen virou sinônimo de exótico. Popularizado nas artes marciais, na cerimônia do chá ou nos arranjos florais orientais, acabou perdendo um pouco a força do seu significado original. Segundo o historiador D.T. Suzuki, o princípio do Zen é wu-nien, o não-mental, a inconsciência.

Para o fundador do Zen como prática budista, Boddhidarma, no século 6 a.C., o que se busca é ”o vácuo, a paz, o abissal”. Guy Massat, monge ligado ao mestre Deshimaru, analisou as relações entre o Zen e a psicanálise. A seu ver, o psicanalista francês Jacques Lacan, ao usar enigmas, aproximou as duas práticas. O antropólogo Claude Lévi-Strauss identificava Lacan como um mestre Zen leigo. Ao estudar o chinês antigo, Lacan escreveu que “o melhor do Budismo é o Zen, quando as pessoas querem sair naturalmente do seu ‘inferno’ íntimo (infernal affaire), como diz Freud.” Para o monge Massat, ao criar as “não-sessões”, o que Lacan fazia era exatamente integrar psicanálise e Zen: “A interpretação analítica, como o Zen, não se destina a ser compreendida, mas, como diz Lacan, a criar ondas”.

Thich Nhat Hanh decidiu entrar para um mosteiro aos 16 anos e publicou seu primeiro livro aos 20, Um Budismo Para Hoje. Ainda no Vietnã, optara por dedicar sua vida a ajudar os outros. Por isso, é considerado um vanguardista do Budismo “socialmente engajado”. Criou, em Saigon, a Universidade Van Hanh, em barracos insalubres. Em 1961, foi para os Estados Unidos ensinar religião comparada nas universidades de Columbia e Princeton. Dois anos depois, com a guerra civil no Vietnã, fundou em seu país a Escola dos Jovens inspirado pelo movimento de Gandhi, na Índia. Queria inculcar na juventude o desejo de intervir por uma sociedade mais justa. Durante a Guerra do Vietnã, trabalhou pela paz reconstruindo aldeias. Foi aos EUA, onde discursou em favor da paz e acabou impedido de voltar ao Vietnã.

Fundou a Igreja Budista Unificada já exilado na França, em 1969, mas a comunidade de Plum Village, a quatro horas de Paris, só foi criada em 1982. Hoje, 75 de seus livros são editados em inglês, muitos traduzidos para o português. Na Califórnia e no Canadá, adeptos de Thich fundaram mosteiros com a mesma filosofia da plena consciência.

Fonte: http://super.abril.com.br/superarquivo/2002/conteudo_236522.shtml

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O iluminado

Publicado por educaçãoevida em Agosto 27, 2008

Capa

mar 2002

Caco de Paula

Meio milênio antes de Cristo, o príncipe hindu Sidarta Gautama deixou seu luxuoso palácio e sua família para seguir os passos da mendicância, do jejum, da meditação. E acabou criando uma religião que crê no homem e que, hoje, influencia cada vez mais pessoas no Ocidente. Com você, a fascinante história de Buda e de sua doutrina

Há 3 000 anos começaram a se formar as principais filosofias e religiões que organizaram as visões de mundo do homem contemporâneo. Alguns filósofos, como o alemão Karl Jaspers, dão a essa época o nome de Era Axial. Axial diz respeito a eixo. Foi, portanto, quando o homem começou a buscar o seu eixo. Ou, segundo Jaspers, quando passamos a prestar atenção em nós mesmos. A Era Axial estende-se entre os séculos VIII e II a.C. “Nessa época, as pessoas discutiam sobre espiritualidade com o mesmo entusiasmo com que hoje se discute futebol”, diz a escritora inglesa Karen Armstrong, uma das mais respeitadas estudiosas de religião, autora de best-sellers como Maomé e Buda. Os historiadores ainda não sabem o que causou esse despertar para a religião e para a filosofia, nem por que ele se concentrou na China, no Mediterrâneo Oriental, na Índia e no Irã. Acredita-se que com as sociedades agrícolas, mais estáveis, o homem ganhou tempo extra para dedicar-se à contemplação.

O certo é que todos os sábios desse período parecem seguir um caminho comum quando conclamam seus contemporâneos a radicais mudanças em suas vidas. Do século VIII ao VI a.C. os profetas de Israel reformaram o antigo paganismo hebreu. Na China dos séculos VI e V a.C., Confúcio e Lao-Tsé chacoalhavam as velhas tradições religiosas. Na Pérsia, o monoteísmo desenvolvido por Zoroastro expandiu-se e influenciou outras religiões. No século V a.C., Sócrates e Platão encorajavam os gregos a questionar até mesmo as verdades que pareciam mais evidentes. Tudo acontecendo mais ou menos junto. E é bem no meio dessa era, no século VI a.C., que surge o criador do Budismo, uma das mais influentes religiões do mundo, hoje com quase 400 milhões de adeptos.

No caldo da primeva Era Axial, a Índia também passou por grandes transformações. Sua cultura foi dominada pelos arianos, antigos povos nômades que teriam migrado da Ásia Central 4 000 anos antes. A sociedade ariana dividia-se em castas: brahmins, os sacerdotes; ksatriyas, os guerreiros e governantes; vaisyas, os camponeses e criadores de gado; e sudras, os escravos ou marginais. O que determina a inclusão em uma dessas classes é a hereditariedade – ou seja, somente aquele que nasceu de mãe da casta bramânica podia realizar rituais e curas. Para os brâmanes, a essência do universo está em Brahman, deus primordial que se expressa em uma infinidade de outras deidades. Sua rígida espiritualidade é expressa nas escrituras sagradas conhecidas como Vedas. Na Índia dessa época, os sacerdotes tinham uma espécie de reserva de mercado. E, assim como acontecia em outras regiões, surgiu uma revolta contra esses sacerdotes e seus rituais – que incluíam sangrentos sacrifícios de animais.

Mas novos movimentos reinterpretavam as antigas tradições, procurando afastar-se desses rituais e buscar outro tipo de sacrifício, mais interno, de renúncia às coisas do mundo – aquela atenção a si mesmo descrita por Jaspers.

É nessa Índia em ebulição espiritual que surge Sidarta Gautama, o Buda. Ele nasceu em 563 a.C. em Lumbini, aos pés do Himalaia, em uma região que hoje pertence ao Nepal. Era um aristocrata, da casta ksatrya, a dos guerreiros e governantes. Seu pai, Shudodhana, era o rei do clã dos sakyas. Vem daí o outro nome pelo qual Sidarta se tornaria conhecido: Sakyamuni, ou “o sábio silencioso dos sakyas”. O pai de Sidarta, temendo que se cumprisse uma profecia segundo a qual ele se tornaria um homem santo, cercou-o de luxos e prazeres, acreditando que se o mantivesse ignorante sobre o sofrimento do mundo, iria afastá-lo do caminho espiritual. Sidarta tinha um palácio para o inverno, outro para o verão e um terceiro para a época das chuvas. Na adolescência, vivia cercado por belas moças, ocupadas em diverti-lo em seus aposentos decorados com sugestiva arte erótica. Aos 16 anos, escolheu-se uma noiva para ele, a bela Yashodhara, com quem teria um filho, Rahula.

Pouca coisa mudaria na sua vida até os 29 anos. Apesar de todo o luxo, Sidarta sentia-se infeliz. Certo dia, contra a vontade do pai, saiu para passear fora do palácio e se surpreendeu com quatro cenas que o tirariam para sempre daquela vida de prazeres. Primeiro, viu um velho arqueado, de pele enrugada, movendo-se com dificuldade. Depois, avistou um doente que sofria dores terríveis. Mais tarde, cruzou seu caminho um cortejo fúnebre. Um morto era carregado por amigos e parentes que choravam sua perda. Foi um choque e tanto para alguém que sempre vivera protegido, sem se dar conta de que tudo que nasce também se degenera, envelhece e morre. “A imagem que temos de Sidarta Gautama pelas antigas escrituras é a de um jovem às voltas com problemas existenciais, angustiado por questões ligadas ao mistério da vida”, diz o monge brasileiro Nissin Cohen, que traduziu para o português o Dhammapada, uma das mais importantes escrituras budistas.

A quarta visão do passeio de Sidarta foi um mendigo errante, esmolando por comida. Apesar da sua pobreza, tinha porte ereto, feições radiantes e expressão de profunda serenidade. Sidarta determinou-se a também abraçar uma vida santa e a buscar uma resposta para o sofrimento que viu no mundo. Uma decisão como essa não era tão incomum na Índia daquela época. Acreditava-se que somente quando se abandona a vida doméstica e os laços afetivos para tornar-se um eremita ou andarilho é que se conseguem as respostas para a busca espiritual. Essa busca tinha um objetivo específico. A maioria da população indiana acreditava em alguma forma de renascimento ou transmigração, em um ciclo interminável que começa no nascimento, passa para a velhice, a morte e recomeça em novo nascimento. O ideal que todos desejavam era algo capaz de pôr fim a esse ciclo, que pudesse libertar o espírito desse movimento circular.

Sidarta abandonou o palácio enquanto todos dormiam. Saiu de fininho, sem ao menos se despedir da mulher e do seu pequeno filho. O príncipe logo aprendeu a dormir no chão e a esmolar por comida. Além da mendicância, a vida de filósofo-andarilho (ou sramana) incluía práticas de meditação. Na sua busca, ele se aproximou de dois famosos mestres e rapidamente chegou aos últimos estágios de absorção contemplativa propostos por eles. Mas ainda não atingira a suprema realização que buscava. Dedicou-se então à automortificação. As práticas ascéticas são comuns às formas primitivas da maior parte das religiões, inclusive no Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. O que está por trás da autoflagelação é a idéia de que um rígido controle dos sentidos desenvolve a autodisciplina e transfere o máximo de energia corporal para a atividade mental.

Durante seis anos, Sidarta experimentou privações e dores. Mudou radicalmente a alimentação, ampliando o período entre as refeições. De uma por dia, passou a uma a cada dois dias, três, quatro, até alimentar-se somente a cada 15 dias. Depois, diminuiu a quantidade até chegar à ração diária de um único grão de arroz. Simultaneamente, fazia experiências psicológicas, analisando em si mesmo certas emoções que, acreditava, só poderia eliminar completamente se as observasse em profundidade. Para analisar o medo e meditar sobre a impermanência, passava noites deitado entre cadáveres e esqueletos num cemitério. Ainda assim, não alcançara sua realização final. O próprio Sidarta descreve os efeitos dos jejuns: “Quando eu pensava estar tocando a pele do meu abdomem, era a minha coluna que eu segurava”. Abandonou essas práticas quando já era quase só pele e ossos. Sua experiência provou que a autoflagelação embota a mente em vez de favorecê-la.

Ele intuiu, então, que o caminho para a libertação não estava nos excessos de ascetismo, nem nos da sensualidade, mas em um ponto de equilíbrio entre eles. Vem daí a expressão “caminho do meio”, um dos pilares do Budismo.

Sidarta voltou a comer. Segundo conta-se, uma porção de arroz e leite oferecida por uma jovem que o encontrou quase morto à beira de um rio. Dias depois, recuperado, preparou um assento de capim sob uma figueira – que ficaria conhecida como a árvore bodhi, ou árvore da iluminação – na região de Bodhgaya, no norte da Índia. Decidiu então que ou atingiria a iluminação ali ou morreria. Mesmo para um alto praticante como ele, surgiram obstáculos. Alguns relatos os descrevem na forma de tentações e demônios, como Mara, deus indiano da morte. São imagens que simbolizam os obscuros medos reprimidos, fragmentos de memória, dúvidas, fantasias e outros conteúdos mentais tão persistentes e familiares a quem já tenha tentado alguma prática meditativa. Sidarta transpôs esses obstáculos e, serenamente, dominou todos os estágios de meditação. Como fez isso? As escrituras dizem apenas que ele permaneceu imóvel diante das investidas de Mara. Mas há uma pista nas técnicas para lidar com esses conteúdos mentais.

Uma delas é a meditação de ponto único. Nela, a observação concentra-se em um objeto específico (a respiração, por exemplo), controlando ou suspendendo temporariamente o fluxo dispersivo de pensamentos.

Assim, Sidarta tornou-se um Buda numa noite de lua cheia no mês de maio, quando tinha 35 anos. Buda não é um nome próprio, mas uma palavra em sânscrito que significa “o Desperto” ou “o Iluminado”. Esse título passou a definir a condição de Sidarta Gautama e ficou ligado ao seu nome, da mesma maneira como o título de Cristo (“Salvador”) associou-se ao nome de Jesus.

O detalhamento dessa experiência sob a figueira tornou-se o corpo dos seus ensinamentos, cuja essência é não fazer o mal, praticar o bem e purificar a mente. Buda ampliou o conhecimento sobre a mente humana e acreditava ter descoberto uma verdade profunda que lhe permitiu viver grande transformação interior e conquistar a imunidade ao sofrimento. Depois da sua iluminação, passou 45 anos ensinando outras pessoas a fazer o mesmo e organizou comunidades de monges só homens. No início, o próprio Buda não era favorável à admissão de mulheres em sua ordem. Parece que sua preocupação era com a dispersão que a presença delas pudesse representar em uma comunidade que tinha como um de seus pilares o total controle dos desejos. Mas acabou mudando de idéia.

A grande novidade trazida por Buda em sua época foi a idéia de que a vida espiritual, como capacidade de conhecer a si mesmo, não tem nada a ver com as restrições de casta impostas pelos brâmanes. Foi um salto e tanto para a estrutura social da Índia, que aceitou prontamente essa religião tolerante. Buda diz que todos os seres humanos têm vislumbres de iluminação. Isso acontece nos momentos em que aquele insistente e auto-referente “eu” não interfere, quando a mente não se prende ao passado, não sonha com o futuro e se envolve apenas com o momento presente. Esses vívidos momentos de ligação com o aqui-e-agora contrastam com a mente habitual. Eles surgem como relances fugidios, mas podem também ser voluntariamente induzidos pelo processo meditativo. Aí está o fim do sofrimento, a iluminação, o nirvana.

A essência dos ensinamentos budistas está nas práticas meditativas, que se fundam em tradições anteriores ao próprio Buda. Na meditação busca-se cessar a atividade mental ininterrupta, na qual pensamentos e fantasias bloqueiam a experiência direta e intuitiva. Na maior parte do tempo alimentamos pensamentos que podem nos deixar ansiosos, frustrados, com mágoa, raiva, ressentimento ou medo. Tragada por esse vórtice de sensações, nossa atenção perde o foco. É por isso que, muitas vezes, comemos sem sentir o sabor do alimento, olhamos uma pessoa sem vê-la de fato. Por quase meio século, Buda viveu cercado de multidões às quais receitava antídotos para essa dispersão, como a chamada “atenção plena”, prática que consiste em dispensar o máximo de atenção a tudo o que se faz – e que está na base de várias técnicas meditativas.

Buda morreu por volta de 483 a.C., depois de um acesso de disenteria que teria sido causado pela ingestão de carne de porco. Há algo menos divino – ou tão demasiadamente humano – do que morrer de dor de barriga? Sua doutrina foi transmitida através de numerosas linhagens de mestres que se espalharam por vários países. Quando morreu, seus ensinamentos estavam bem estabelecidos na região central da Índia. Havia muitos seguidores leigos, mas o coração da comunidade eram os monges mendicantes, os bhiksus. Sua doutrina se espalhou por uma poderosa rede de mosteiros e tomou diversas formas, adaptando-se a diferentes situações históricas e culturais. Essa característica flexível do Budismo seria determinante para sua difusão. Por ser ele mesmo mutável e impermanente, o Budismo tem um mecanismo interno que barra o fundamentalismo – risco presente em outras religiões, cuja história está manchada de sangue.

“Não deveis aceitar nada por ouvir falar, tampouco porque está nas escrituras”, disse Buda em um discurso. Como sua ênfase é a compaixão, o Budismo não define a si mesmo como solução melhor que qualquer outra. O Budismo primitivo, a rigor, nem era uma religião, mas um conjunto de práticas morais e mentais. No que diz respeito à meditação, essas práticas podem ser vistas como simples técnicas, que não implicam em compromisso com nenhum tipo de religiosidade.

Como resultado da sua expansão, cerca de 300 anos depois da morte de Buda, o Budismo já se dividia em 18 escolas. Seus ensinamentos, mantidos por transmissão oral, agora estavam escritos. Vários concílios foram organizados para dar homogeneidade às escrituras das diversas escolas. Um deles, realizado no século III a.C., resultou no chamado Cânone Páli, o registro mais antigo dos ensinamentos budistas. Pouco depois, o Budismo dividiu-se em duas tradições, cada uma delas afirmando-se como possuidora do verdadeiro sentido da palavra de Buda. A tradição Theravada, ou “à maneira dos antigos”, que se baseava exclusivamente nos textos escritos na língua páli, espalhou-se pelo sudeste da Ásia. Para o praticante Theravada, Buda não era um deus, mas sim um grande sábio. O objetivo do caminho Theravada é iluminação individual.

A outra tradição é a Mahayana (literalmente “Grande Veículo”), que se instalou sobretudo na China, Coréia e Japão. A base de seus ensinamentos também está na prática da meditação. No Budismo Mahayana, porém, Buda já não é apenas um sábio, mas uma divindade reverenciada. Assim como os chamados bodhisatvas, seres considerados iluminados, que adiam sua entrada no nirvana para poder ajudar na iluminação de outros. Foi no âmbito das escolas Mahayana que mais se desenvolveram os aspectos sobrenaturais e imaginários do Budismo. Sidarta, ou Buda Sakiyamuni, jamais se apresentou como um enviado, salvador ou reencarnação de quem quer que fosse. Nos seus discursos não há referência sequer ao fato de que existe reencarnação. Ele não disse palavra a favor ou contra a idéia de Deus.

O conceito de buda já não se restringia a Sidarta, o Buda Sakyamuni. Passou a definir um princípio fundamental de iluminação espiritual. Sakyamuni já não era mais “o” buda, mas sim “um” buda. As tradições orientais sustentam que houve muitos budas no passado e que ainda haverá muitos outros no futuro. Ampliando o conceito de que há tantos budas quanto grãos de areia, esse Budismo pop expandiu-se amigavelmente pelo Oriente, incorporando uma infinidade de arquétipos ou divindades locais. (Ao contrário das religiões abraâmicas, que demonizaram os deuses das culturas dominadas. Leia mais sobre isso na pág. 55.) Isso explica por que existem tantas imagens diferentes do Iluminado. Quando ele é representado como um asceta esquelético, refere-se ao Sidarta da fase pré-Buda. Quando mostrado como um meditador sereno, é o Buda Sakyamuni.

Se a figura for a de um sujeito gorducho e sorridente, quase sempre trata-se de uma divindade local, geralmente símbolo de prosperidade, na China e no Japão. O mesmo ocorre com os dhianybudas, ou budas da meditação, aos quais se atribuem significados ocultos. Ou com as 21 belas figuras da jovem Tara – representação do aspecto feminino e compassivo de Buda, cultuada na tradição tibetana. Também vêm do Tibete as famosas imagens de budas em abraços sexuais com suas consortes, um símbolo da unidade entre iluminação e sabedoria.

Apesar do grande florescimento que teve em sua terra natal, o Budismo foi varrido da Índia em decorrência das invasões dos hunos no século V d.C. e dos islâmicos nos séculos XII e XIII. A corrente que mais se expandiu foi a Mahayana, por ser menos ortodoxa que a Theravada. O maior desenvolvimento do Budismo aconteceu na China, onde chegou no século I d.C., e, depois, na Coréia e no Japão. Seu encontro com as tradições chinesas deu origem à escola de meditação Ch’an e, mais tarde, no Japão, ao Zen Budismo. “Zen” é uma palavra japonesa derivada do chinês ch’an, que vem do sânscrito dhyana – técnica que, segundo a psicologia do yoga, conduz a um elevado estado de consciência em que o homem une-se com o universo. Os chineses preferiram encontrar essa união no trabalho cotidiano, em vez de na meditação solitária numa floresta, como o próprio Sidarta.

O Zen é um dos mais importantes herdeiros da vertente Mahayana -– só equiparado pela corrente Vajrayana, que se desenvolveu no Tibete. Chamado de “Caminho do Diamante”, o Vajrayana tem suas origens encravadas em textos budistas do século II, registrados nos chamados tantras, escrituras esotéricas sobre a transformação da mente através de meditações, visualizações e ritos. Essa linha surgiu no norte da Índia há cerca de 2 000 anos e hoje é seguida pela tradição tibetana.

O Budismo só penetraria no Ocidente a partir do século XIX, com o estudo das culturas da Índia e a publicação de O Mundo como Vontade e Idéia. Nesse livro, o alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), que influenciaria muitos outros filósofos, como Friedrich Nietzsche, mergulha nos ensinamentos budistas. O Budismo também chegou à Europa e à América junto com os imigrantes chineses e, depois, japoneses. Mas foi somente com a chegada de mestres Zen, nos anos 30 do século XX, que algumas das principais idéias budistas começariam a ter maior difusão ocidental. Para a mentalidade judaico-cristã, que tem sua solução religiosa na pessoa externa de um pai divino, um grande motivo de estranhamento – e de fascínio – causado pelo Budismo talvez seja a idéia de um caminho espiritual que depende, em última instância, apenas do esforço de cada pessoa. O Budismo sustenta que o mundo é uma projeção da mente e que, portanto, o homem não poderá encontrar no exterior aquilo que não possua dentro de si mesmo.

Nos anos 40 e 50, os livros sobre Zen escritos pelo inglês Alan W. Watts (1915-1973) influenciaram os escritores da geração beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, gurus dos movimentos que iriam chacoalhar os anos 60, como a contracultura e os hippies. Com a invasão do Tibete pela China, em 1959, e a Guerra do Vietnã, nos anos 60, mestres budistas desses países migraram para o Ocidente, onde abriram vários centros de meditação. Estava traçado o caminho que levaria o Budismo para a Califórnia e os estúdios de Hollywood, atraindo adeptos de classe média alta, além de muitos artistas e terapeutas. Diferentemente do que aconteceu na primeira metade do século XX, quando Zen era sinônimo de Budismo no Ocidente, nas últimas décadas o ramo que mais se difundiu foi o Budismo tântrico do Tibete. Algo que ajudou muito nessa divulgação foi a figura sorridente do Dalai Lama, líder do Tibete no exílio, que já era famoso bem antes de ganhar o Prêmio Nobel da Paz em 1989, de dançar no palco com a banda de punk-rap Beastie

Boys em shows pela libertação do Tibete, ou de percorrer o mundo falando de espiritualidade. Inclusive no Brasil, onde um dos organizadores de suas visitas é o gaúcho Alfredo Aveline, ou lama Padma Santem (lama é a palavra em tibetano para “mestre espiritual”). Aveline dá uma pista de como essa linha espiritual pode ajudar o homem do século XXI, ao falar da importância do desapego como uma forma de evitar o sofrimento: “A impermanência paira sobre sua cabeça nas relações, no emprego, na sua saúde, no seu endereço, no seu celular, na sua aparência, nas suas aptidões, no afeto. Essa é a vida a que todos estão submetidos. No Budismo, o objetivo é ultrapassar essas limitações. Não estamos dizendo que buscamos distância dessa experiência limitada, mas nosso objetivo é libertarmo-nos dos processos sutis que a criam para ajudar os outros seres a fazer o mesmo e superar as frustrações inevitáveis do processo”.

Dizem que Buda previu que sua ordem duraria muito menos se tivesse a participação de mulheres. Se realmente fez isso, talvez esteja aí um raro equívoco cometido pelo Iluminado. Hoje o que se vê é uma presença cada vez maior de mulheres na pregação da sua doutrina. Às vezes, numa mesma semana na capital paulista, quatro mulheres budistas de diferentes escolas e linhagens costumam atrair grande público para suas palestras: a inglesa Lama Caroline, da escola tibetana Gelupa; a americana Lama Tsering, da escola tibetana Ningma; a monja chinesa Chueh Chen, da escola Ch’an; e a brasileira monja Coen, formada nas tradições japonesas do Soto Zen. Quem quiser entender por que o Budismo exerce tanta atração no Ocidente precisa ver como elas consquistam sua audiência, geralmente de jovens, em torno da idéia da compaixão.

“Houve uma geração que quebrou todos os seus valores e hoje mergulha na busca espiritual”, diz a monja Cláudia Coen, que todos os dias orienta grupos de meditação em São Paulo. “Como as técnicas funcionam independentemente da religião de quem as pratica, tem despertado o interesse também de judeus, cristãos e muçulmanos.”

Mas, afinal, o que fez o Budismo ser tão bem-aceito no Ocidente? Numa palavra, poder-se-ia dizer que é seu caráter de auto-ajuda, conceito que, nesse caso, nada tem a ver com manuais de comportamento, mas sim com a certeza de que todas as respostas para os problemas do homem estão dentro dele mesmo.

A essência da doutrina deixada por Sidarta Gautama baseia-se em uma série de conceitos mais filosóficos, éticos e psicológicos do que religiosos. Aqui estão os principais deles:

AS QUATRO NOBRES VERDADES

Sofrimento

É a característica básica da nossa existência. Tudo é sofrimento: nascimento, doença e morte; encontrar algo não apreciado; não obter o que se deseja, separar-se de algo desejado.

Origem do sofrimento

Sua causa está nos anseios, nos desejos, no apego e na sede de satisfação dos sentidos. Tudo isso prende as pessoas ao ciclo da existência (samsara).

Cessação do sofrimento

Pela eliminação dos desejos e do apego pode-se extinguir o sofrimento.

Caminho que leva à cessação do sofrimento

Para os budistas da linha Theravada, o meio de pôr fim ao sofrimento é o Nobre Caminho Óctuplo. Para os budistas da linha Mahayana, são as Seis Perfeições.

O NOBRE CAMINHO ÓCTUPLO

1. Compreensão correta, baseada no entendimento das Quatro Nobres Verdades e na consciência de que não existe um “eu” individual: tudo está interligado.

2. Atitude correta, favorável à renúncia e à boa vontade, buscando não prejudicar os seres sensíveis.

3. Fala correta: evitar mentir, caluniar e bisbilhotar.

4. Ação correta: evitar, sobretudo, matar, roubar e praticar sexo ilícito (estupro e pedofilia, por exemplo).

5. Modo de vida correto: evitar profissões que causem sofrimento aos outros, como caçador ou fabricante de armas.

6. Esforço correto: pensar antes de agir, cultivando pensamentos, palavras e ações nobres.

7. Atenção correta: percepção contínua do corpo, dos sentimentos e dos objetos de pensamento.

8. Concentração correta: o cultivo de uma mente tranqüila, que encontra seu ponto mais elevado na absorção meditativa.

AS SEIS PERFEIÇÕES

1. Generosidade

2. Paciência

3. Ética

4. Esforço entusiástico

5. Concentração

6. Sabedoria

OUTROS CONCEITOS-CHAVE

Buda provavelmente falava num dialeto chamado maghadi e seus ensinamentos foram registrados na língua páli. Salvo exceções indicadas, os termos a seguir estão na forma como foram transliterados do sânscrito ou na maneira como foram incorporados à língua portuguesa.

Ahimsa

“Não-violência”. É a base ética do Budismo.

Anatman

“Não-eu”. Para o Budismo, não existe um “eu”: cada um de nós é uma soma de várias experiências de vida, em eterna mutação. Ignorar isso é a principal causa do sofrimento.

Arhat

“Santo”. Pessoa que atingiu a iluminação quase completa. O ideal do caminho Theravada.

Bhiksu

Monge mendicante que entrou para a vida errante.

Bodhisatva

Ser que aspira à condição de Buda pela prática das seis perfeições e que se compromete a abrir mão do nirvana até que tenha levado todos os seres sensíveis à iluminação. É o ideal do caminho Mahayana.

Carma

“Ação”. É a lei de causa e efeito que rege o universo. Não significa destino no sentido fatalista, mas sim o que recai sobre cada um como resultado do seu comportamento.

Darma

“Doutrina”. O termo Budismo é uma invenção ocidental para o que os budistas chamam de Buda-darma: ensinamento de Buda; lei cósmica; caminho para o nirvana.

Impermanência

Transitoriedade da matéria, do pensamento, do corpo humano e da própria idéia de “eu”. Como todas as coisas são impermanentes, nos escapam tão logo tentamos possuí-las. A frustração desse desejo de posse é a causa imediata do sofrimento.

Mahayana

“Grande veículo”. É um dos caminhos do Budismo. Inclui a maior parte das escolas existentes.

Lama (tibetano)

“Ninguém acima”. Significa guru, mestre espiritual.

Nirvana

“Extinção”, “apagamento”. É a meta da prática espiritual. Não deve ser entendida como aniquilação, mas sim como entrada em outra forma de existência. Psicologicamente, é um estado de grande liberdade e espontaneidade. “O nirvana nos ensina que já somos aquilo que queremos nos tornar”, diz o monge vietnamita Thich Nhat Hanh.

Samsara

“Roda do sofrimento”. Ciclo que rege a inquieta existência humana e se alimenta de apego, desejos, ódio e ilusão. É nele próprio que se deve procurar sua extinção – ou nirvana.

Sunyata

“Vazio”, “vácuo”. Conceito segundo o qual todas as coisas – incluindo você, leitor – não contêm essência, apenas aparência.

Tendrel (tibetano)

“Interdependência”. Tudo depende de outra coisa. Observador, observação e objeto observado são partes de um só movimento.

Theravada

“À maneira dos anciãos”. Uma das principais escolas do Budismo, é a mais tradicionalista.

Vajrayana

“Veículo do diamante”. Caminho tântrico e ocultista do Budismo.

Ao longo dos últimos 2 500 anos, os ensinamentos de Buda floresceram em dois ramos principais.

O primeiro – Theravada, ou Hinayana, “Caminho Estreito” – para os puristas e ortodoxos, foi para um lado. O segundo – Mahayana, “Grande Caminho” –, aberto a todas as experimentações, foi para o outro e se multiplicou em uma espantosa variedade de movimentos e escolas espiritualistas, inclusive no Ocidente

Talibã VS. Buda

Em março de 2001, os islâmicos fundamentalistas do Afeganistão dinamitam duas estátuas de Buda, de 40 e 50 metros de altura, erguidas entre os séculos III e V

Budismo pop

Após o movimento beat e a imigração de mestres orientais para os Estados Unidos, principalmente para a Califórnia, toda a cultura pop presta tributo a Sidarta: dos Beatles ao Nirvana, de Bowie aos Beastie Boys

Beat Generation

As filosofias orientais – principalmente o Zen Budismo – foram uma das principais influências dos escritores da geração beat, como Jack Kerouac, que nos anos 50 adubaram as raízes da contracultura e do movimento hippie

Hollywood

Richard Gere, o galã de Gigolô Americano e Uma Linda Mulher vira amigão do Dalai Lama – e um dos mais influentes garotos-propaganda de Buda no Oeste. Não tarda para Hollywood lançar superproduções budistas: O Pequeno Buda (com Keanu Reeves pintado de moreno jambo na pele de Sidarta ), Sete Anos no Tibete (Brad Pitt de nazista convertido ao Vajrayana) e Kundun (biografia do Dalai, dirigida por Scorsese – ambos na foto com Gere)

Nos anos 90, os livros do Dalai Lama tornam-se best-sellers no Ocidente

Em 1989, o Dalai Lama recebe o Nobel da Paz

Refugiados tibetanos e vietnamitas abrem centros de meditação na Europa e nos Estados Unidos

Arthur Schopenhauer

(1788-1860) O filósofo alemão foi o introdutor do Budismo no Ocidente, influenciando, entre outros, Nietzsche e Freud

Em 1959, no Tibete invadido pelo Exército chinês, mais de 87 000 pessoas são mortas. O Dalai Lama transfere-se para a Índia, onde forma uma comunidade tibetana no exílio

Brasil

Cresce no Brasil o interesse pelo Budismo, que vira capa da Super

Nos anos 70 surgem vários mosteiros Theravada na Europa

Louca sabedoria

Para seus praticantes, espiritualidade e prazer não são coisas separadas. Sua conduta não exclui nada que possa parecer irreligioso, como sexo e embriaguez levados às últimas conseqüências

1 – Theravada (Séc. II a.C.)

O Theravada tem hoje 125 milhões de adeptos (38% dos budistas) em Sri Lanka, Birmânia, Laos, Tailândia e Camboja. O movimento segue as antigas escrituras na língua páli, na qual foram registrados os primeiros documentos budistas. Sua prática enfatiza a busca da iluminação individual. O nome Hinayana (Pequeno Veículo), comumente atribuído a eles, foi criado pela corrente Mahayana e não é aceito pelos Theravada

2 – Mahayana (Séc. II a.C.)

A corrente principal do Budismo tem hoje 185 milhões de adeptos (56% do total). O Mahayana (Grande Veículo) abriga várias escolas e linhagens. Não professa o caminho individual mas “a iluminação em benefício de todos os seres”. É aberto a diferentes crenças e ritos devocionais e enfatiza a prática da compaixão

3 – Vajrayana (Séc. II)

Essa linha tem hoje 20 milhões de adeptos (6% dos budistas), principalmente nos países do Himalaia: Tibete, Butão, Nepal e Mongólia O Vajrayana (Veículo do Diamante) surgiu no norte da Índia e, mais tarde, chegou à China, ao Japão e ao Tibete. Prosseguimento dos métodos Theravada e Mahayana, tem suas origens nos tantras, escrituras esotéricas que ritualizam diversas práticas para a transformação da mente

4 – Zen

Desenvolve-se a partir do século XII no Japão, buscando o máximo de simplicidade e desprezando o intelectualismo e os aspectos sobrenaturais e ritualísticos das religiões. Cada ato do cotidiano deve ser uma meditação. Essa mentalidade criou artes e disciplinas especiais para desenvolver a concentração, como jardinagem, arranjos florais e outras modalidades. Veja ao lado

Pintura

O que mais importa é o espaço vazio, buscando o máximo de expressividade com o mínimo de pinceladas

Poesia

Sua forma tradicional está nos haikai, poemas curtíssimos como este clássico de Mitsuo Bashô:

Koans

São uma espécie de pegadinhas, sem respostas lógicas, usadas para treinar a mente: “Que som é produzido quando se bate palmas com uma mão só?”

Cerimônia do chá

Preparar essa bebida tão simples torna-se um ritual de atenção plena e absorção em quietude espiritual

Japão

Presente no país desde 621, o Budismo dá origem a várias escolas e seitas, nas quais se mistura ao Xintoísmo – grupo de antigas religiões locais. A escola que mais se expandiria no Ocidente é a Zen

China

O Budismo chega ao país no século I e funde-se à religiosidade local. Nas novas escolas que surgem, nem sempre se percebe onde acaba o Budismo e onde começa o Taoísmo – doutrina de Lao Tsé, para quem o Tao, “fluxo natural”, é a essência do universo. A escola Ch’an (Meditação) é uma espécie de avó do Zen Budismo

Tibete

No século VIII, o Budismo Vajrayana funde-se com as religiões xamânicas do Tibete, altamente ritualizadas. O Budismo tibetano organiza-se em quatro escolas principais, formadas por várias linhagens (Nyingma, Gelupa, Kagyiu e Sakya)

Sidarta Gautama, O Buda (563 a.C. – 483 a.C.)

Duzentos anos depois da morte de Buda, ainda na Índia o Budismo se divide em dois movimentos: Mahayana e Theravada seguem os sutras, discursos feitos por Sidarta. Quatro séculos depois, surge um terceiro movimento (Vajrayana) com base nos tantras, ensinamentos secretos também atribuídos ao Buda

1. Lumbini

Sidarta Gautama nasceu na primavera de 563 a.C. no antigo reino dos sakyas — região que hoje pertence ao Nepal

2. Kapilavastu

Aqui ficava o palácio onde, durante 29 anos, o príncipe Sidarta desfrutou de uma vida de luxo e prazeres – até abandoná-la para partir em sua busca espiritual

3. Uruvela e Bodhgaya

Depois de seis anos jejuando e meditando em Uruvela, ele deslocou-se para Bodhgaya, uma região próxima. Esse local tornou-se o maior centro de peregrinação budista, pois foi onde Sidarta atingiu a iluminação

4. Sarnath

Foi em Sarnath (perto da atual Varanasi), que Buda fez seu primeiro discurso depois da iluminação e revelou as Quatro Nobres Verdades, base da sua doutrina

5. Rajgir

Aqui Buda recebeu apoio de comerciantes e da realeza, o que permitiu fundar mosteiros que se tornaram os principais centros de difusão de seus ensinamentos

6. Nalanda

Construída no tempo de Buda e fortemente influenciada por sua doutrina, Nalanda foi uma das primeiras universidades do mundo. No seu apogeu, teve 1 500 professores de disciplinas como gramática, filosofia, astronomia e medicina. Foi destruída pelos muçulmanos no século XIII

7. Kushinagar

Foi nessa região, hoje ocupada pelo Nepal, que o Buda morreu, aos 80 anos, em 483 a.C. Segundo seus discípulos, ele teria atingido o que chamam de mahaparinirvana (“grande cessação da existência”). Suas últimas palavras: “Tudo é impermanente”

O Brasil tem algo entre 300 000 a 500 000 budistas, reunidos em 160 diferentes grupos. No livro O Budismo no Brasil, a ser lançado neste semestre, o alemão Frank Usarski, doutor em Ciência da Religião pela Universidade de Hannover, Alemanha, e professor da PUC de São Paulo, identifica três ondas de crescimento dessa linha espiritual no país. Na primeira, imigrantes chineses, japoneses e coreanos já trouxeram a religião com eles. Na segunda, nos anos 60, brasileiros de origem não-asiática, sobretudo intelectuais, se converteram ao zen-budismo. A terceira onda, que começou nos anos 70 e está quebrando na praia agora, é a do Budismo tibetano, ou Vajrayana. Seus adeptos usam técnicas para combater o que chamam de “manchas mentais”, como apego ou orgulho. “Para cada uma delas, a meditação sugere um antídoto, como generosidade para anular a avareza ou paciência para enfrentar a raiva”, diz a terapeuta Bel César, fundadora do Centro Shi De Choe Tsog, de São Paulo.

Um dos responsáveis pelo centro é Lama Michel, 20 anos, que, desde a infância é considerado um tulku, ou reencarnação de um mestre tibetano. Filho de um judeu e de uma presbiteriana (a própria Bel) que adotaram o Budismo, Lama Michel é um exemplo de como essa terceira onda deu um novo rumo a praticantes de tradições religiosas já arraigadas. Não é o único. Segyu Rinpoche, do Centro Je Tsongkhapa, de Porto Alegre, era médium de umbanda no Rio de Janeiro até ser oficialmente reconhecido como um tulku.

NA LIVRARIA

Buda, Karen Armstrong, Objetiva, Rio de Janeiro, 2001

Buda, Jorge Luiz Borges e Alicia Jurado, Difel, Rio de Janeiro, 1977

O Pequeno Buda: Entrando na Correnteza, Samuel Bercholz e Sherab Chodzin Kohn, Siciliano, São Paulo, 1994

Introducing Buddha, Jane Hope e Borin Van Loon, Icon Books, Cambridge, 1999

A Essência dos Ensinamentos de Buda, Trich Nhat Hanh, Rocco, Rio de Janeiro, 1998

O Espírito do Zen, Alan W. Watts, Cultrix, São Paulo, 1995

O Livro Tibetano do Viver e do Morrer, Sogyal Rinpoche, Talento-Palas Athena, São Paulo, 1999

The Story of Buddhism: A Concise Guide to Its History and Teachings, Donald S. Lopez Jr., Harper San Francisco, 2001

Dhammapada, a Senda da Virtude, Palas Athena, 2000

NA INTERNET

http://www.buddhanet.net/budnetp.htm

http://www.dharmanet.com.br/index.html

Fonte: http://super.abril.com.br/superarquivo/2002/conteudo_227690.shtml

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Morte

Publicado por educaçãoevida em Agosto 27, 2008

Capa

fev 2002

Nós todos vamos morrer. E, acredite ou não, esse é um evento tão natural quanto nascer, crescer ou ter filhos. No entanto, a idéia da finitude nos enche de terror. Por quê? Será que precisa ser assim? Dá para sofrer menos?

Maria Fernanda Vomero

Há muito tempo, no Tibete, uma mulher viu seu filho, ainda bebê, adoecer e morrer em seus braços, sem que ela nada pudesse fazer. Desesperada, saiu pelas ruas implorando que alguém a ajudasse a encontrar um remédio que pudesse curar a morte do filho. Como ninguém podia ajudá-la, a mulher procurou um mestre budista, colocou o corpo da criança a seus pés e falou sobre a profunda tristeza que a estava abatendo. O mestre, então, respondeu que havia, sim, uma solução para a sua dor. Ela deveria voltar à cidade e trazer para ele uma semente de mostarda nascida em uma casa onde nunca tivesse ocorrido uma perda. A mulher partiu, exultante, em busca da semente. Foi de casa em casa. Sempre ouvindo as mesmas respostas. “Muita gente já morreu nessa casa”; “Desculpe, já houve morte em nossa família”; “Aqui nós já perdemos um bebê também.” Depois de vencer a cidade inteira sem conseguir a semente de mostarda pedida pelo mestre, a mulher compreendeu a lição.

Voltou a ele e disse: “O sofrimento me cegou a ponto de eu imaginar que era a única pessoa que sofria nas mãos da morte”.

A morte pode ser vista como um mistério incompreensível. Ou como um absurdo inaceitável. A morte pode até ser tratada como um tabu, assunto do qual a maioria das pessoas não gosta de falar. Mas, seja como for, aceitemos isso ou não, a morte é um fato, uma realidade inexorável. E que vem para todos nós. Por mais que queiramos nos esconder dela, deixar de existir é uma coisa tão natural quanto existir. Na verdade, a morte é provavelmente a única coisa certa na sua existência ou na minha – e também na de nossos pais, nossos filhos, nossos ídolos e inimigos, de todas as pessoas que amamos e mesmo daquelas que jamais chegaremos a conhecer: é certo que todos nós vamos morrer um dia. Pessoas boas, pessoas ruins, gente em Xanxerê, Santa Catarina, ou em Nagano, no Japão. E esse dia pode acontecer amanhã ou daqui a 60 anos.

A morte faz parte da vida. Todos começamos a morrer exatamente no dia em que nascemos. A morte, portanto, é um etapa da nossa existência com a qual temos que conviver. Pode-se conviver melhor ou pior com ela. Mas não se pode evitá-la. Pode-se aceitar a sua inevitabilidade e olhá-la de frente. Ou pode-se negá-la, fugir dela, imaginar que não pensar na morte possa fazer com que ela deixe de acontecer com você ou com a sua família. Mas o fato é que todos nós estamos programados para nascer, crescer e morrer – uma obviedade esquecida por boa parte da sociedade ocidental contemporânea, que teima em ver a morte como um evento artificial, inesperado e injusto. Sobretudo, costumamos vê-la como um evento exclusivo, pessoal, que isola quem sofre uma perda, por meio da dor, do resto do mundo. Quando, ao contrário, não há nada menos exclusivo do que morrer. Nem nada que perpasse mais a humanidade do que o sofrimento de uma perda.

Como está expresso na fábula tibetana, a morte não é privilégio nem desgraça particular de ninguém. Ela chega para todos, sem exceção.

Mas, afinal, se a morte é tão comum e corriqueira, por que ela nos causa tanto medo? “O maior desejo do homem é a imortalidade”, diz a psicóloga Ingrid Esslinger, da Universidade de São Paulo (USP), acostumada a atender pessoas em situação de luto. “Por isso, muitas vezes a morte é considerada uma inimiga.” E uma adversária, que poderia ser vencida pelos avanços científico-tecnológicos do século XX, que aumentaram indiscutivelmente a eficiência dos diagnósticos, dos medicamentos, das técnicas cirúrgicas etc. O sonho da permanência ganhou um reforço com as melhorias trazidas pela medicina, com o aumento da expectativa de vida, com a possibilidade de haver cura para todas as doenças, mesmo o câncer ou a Aids. Enfim, soa como um despropósito falar de morte a quem tem as descobertas da ciência a seu favor. Afinal, se existem meios de prolongar a vida útil do ser humano, de manter-se jovem, de atrasar o envelhecimento, de viver mais de 100 anos, por que pensar na finitude?

É um paradoxo: a valorização da vida e a ilusão de eterna beleza e jovialidade trazidas pela vida moderna acabam gerando, por meio do apego a tudo isso, muito mais tristeza e sofrimento pelo fim inevitável da existência do que felicidade pelo mais de vida que proporcionam.

O mundo ocidental transformou a morte em tabu: ela costuma ser ocultada das crianças e banida das conversas cotidianas. Tudo aquilo que possa lembrá-la – a enfermidade, a velhice, a decrepitude – é escamoteado. Os doentes morrem no hospital, longe dos olhos – e, não raro, do coração – de seus amigos e parentes. E os rituais de luto são cada vez mais rápidos e pragmáticos. O medo natural que todo ser humano sente diante da própria finitude vira pânico. E mesmo a morte natural – não causada, por exemplo, pela tremenda violência que a cada dia assola os cidadãos no Brasil – acaba virando sinônimo de aniquilamento sumário, de abreviamento. O que, no mais das vezes, não corresponde à realidade por se tratar apenas de uma vida que chegou naturalmente ao fim, de uma existência que simplesmente expirou.

“Partimos de idéias preconcebidas sobre a morte, formadas a partir da nossa personalidade, da educação familiar e do ambiente sociocultural e religioso em que vivemos”, diz a psicóloga Bel Cesar, do Centro de Dharma da Paz, em São Paulo, e autora de Morrer Não Se Improvisa. Tais imagens são rótulos que muitas vezes não correspondem à experiência humana e que acabam alimentando fantasias amedrontadoras. “Refletir sobre a morte pode torná-la mais familiar e, portanto, menos ameaçadora”, diz.

O primeiro passo para conviver melhor com a idéia da morte é esquecer aquela imagem medieval, um tanto tétrica, de um esqueleto coberto com uma capa preta carregando uma foice afiada na mão. Talvez uma imagem melhor para a morte seja imaginá-la como o fim de uma festa muito bacana: você já sabia que ela acabaria, que ela teria que acabar, em algum momento. E, pensando bem, talvez não seja de todo mal que a festa termine. Você agüentaria dançar na pista para sempre? Por melhor que seja a música, tem uma hora que seu corpo e sua mente pedem descanso. E aí, talvez, seja o momento mesmo de sair da pista, serenamente, sem traumas, e dar lugar a quem está chegando à festa cheio de gás.

Bel propõe um exercício de meditação, inspirado nas práticas budistas: repita a palavra “morte”, de olhos fechados, inúmeras vezes. “Surgirão pensamentos, imagens e sentimentos muitas vezes antagônicos. Mas, se você continuar essa experiência de mergulhar até onde a palavra ‘morte’ o levar, verá que algo dentro de você mudará positivamente”, diz ela.

O medo da morte é um sentimento inerente ao processo de desenvolvimento humano. Aparece na infância, a partir das primeiras experiências de perda. E tem várias facetas: trata-se de um medo do desconhecido, somado ao medo da própria extinção, da ruptura da teia afetiva, da solidão e do sofrimento. “O medo da morte é fundador da cultura”, diz a socioantropóloga Luce Des Aulniers, responsável pela disciplina de Estudos Sobre a Morte, da Universidade de Quebec, em Montreal, Canadá. “Esse medo funciona como pivô e como motor de todas as civilizações. A partir do desejo de perenidade, se desenvolvem as instituições, as crenças, as ciências, as artes, as técnicas e mesmo as organizações políticas e econômicas.”

Esse é o lado, digamos, vital da morte. “O medo da morte nos força a viver – a nos relacionarmos, a procriarmos, a criarmos, a construirmos coisas que nos transcendam”, diz Luce. Na ilusão da imortalidade, o ser humano acredita que suas obras sejam permanentes e garantam que ele não seja esquecido. Cada um adapta, à sua própria maneira, a máxima “plantar uma árvore, escrever um livro e fazer um filho”. Isso ocorre porque, para o nosso inconsciente, a morte nunca é possível nem admissível quando se trata de nós mesmos. “A idéia da não-existência provoca tal desconforto que a mente humana acaba criando alguns mecanismos de defesa para fugir dessa realidade”, diz o psiquiatra e psicanalista Roosevelt Smeke Cassorla, da Sociedade Brasileira de Psicanálise, em São Paulo. A negação e a repressão da idéia de morte são exemplos desses artifícios.

Nada disso é novidade. Desde os tempos mais remotos, os homens já enxergavam a morte como elemento antagônico à vida – e não como parte integrante e inseparável dela. Talvez fosse mais fácil aceitá-la como fato natural quando ela acontecia aos borbotões, quando a expectativa de vida das pessoas era de 35 anos. Mas o estranhamento e o terror sempre existiram. As pinturas encontradas nas paredes de cavernas como Lascaux e Chauvert, na França, revelam o incômodo que a morte provocava no homem de 30 000 anos atrás. Os episódios alegres, como as caçadas, eram retratados em cores vivas, usando óxido de ferro (alaranjado) ou calcário amarelo. As imagens fúnebres, por sua vez, eram pintadas com cores escuras, com carvão.

O antagonismo se mantém dentro de cada um de nós, no jogo constante entre Eros, o deus grego do amor, e Tanatos, o deus da morte, para usar uma imagem cunhada por Sigmund Freud, fundador da psicanálise. As forças da vida, representadas por Eros, estimulariam o crescimento, a integração, a autoproteção e a sobrevivência. As forças da morte, representadas por Tanatos, alimentariam os instintos destrutivos e as atitudes de auto-sabotagem, por exemplo. Da conciliação dessas forças contraditórias, surgiria o equilíbrio e o vigor emocional necessários para viver.

No entanto, o medo de morrer pode gerar um apego desmedido a elementos cotidianos e um conseqüente desespero diante da possibilidade de vir a “perder tudo” com a morte – a companhia dos amigos, o carro novo, os imóveis, o status social, os projetos não realizados. No budismo, assim como na tradição cristã, o desapego é condição essencial para uma “boa morte”. “Normalmente assumimos que precisamos dominar alguma coisa para que ela nos traga felicidade. E nos perguntamos: como é possível saborear alguma coisa se não podemos possuí-la?”, escreve Sogyal Rinpoche, em seu O Livro Tibetano do Viver e do Morrer. “Mas, na morte, não podemos levar nada conosco.” Nem bens, nem diplomas, nem o sucesso. Eis aqui outro paradoxo: para viver bem, sem o terror e o tormento da idéia do fim, é preciso cultivar um certo desapego em relação à vida.

Em outras palavras: para experimentar a “boa morte” e morrer serenamente – em oposição a viver atarantado pela iminência da “cadavérica” e assim morrer sofrendo – é preciso absorver a idéia de que, como quase tudo neste mundo, também nós somos impermanentes.

A vida é como um contrato que estabelece a própria vigência em uma das cláusulas. Ou seja, basta estar vivo para estar sujeito às leis da existência, que determinam o seu próprio término. Lutar contra esse fato inelutável é garantia de dor. Ao contrário, aceitar a transitoriedade da condição humana – que se aplica a você, a mim e a mais seis bilhões de indivíduos – ajuda a aliviar o sofrimento que a idéia da morte costuma trazer. Você não pode mudar o fato de que vai acabar um dia. Mas você pode mudar o modo como se relaciona com esse fato. Em certas ordens religiosas católicas, os monges, ao se encontrarem nos corredores do mosteiro, costumam dizer uns aos outros: “Memento mori”, uma expressão latina que significa “lembre-se de que vai morrer”. A saudação – que é o contraponto de “Carpe diem” (“aproveite o dia”) – funciona como um exercício espiritual de aceitação gradual e diária da morte, vendo-a como uma conseqüência da própria vida e também de preparação para o momento em que ela acontecer.

O contrário disso é o culto ao ego, ao “pequeno eu” que há dentro de cada um de nós, manifestado na não-aceitação do curso natural dos acontecimentos, quando ele não ocorre como gostaríamos. E que está presente no indivíduo que tenta se colocar sempre acima do todo a que pertence. Ao não conseguir fazê-lo, esse “eu” sofre exagerada e desnecessariamente para aceitar a parte que lhe cabe. Na vida, quanto mais você está centrado em si mesmo, sem compartilhar suas alegrias e suas frustrações com os outros, mais você sofre com a ausência de solidariedade, com o isolamento que impõe a si mesmo, com a falsa idéia de que está desamparado. Na morte, acontece a mesma coisa. Quanto menos você compartilha a sua dor – e o sofrimento é um dos elos fundamentais da humanidade –, mais insuportável ela se torna.

As perdas que você acumula ao longo da vida podem tanto potencializar o seu medo da morte quanto ensiná-lo a conviver melhor com a finitude. “Vivemos pequenas perdas todos os dias. Uma separação, uma demissão, a morte de um amigo, a notícia de uma doença incurável”, diz a psicóloga Maria Helena Bromberg, coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre Luto (Lelu), da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. “Essas experiências cotidianas de morte nos ajudam a entender que nada dura para sempre. Inclusive nós, em nossa natureza mortal.”

Uma história antiga ajuda a entender melhor esse processo de pequenas aprendizagens – e como muitos de nós o ignoram. Um dia, há muito tempo, um homem resolveu fazer um trato com a Morte. Prometeu a ela que não ofereceria resistência quando sua hora chegasse. Mas pediu, em troca, que fosse avisado com antecedência porque queria ter tempo suficiente para terminar todas as suas tarefas. O acordo foi feito. Tempos depois, houve um acidente grave na cidade e muitos amigos do homem morreram. Anos mais tarde, um vizinho próximo faleceu. Em seguida, foi a vez de um tio. Até que o homem ficou doente e, em alguns meses, encontrou-se com a Morte. Ela tinha vindo buscá-lo. Revoltado, reclamou: “Eu pedi que você me avisasse quando viria e não recebi um sinal!” Ao que a Morte respondeu: “A morte dos seus amigos, do seu vizinho, do seu tio não bastaram?”

Para quem busca na filosofia maneiras de lidar melhor com a morte, as reflexões finais do filósofo grego Sócrates – condenado a tomar cicuta, um veneno letal –, realizadas no século V a.C., representam um excelente exercício de aceitação. “Porque morrer é uma ou outra destas duas coisas. Ou o morto não tem absolutamente nenhuma existência, nenhuma consciência do que quer que seja. Ou, como se diz, a morte é precisamente uma mudança de existência e, para a alma, uma migração deste lugar para outro”, afirmou Sócrates. Em outras palavras: para quem não acredita na continuação da vida, a morte é o nada, é a ausência completa de angústias e desesperos, é o fim das aflições. E para quem acredita na continuação da vida, a morte é a passagem desta existência para outra melhor. De qualquer modo, a dor estaria na vida e não na morte.

Quando chegou o momento de beber o veneno, Sócrates disse a seus discípulos, numa última lição: “Mas já é hora de irmos: eu para a morte e vocês para viverem. Mas quem vai para melhor sorte é segredo, exceto para Deus.”

A morte é um assunto tão complexo que sequer há uma concordância entre os cientistas quanto sua definição. No campo filosófico, essa discussão fica ainda mais sinuosa. “Apesar de considerarmos a morte como um evento biologicamente irreversível, ela não pode ser determinada exclusivamente pelo critério biológico, pois envolve também questões ontológicas e filosóficas”, afirma o patologista forense Marcos de Almeida, professor de Medicina Legal e Bioética da Universidade Federal de São Paulo. Alma e consciência são sinônimos? Existe uma alma imortal? Se sim, para onde ela vai quando morremos? Sem respostas definitivas da ciência, o homem busca, nas crenças religiosas, explicações para o fenômeno da morte. Para uns, trata-se de uma passagem, uma transição desta vida para outra, mais plena e mais feliz. Para outros, é o momento máximo de iluminação, uma forma de libertação do sofrimento.

Há ainda aqueles para quem morrer é simplesmente deixar de existir – como se fôssemos uma lâmpada que se apaga, sem qualquer possibilidade de transcendência.

“Pesquisas demonstram que pessoas com forte grau de envolvimento religioso, independente da crença, geralmente têm menos medo da morte”, afirma a psicóloga Maria Júlia Kovácz, coordenadora do Laboratório de Estudos sobre a Morte (LEM) da USP e autora de Morte e Desenvolvimento Humano. “A fé ajuda a superar a ansiedade em relação à idéia de finitude”, diz ela. Para o psicanalista Roosevelt Cassorla, “na religião o indivíduo convive melhor com a finitude porque lá encontra certezas sobre por que vive, por que morre e o que acontece após a morte.”

Se há uma outra vida que se segue à morte, existiria então uma continuidade da mente ou do espírito. “Viver em função dessa continuidade nos torna mais responsáveis pelas conseqüências dos nossos atos”, diz a psicóloga Bel Cesar. “O fruto apodrece, cai no chão, mas deixa a semente que dará vida a outro fruto. Assim também conosco.” A visão espiritual da morte implica desapego. Afinal, é também por meio da aceitação da impermanência humana que a religião ajuda a suavizar o sofrimento causado pela finitude. Por outro lado, a idéia de transcendência, do indivíduo que vence a morte, paradoxalmente embute uma aspiração à perenidade, ao não admitir que o sujeito chegue a um fim e ao propor que ele perdure em algum outro lugar, existindo de alguma outra maneira.

Em oposição à visão espiritualista da morte, há a tradição materialista ocidental, que surgiu na Antigüidade e depois foi retomada pelos filósofos do Iluminismo, a partir do século XVIII, para a qual a morte é o fim total e absoluto. Nada mais do que a interrupção de um processo neurofisiológico, de um mero evento biológico. Essa concepção, mais tarde lapidada pelos existencialistas, como o francês Jean-Paul Sartre, funda muito da nossa visão de que morrer é um fracasso, um escândalo, uma idéia inconcebível com a qual é impossível lidar e inútil tentar conviver. “Morrer é um absurdo”, escreveu o filósofo existencialista Arthur Schopenhauer (1788-1860). A morte não cabe na idéia cartesiana de vida – para a qual tudo poderia ser medido, compreendido, planejado. A finitude quebra a ilusão iluminista e antropocêntrica de que o homem poderia controlar tudo por meio da sua razão. A possibilidade de não estar mais aqui amanhã não cabe nesse jeito de entender o mundo.

O Ocidente, em seu esforço por não admitir a morte, está há pelo menos 30 anos obcecado pela idéia do jovem como metáfora de vida saudável. O envelhecimento, que também pode ser saudável, é visto sempre como decrepitude – e a morte é vista sempre como a epítome disso. “Há uma negação muito clara da finitude. Sobretudo porque os valores da sociedade de massa e de consumo são antagônicos à idéia de morte: o fetichismo da juventude eterna, os ideais de progresso, a acumulação de bens, a busca da imortalidade”, diz Olgária Feres Matos, professora do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo. A sociedade ocidental vive um presente perpétuo, imediato. “Não há nem a visão de um futuro nem a evocação de um passado. Por isso, a morte não é admitida como uma experiência humana aceitável”, afirma Olgária. O resultado é uma sociedade atormentada, que busca inutilmente a serenidade e a felicidade não no autoconhecimento, mas em fugas da realidade indiscutível de que um dia iremos deixar de existir.

“Atualmente se vive muito mal. As pessoas, hipnotizadas por falsas necessidades, não têm uma vida emocional rica. E morre-se de modo ainda pior”, diz o psicanalista Roosevelt Cassorla. Muitas vezes, morre-se sozinho, na assepsia gelada dos hospitais, experimentando um dos medos mais primitivos do ser humano: a solidão. Até o luto é suprimido – uma exigência implícita para que a dor seja contida, pois os sinais de morte não podem transparecer aos que ficaram.

“Gastamos nossos dias tentando aproveitar a vida e chegamos ao momento da morte totalmente despreparados”, afirma o filósofo Basílio Pawlowicz, da Associação Palas Athena, um centro de estudos especializado em temas ligados à espiritualidade, em São Paulo. “Se você não disse o que queria dizer, não amou o quanto poderia amar, não tentou aquilo que desejava tentar, logicamente morrerá angustiado, com a sensação de que a vida se foi e tudo ficou pela metade.”

Mesmo no mundo ocidental, no entanto, sobrevivem tradições que, ao festejar a morte, celebram a vida. O “Dia dos Mortos”, no México, é um exemplo disso. “Ainda existem aldeias que desenterram os mortos nesse dia. Trata-se de um costume indígena milenar. As refeições são feitas no cemitério e as crianças ganham doces e bombons em forma de caveiras”, diz o historiador Leandro Karnal, professor de História da América na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “No interior do país, sobrevive a prática de conversar com os mortos para colocá-los a par do que aconteceu durante o ano.” As famílias preparam altares para seus falecidos e neles colocam os objetos de predileção do parente morto: livros, cigarros, comidas, fotografias.

A atitude de festejar a morte também está presente na cultura japonesa. “Povoado do Moinho”, o último episódio do filme Sonhos (1992), do diretor japonês Akira Kurosawa, exibe o confronto entre a antiga concepção de morte, expressa nos ritos funerários do vilarejo, e a nova, ocidentalizada, representada por um forasteiro que assiste à cerimônia. O cortejo segue, alegre, pelas ruas do povoado. Crianças, jovens e adultos cantam e dançam durante todo o trajeto do enterro. Eles celebram a morte de uma das mulheres mais velhas da aldeia. O clima de festa surpreende o forasteiro, acostumado – como nós – à atmosfera sombria de boa parte da liturgia funerária ocidental. Um velhinho centenário, então, explica ao rapaz que é uma honra encontrar a morte depois de uma existência tão plena como a daquela mulher. Por isso, tal fato merece comemoração. A história mostra como o fato de morrer pode ser encarado com serenidade e satisfação, como uma homenagem à própria vida que terminou ali.

A morte já foi vista de modo mais familiar pelo Ocidente. E não faz tanto tempo assim. Até meados do século passado, era costume morrer em casa, cercado por parentes. “A família reunia-se em volta do leito para ouvir a última palavra daquele que estava morrendo”, afirma o historiador Eduardo Basto de Albuquerque, da Universidade Estadual Paulista, em Rio Claro. “Era um momento de despedida.” Não se ocultava das crianças a morte como se faz atualmente. O velório também era, na maioria das vezes, realizado em casa – tradição que ainda sobrevive em algumas cidades do interior do Brasil. “Existiam comidas típicas para a ocasião. Os parentes preparavam alguns pratos para receber os conhecidos que participavam do enterro. Havia, inclusive, cânticos e orações especiais para o momento”, diz Eduardo.

Com a morte tendo sido transferida para a impessoalidade dos hospitais, perdemos a noção da importância dos rituais funerários, que conferem um sentido ao sofrimento e à morte. A expulsão da morte da nossa intimidade, privando aquele que está prestes a morrer da nossa ternura e da nossa solidariedade nos momentos finais, é uma metáfora da negação da finitude que operamos em nossas próprias vidas. “Os rituais de morte estão presentes em todas as sociedades do planeta. Servem para a compreensão ’social’ do fenômeno: ajudam a digerir o impacto provocado pela perda do outro e funcionam como fator de agregação daquela sociedade”, diz o antropólogo Guillermo Ruben, da Unicamp.

“Os rituais seculares foram esvaziados de sentimentos e significado”, escreveu o sociólogo alemão Nobert Elias, na arguta análise da experiência de morte nos dias de hoje, presente em A Solidão dos Moribundos. “O crescente tabu da civilização em relação à expressão de sentimentos espontâneos e fortes trava suas línguas e mãos. E os viventes podem, de maneira semiconsciente, sentir que a morte é contagiosa e ameaçadora; afastam-se involuntariamente dos moribundos”, afirmou. “Mas, para os íntimos que se vão, um gesto de afeição é talvez a maior ajuda, ao lado do alívio da dor física, que os que ficam podem proporcionar.”

O temor do “contágio” pela morte explica a solidão e a frieza das unidades de terapia intensiva, onde, muitas vezes, os doentes terminais morrem sem a possibilidade de dizer uma última palavra aos que amam e sem ninguém que lhe ofereça conforto espiritual. Claro que morrer assim dá muito medo. Estabelece-se aí um círculo vicioso: temos pânico da morte porque ela nos parece horrível e a tornamos muito mais horrível do que poderia ser porque nos afastamos dela – e de quem morre. O escritor budista Sogyal Rinpoche, autor de O Livro Tibetano do Viver e do Morrer, espantou-se quando visitou o Ocidente pela primeira vez, na década de 1970, e constatou a insensibilidade do atendimento aos doentes terminais. “O que me perturbou profundamente, e ainda continua a perturbar, é a quase inexistência de auxílio espiritual que há na cultura moderna para aqueles que vão morrer”, escreveu ele. “Cuidado espiritual não é luxo para poucos; é direito essencial de todo ser humano.”

No início dos anos 70, iniciou-se um movimento de humanização da medicina, principalmente no campo do atendimento aos pacientes terminais, que veio a se contrapor à frieza ainda dominante dos hospitais modernos. A enfermeira britânica Cicely Saunders inovou ao propor um atendimento multiprofissional aos pacientes portadores de câncer avançado, em locais chamados hospices. Nesses abrigos, o doente conta com os cuidados médicos e com a proximidade da família. Da equipe multiprofissional fazem parte também psicólogos e sacerdotes de diferentes religiões, prontos a oferecer assistência psicológica e espiritual. O “movimento hospice” incentivou a criação das unidades de cuidados paliativos, que funcionam ligadas aos hospitais, e do homecare, o atendimento domiciliar a pacientes terminais. A idéia é simples: tão fundamental quanto ter uma boa vida é gozar de uma morte mais humana, mais envolta em serenidade e ternura.

Eis o conceito, ainda tímido no meio médico mas bastante pertinente, de ortotanásia – a morte digna, sem abreviações desnecessárias e sem sofrimentos adicionais.

No Brasil, o pioneiro na divulgação dos cuidados paliativos foi o médico Marco Tullio de Assis Figueiredo, professor da Universidade Federal de São Paulo, antiga Escola Paulista de Medicina. Além de ter criado dois cursos voltados aos estudantes da área de saúde – um sobre Tanatologia (o estudo da morte) e outro sobre Cuidados Paliativos –, Marco Tullio implantou uma Unidade de Cuidados Paliativos no Hospital São Paulo. “Os estudantes de Medicina, em geral, nada aprendem em seus cursos sobre a morte e a dimensão do processo de morrer”, diz ele, que é sócio-fundador da Associação Internacional para Hospices e Cuidados Paliativos. “Por isso, vemos médicos tentando manter a vida do paciente a qualquer preço, mesmo que isso implique em mais sofrimento para o doente.” Tal prática é conhecida como distanásia, conceito que significa o prolongamento da agonia na tentativa de adiar a morte e de conseguir uma sobrevida sem qualquer qualidade – em oposição à ortotanásia.

A equipe multiprofissional de Marco Tullio também prevê o atendimento domiciliar. “Faço o possível para que meus pacientes morram em casa, próximos dos familiares. Procuramos, assim, resgatar as noções de humanidade e dignidade na morte que a medicina contemporânea perdeu”, afirma ele. Outras unidades de cuidados paliativos estão sendo criadas em diversas regiões do Brasil, mas ainda existe resistência, mesmo entre os médicos, em falar de morte.

Num esforço para reaproximar o tema do cotidiano de crianças, adolescentes, adultos e idosos, a equipe do Laboratório de Estudos sobre a Morte, da USP, preparou uma trilogia de vídeos chamada Falando de Morte. Cada episódio é dedicado a uma fase da vida. E a morte é vista como uma das etapas da existência. O objetivo é estimular discussões sobre o assunto na escola, na família, nos hospitais. “Falar da morte é transformá-la em aliada, conselheira, em uma presença natural”, afirma Ingrid Esslinger, integrante da equipe. “Lidar com ela de modo saudável significa ter mais realizações, finalizar mais tarefas e pedir mais perdões ao longo da vida. Só assim se vive de modo mais pleno e se pode morrer mais serenamente, rompendo com o hábito de deixar certas decisões para amanhã, depois de amanhã e assim por diante.”

Na filosofia oriental, existem práticas específicas de preparação para a morte. A principal delas é a meditação, que tem o objetivo de domar a mente, a ansiedade e as emoções negativas sempre – mas especialmente no momento em que a pessoa se aproxima da morte. A maior tranqüilidade dos orientais em relação à finitude se expressa também no maior respeito em relação aos velhos. As pessoas que se encaminham para o final da vida são respeitadas, incensadas. E, não raro, têm suas existências festejadas. Não são tornadas invisíveis e indesejáveis, como ocorre com freqüência no mundo ocidental.

Uma das imagens utilizadas na meditação para caracterizar os instantes finais da existência é a de uma bela atriz sentada em frente ao espelho. O último espetáculo está prestes a começar. Ela retoca a maquiagem e repassa a sua fala antes de pisar no palco pela última vez. Está preparada para a apresentação derradeira. Esse é o objetivo da meditação: adquirir a capacidade de manter a mente tranqüila e o espírito sereno no momento da morte, independente de quando e de como ela aconteça.

Reconcilie-se com a morte. Não por morbidez, não para se esquecer de viver, não porque seja bom deixar de existir. Mas simplesmente porque ela vai acontecer e não somente com você – mas com todos os que andaram, andam ou venham a andar sobre a Terra. A você e a mim, portanto, resta apenas aprender a conviver com ela. Encará-la de frente, compreendê-la, admiti-la. Em vez de escamoteá-la, negá-la, escondê-la. E, quem sabe, assim, sofrer menos com a visita que ela nos fará um dia e com os eventuais sinais da sua presença que ela já tenha plantado ao nosso redor. Desejo uma excelente vida para você, leitor. E uma boa morte.

NA LIVRARIA

A Arte de Morrer, Marie de Hennezel e Jean-Yves Leloup. Editora Vozes, Petrópolis, 1999

A Solidão dos Moribundos, Nobert Elias. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2001

Da Morte, Roosevelt Cassorla (org.). Papirus Editora, Campinas, 2001

Distanásia – Até Quando Prolongar a Vida?, Leo Pessini. Edições Loyola/Editora do Centro Universitário São Camilo, São Paulo, 2001

Memento Mori, Muriel Spark. Companhia das Letras, São Paulo, 2001

Morrer Não Se Improvisa, Bel Cesar. Editora Gaia, São Paulo, 2001

Morte e Desenvolvimento Humano, Maria Júlia Kovácz. Casa do Psicólogo, São Paulo, 1992

O Livro Tibetano do Viver e do Morrer, Sogyal Rinpoche. Editora Talento, São Paulo, 1999

Reflexões sobre a Vida e a Morte, Vera Lúcia Rezende (org.). Editora da Unicamp, Campinas, 2000

Fonte: http://super.abril.com.br/superarquivo/2002/conteudo_225138.shtml

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Lia Diskin

Publicado por educaçãoevida em Agosto 27, 2008

mar 2001

A meditação traz benefícios ao corpo e à mente, mas, para chegar à transcendência, não basta concentração, é preciso ter ética, diz a fundadora da Palas Athena

Por Gercílio Cavalcante de Assis

As palavras de Lia Diskin, especialista em técnicas de meditação, podem soar como heresia aos carolas de espírito curto. Para ela, rezar para Deus ou meditar são caminhos diferentes para atingir o mesmo fim: o encontro consigo mesmo. Mas, diz ela, para atingir o nirvana (o encontro com Deus, a revelação ou qualquer nome que se queira dar ao evento) é preciso adquirir uma postura ética aprofundada, um respeito por todas as pessoas. Além, é claro, de um envolvimento com a oração. “A pessoa não pode estar rezando e prestando atenção em quem entra ou sai da igreja.”

Nascida na Argentina, Lia formou-se em jornalismo e especializou-se em filosofia budista na Índia, tendo o dalai-lama como um de seus professores. Hoje, aos 50 anos, Lia vive no Brasil e dedica-se a assuntos essencialmente humanitários. É co-fundadora da Associação Palas Athena, um centro de estudos filosóficos sem fins lucrativos, dedicado à educação e à assistência social. Participa ainda do Fundo Mundial para a Natureza (World Wildlife Fund) e coordena o Comitê Paulista da Década da Cultura de Paz, um programa da Unesco.

Super – Quais os benefícios da prática da meditação para a saúde, a inteligência e o equilíbrio psíquico?

A meditação reduz a ansiedade, torna a respiração equilibrada e profunda e melhora a oxigenação e a freqüência cardíaca. Seu reflexo no sono é um repouso mais tranqüilo, sem interrupções. Além disso, ela atenua enxaquecas e resfriados, acelera a recuperação no pós-operatório e auxilia a digestão alimentar. No campo psíquico, a prática mantém a pessoa num relativo estado de equilíbrio, com uma lucidez que a impede de entrar em conflitos emocionais internos, principalmente de origem afetiva. Há, por parte de quem a pratica, muito mais clareza mental, objetividade, paciência, compreensão e justiça.

A preocupação com a saúde seria o principal objetivo de quem procura a meditação?

Em grande parte, sim. Mas o que se observa no Ocidente é que as pessoas estão buscando uma conexão maior consigo mesmas. A psicanálise não se mostrou suficiente para atingir esse propósito. Foi um passo extraordinário, sem dúvida, mas não suficiente.

Qual é a relação entre atenção, concentração e meditação?

A meditação, para ser realizada, precisa da atenção e da concentração. Mas a meditação vai além, pois exige certas escolhas prévias: uma postura ética frente ao mundo e um compromisso com uma instância superior a nós mesmos, que pode ser chamada de Deus ou outros nomes. Eu não posso ter uma atitude predatória em relação ao outro. Não posso utilizar a minha vida como uma fonte de sucesso unicamente para mim, a qualquer custo. Se eu não reconheço o semelhante, não posso ser um bom praticante da meditação, porque esse praticante está inserido num universo e o que acontece a esse universo está acontecendo a ele.

Existe uma freqüência ideal para meditar?

A maioria dos grandes meditadores aconselha a prática diária, ainda que por alguns minutos. Dez minutos pela manhã e dez à tarde já são um bom começo. À medida que vamos nos familiarizando com a prática, esse tempo vai aumentando. O importante é manter a periodicidade, até que ela faça parte da nossa vida.

Quais os maiores obstáculos ao aumento da prática no Ocidente?

Segundo os textos clássicos, os maiores obstáculos são a agitação, a dispersão e a superficialidade. No Ocidente, eu me atreveria a acrescentar a preguiça. Numa sociedade que preconiza o resultado imediato, se não se verificam efeitos rapidamente, a preguiça começa a tomar conta.

Os ritos espirituais do Ocidente não tornam a tradição religiosa monótona?

A celebração não é perniciosa nem comprometedora. Um fenômeno extraordinário é a celebração que acontece todos os domingos no Mosteiro de São Bento. Há 20 anos, havia 40, 50 pessoas assistindo. Hoje, num domingo, não se consegue entrar e é o mesmíssimo ritual: o canto gregoriano em latim, o estado de profunda compenetração com cada movimento. O problema não está no rito, mas na maneira como a pessoa está engajada nele ou no comprometimento do participante com a tradição religiosa. Sem isso, o rito se torna totalmente mecânico e automático. O mesmo pode ocorrer na meditação. Se o praticante não estiver atento, ele pode automatizar a prática. A mente, aparentemente, está no ato de meditar: ela percebe as respirações ou visualiza uma imagem, mas, internamente, não há uma entrega. E só o praticante sabe se houve uma inteireza de si mesmo com a prática ou só um estado medíocre. Dá para dizer que 80% das práticas são medíocres. Há ocasiões em que você termina a prática sabendo o que aconteceu, sentindo o regozijo dessa experiência. Por outro lado, há ocasiões em que você cumpriu sua meditação, mas não foi além. Atingir aquilo que se denomina ápice ou cume – se é que dá para assim chamar o estado satori nas práticas budistas, na tradição zen, ou o samadhi, nas tradições hinduístas – não acontece à vontade: eu vou sentar e vou ter um samadhi. Isso não tem nenhuma consistência.

A oração é um tipo de meditação?

Se a mente está em sintonia com as palavras, sem dúvida. Agora, se por um lado há verbalização e por outro os olhos miram quem entrou na igreja ou saiu dela, não é meditação coisíssima nenhuma.

Quem não medita imagina que, com a meditação, vai ver algo…

Na prática de visualização, sim. Mas nem toda meditação tem como fim uma visualização. Nos exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola, por exemplo, há um repertório de prática de visualização do Cristo a seu lado. Mas uma coisa é visualizar, outra é imaginar. Na imaginação você está se forçando a ver algo que não está vendo e você não consegue dar consistência à imagem interna. Você pode começar imaginando e, de tanto praticar, terá a visão concreta. No entanto, há técnicas meditativas que não têm por fim a visão, mas a devoção, gerar um estado de compaixão e de amorosidade internos. Outras têm por objetivo deter o fluxo dos pensamentos. Os pensamentos ocorrem, mas não há ninguém registrando esses pensamentos.

O conceito de meditação, então, não é único?

Não. A meditação é um recurso de introspecção, de experiência interna. A experiência atual, de um mundo em permanente contato intercultural, pode gerar um novo repertório de práticas. As práticas não são petrificadas: “São essas e não haverá nenhuma mais”. Não. O processo de espiritualidade acompanha a humanidade e, sem dúvida, terá contornos que hoje não imaginamos.

Nas práticas de meditação é comum a adoção de uma dieta vegetariana. Que relação há entre alimento e meditação?

A disciplina alimentar está muito mais centrada numa atitude interna de desapego ao paladar e satisfação com o necessário, do que no bem-estar físico. Comemos para viver, não o contrário. Mas cada indivíduo tem um metabolismo diferente. Em regiões de baixas temperaturas, é preciso ingerir gordura animal para se proteger do frio. Os beneditinos comem carne e nem por isso têm menos espiritualidade que um vedantino, que é vegetariano. Hitler era vegetariano e não permitia anestesia quando tratava os dentes. Era extremamente disciplinado, mas isso não o impediu de fazer as brutalidades que fez. Não é a coisa externa, o cumprimento de uma regra, que determina a qualidade de um praticante – é a sua atitude interna.

Os maiores obstáculos à meditação são a agitação, a dispersão e a superficialidade. No Ocidente, eu me atreveria a acrescentar a preguiça

Fonte: http://super.abril.com.br/superarquivo/2001/conteudo_170813.shtml

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Todo mundo zen

Publicado por educaçãoevida em Agosto 27, 2008

Medicina

nov 2000

Ayurvedismo

Com massagens, plantas medicinais, meditação, dieta balanceada, postura correta e contato com a natureza, o ayurvedismo ganha milhões de adeptos em todo o mundo afirmando que corpo, mente e espírito em equilíbrio são a melhor barreira contra doenças e estresse

Por Mariana Mello

Você quer viver 120 anos? Claro que sim. Afinal, postergar o mais possível a data de embarque desta para melhor é um desejo óbvio – e eterno – do ser humano. Bem, e você já ouviu falar em medicina ayurvédica? Provavelmente não. Pois saiba que a longevidade é uma das promessas desta que é uma das doutrinas médicas mais antigas do mundo.

Surgido há mais de 5 000 anos na região onde hoje está a Índia, o ayurvedismo acredita que saúde nada mais é do que o resultado do equilíbrio do homem com a natureza – e consigo mesmo. Naquela época primeva – as pirâmides do Egito estavam sendo construídas! –, o conhecimento médico era passado oralmente de mestre para discípulo. O termo ayurvedismo data daquele tempo e tem origem no sânscrito – significa “conhecimento da vida”.

Para o ayurvedismo, tudo o que existe na Terra – inclusive nós – é composto por cinco elementos: espaço, ar, fogo, terra e água. O espaço, que os ayurvedas chamam de éter, representa a ligação entre os homens e a divindade. O ar é movimento, o fogo é calor, a água adere e a terra dá consistência. Da combinação desses cinco elementos, segundo a doutrina, constroem-se os três tipos básicos de constituição física e psicológica dos seres humanos (ou dosha, em sânscrito): ar e espaço formam Vata, fogo e água formam Pitta, água e terra são Kapha.

Pitta é o dosha do fogo, o elemento da transformação. Portanto, as pessoas de Pitta seriam empreendedoras e objetivas. Vata é a constituição do ar e do espaço. As pessoas de Vata seriam criativas e alegres, porque o ar está sempre em movimento. Kapha é o dosha da água e da terra. As pessoas sob sua égide seriam amorosas, equilibradas e estáveis.

Uma consulta com um médico ayurveda pode durar horas. E a primeira coisa que ele fará é descobrir qual é o seu dosha. (Diz-se que alguns médicos indianos podem identificar o dosha à primeira visão do paciente.) Após perguntar detalhes como seu tamanho ao nascer e como anda o seu apetite sexual, tudo é examinado: o ritmo da pulsação, o aspecto da língua (veja box à página 98), dos olhos e dos lábios, a temperatura da mão, as linhas do rosto. Detalhes mínimos são observados: desde o seu modo de falar e caminhar até eventuais tiques nervosos. Para o ayurvedismo, seu corpo pode revelar mais detalhes sobre a saúde do que jamais imaginou a filosofia halopata.

Um dos tratamentos mais comuns em medicina ayurvédica é o Pancha Karma: uma desintoxicação feita à base de massagens com óleos infundidos com ervas. Segundo Marcia de Lucca, eles penetram no corpo eliminando toxinas, diminuindo o estresse, melhorando o desempenho do sistema imunológico e ativando o sistema circulatório. “É muito importante que a pessoa sinta que corpo, mente e espírito formam uma coisa só.”

A alimentação é um ponto importante para o ayurvedismo. Cada dosha requer uma dieta especial. Quem é Pitta, por exemplo, o elemento do fogo, deve evitar comer pimenta e amendoim, alimentos energéticos e “quentes”. Quem é Vata, o elemento do ar, deve evitar frutas secas e cereais, porque seu organismo já é, em geral, pouco hidratado.

Isso tudo funciona? Aloízio Oria, 63 anos, saiu há meio ano do consultório do seu médico com os exames cardíacos embaixo do braço e uma sentença pairando sobre o pescoço: 70% da veia terciária, um dos principais dutos sangüíneos do coração, estavam entupidos. Ainda em tempo de reverter o quadro que poderia ser fatal, procurou o tratamento ayurvédico. “Passei a meditar uma hora por dia, cinco vezes por semana. Naquele momento, toda a energia do pensamento era dirigida para a cura do meu coração”, diz. Em abril deste ano, Oria refez os exames. “A veia estava totalmente desobstruída. Meus médicos e eu não acreditamos.”

Outra história que faz pensar: a empresária paulistana Leila Pires, 39 anos, descobriu cistos nos ovários e um mioma no útero. E achou que cedo ou tarde teria câncer. “Além de outros casos na família, minha mãe teve câncer de mama. Eu não pensava em outra coisa.” Para aliviar a tensão, Leila passou a freqüentar sessões de massagem ayurvédica. A idéia de que a massagem pudesse curá-la nem passava pela sua cabeça. Depois de seis meses de tratamento, em exames de rotina, a grata surpresa: “Os exames apontaram útero e ovários normais. Hoje acredito que a massagem trabalhou os pontos de energia certos. Tenho certeza de que minha doença era de fundo emocional”.

O ayurvedismo aposta na prevenção das doenças. “Se você acumula toxinas todos os dias no seu corpo, gera um processo de enfraquecimento do organismo que abre caminho para o desenvolvimento de doenças. Nosso trabalho é fazer com que você não acumule toxinas e se purifique permanentemente”, diz Marcia de Lucca.

Como se faz isso? Com práticas simples, mas que exigem boas doses de disciplina, como reeducação alimentar, exercícios respiratórios, de meditação e posturais, aliados às massagens. Esse é o escudo ayurvédico que teria o poder de protegê-lo das moléstias. “A base da massagem é a coluna vertebral, que é a sede das atividades neuromotoras. Você é tão jovem quanto a sua coluna vertebral. Se você tem uma coluna alinhada seu corpo é saudável”, afirma a carioca Ma Pren Ila, especialista em massagem ayurvédica.

O ayurvedismo tem crescido em todo o mundo. Fundador do The Chopra Center for Well Being (Centro Chopra para o Bem-Estar), na Califórnia, o endocrinologista indiano Deepak Chopra é um dos grandes responsáveis pela tradução do ayurvedismo para o Ocidente. Famoso por ter unido conhecimentos da antiga sabedoria do Oriente com a experiência da moderna medicina ocidental, Chopra administra, além do Centro, uma série de produtos que carregam sua marca: tem 21 livros publicados, editados em 30 idiomas, vídeos e fitas de áudio com ensinamentos indianos, óleos, chás e temperos. Entre seus clientes estão estrelas de Hollywood, como Demi Moore e Michael Douglas. Chopra tornou-se milionário e hoje passa boa parte do tempo viajando, dando palestras por todo o mundo (no mês passado esteve no Brasil).

Muitos médicos brasileiros têm se especializado em ayurvedismo. Mas nem todos excluem os exames tradicionais. “Apesar de ser ayurveda, o primeiro diagnóstico que faço é baseado na visão ocidental”, diz o clínico-geral carioca Aderson Moreira da Rocha, presidente da Associação Brasileira de Ayurveda. O cirurgião e homeopata paulista César Deveza encarou a leitura em sânscrito das escrituras originais para se tornar mestre em ayurveda. Ele diz que o segredo do ayurvedismo é entender o ser humano como um ser uno e integrado. “Uma doença não é apenas um órgão doente. Não adianta dar um remédio para o estômago de um paciente que está com um conflito existencial, que teve uma úlcera em função da angústia. A úlcera se resolve, mas o paciente continua doente.”

Deveza está desenvolvendo um projeto de tratamento ayurvédico no Instituto do Coração, o Incor, em São Paulo. “Muitos dos pacientes têm problemas cardíacos e respiratórios somatizados. E muitos dos sintomas físicos estão relacionados com o estado emocional e psicológico.” Segundo Deveza, há uma pressão antiayurveda muito forte por parte da indústria farmacêutica. “Imagine quanto dinheiro vai deixar de ser ganho se a medicina ayurvédica começar a se desenvolver com mais força.” E completa: “Uma medicina que sobrevive por mais de 5 000 anos tem que ter um bom fundo de verdade”.

Para saber mais

Na livraria: Ayurveda de Vasant Lad. Editora Ground

Saúde Perfeita de Deepak Chopra

Na Internet: Associação Brasileira de Ayurveda

www.ayurveda.com.br

Centro Integrado de Yoga, Meditação e Ayurveda

www.ciyma.com.br

Site oficial de Deepak Chopra

http://www.chopra.com/ccwbwelcome.htm

mamello@abril.com.br

No ayurvedismo, cada parte da língua representa um órgão. Se houver diferenças de cor ou textura, pode haver problemas com os órgãos correspondentes.

O mesmo vale para os lábios. Se estiverem secos e ásperos, indicam desidratação, distúrbio da constituição de Vata. Os lábios de Pitta, por exemplo, dosha do fogo, são vermelhos, e os de Kapha, dosha da água e da terra, são grossos e oleosos.

Há dois anos a atriz Maitê Proença se rendeu aos encantos da medicina ayurvédica. Já fez uma viagem à India e promete abrir em breve uma clínica ayurveda no Rio de Janeiro

“Acho que beleza vem da saúde. Não adianta esticar o rosto, puxar aqui e ali, e estar se sentindo péssima por dentro. Eu não conheço nada mais eficaz que o ayurveda para trazer esse benefício. Passei 15 dias na Índia, na região do Kerala. A comida era a mais deliciosa que já comi na minha vida, sabores que eu nunca tinha sentido. Não engordei nem 1 grama porque era tudo muito equilibrado. Continuo fazendo massagens no Rio de Janeiro com uma massagista que tem os óleos indianos, adaptados ao meu dosha, que é Vata.

“Em três dias na Índia a minha pele parecia a de uma criança. Comecei naturalmente a acordar às 6 horas da manhã, para despertar com o dia e adormecer com a noite.

“Nem sempre é fácil seguir os preceitos do ayurvedismo. O teatro atrapalha o horário de dormir. Mas fazer alguma coisa já é bem melhor do que não fazer nada.

“Em breve vou abrir minha clínica. Quero trazer os cozinheiros e os massagistas indianos para o Brasil, porque eles é que sabem das coisas. É uma doutrina milenar que não se aprende de um dia para o outro.”

Fonte: http://super.abril.com.br/superarquivo/2000/conteudo_154062.shtml

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O poder da mente vazia

Publicado por educaçãoevida em Agosto 27, 2008

jan 2001

Medicina – Meditação

Novos estudos comprovam o poder terapêutico da meditação. Resultado: essa técnica oriental de 2500 anos começa a ser utilizada pela medicina ocidental em uma série de tratamentos

Por Jomar Morais

Cena 1: O salão do Sports Club Los Angeles é amplo, despojado e, sobretudo, silencioso. Muito silencioso. Um ouvido apurado talvez percebesse ali o sopro suave de pulmões inspirando oxigênio, expirando gás carbônico. Nada mais que isso. Também não há mobília, apenas pequenos tatames com almofadas no centro, enfileirados como poltronas em um auditório. O ambiente é peculiar. E não apenas pelo fato de ficar em Los Angeles, uma das cidades mais barulhentas e poluídas dos Estados Unidos. Dentro do salão há dezenas de pessoas sentadas, imóveis sobre os tatames, pernas cruzadas e olhos semicerrados. Desafiam o corpo e a mente numa atitude de profunda contemplação interior. Acredite: cada uma delas pagou 1 295 dólares para ter acesso ao local e, a cada mês, desembolsa outros 130 dólares para fazer absolutamente nada por algum tempo.

É verdade que não se trata de um grupo qualquer. Entre outras figuras consagradas pela mídia, ali estão Earvin Johnson Jr, o Magic Johnson, um dos maiores jogadores da história do basquete americano; a atriz Sarah Gellar, do seriado de TV Buffy Caça-Vampiros e do filme Pânico II; executivos, profissionais liberais… Ainda assim, a imagem de alguém pagando tão caro para não receber nada palpável nem fazer coisa alguma é algo que impressiona numa sociedade marcada pelo materialismo e pela agitação. (Ou melhor, impressionava, como você verá adiante.)

Cena 2: No 9º andar do Hospital do Servidor Municipal de São Paulo, no bairro do Paraíso, a sala repleta de tatames almofadados lembra, em quase tudo, o cenário de Los Angeles. O silêncio, o ambiente sereno, enfeitado discretamente com algumas guirlandas. A mesma assembléia de pessoas mergulhadas em seu oceano interior. A diferença é que nenhuma delas pertence ao olimpo cultural ou econômico do mundo, nem desembolsou um real sequer para participar da reunião.

Não importa. Ainda que diferentes em termos de fama e dinheiro, o grupo californiano e o do hospital público paulistano são exemplares de um novo tipo de busca e terapia que cresce no seio das sociedades ocidentais: a busca da cura de doenças ou simplesmente da paz interior por meio da meditação.

Esqueça as aparências. “Ao contrário do que se possa imaginar, meditar não é cair na ociosidade mas ativar a mente”, afirma Dean Ornish, professor de Medicina na Universidade da Califórnia, em San Francisco. E o resultado disso, segundo Dean, é positivo para a saúde e o equilíbrio emocional. Em termos práticos, meditar é concentrar a atenção em uma única coisa. Pode ser o ritmo da respiração, um mantra – palavras ou sons sem significado utilizados na meditação budista –, ou mesmo o vazio universal. Parece simples – e é. Apesar disso, poucos desafios são tão difíceis para a mente turbulenta de um ocidental quanto aprender a meditar. “Não temos consciência de grande parte do estresse que existe em nós e, assim, vivemos de uma forma mecânica, no piloto automático”, diz Jon Kabat Zinn, diretor da Clínica de Redução do Estresse do Centro Médico da Universidade de Massachusetts. “A mente agitada está sempre fixada no passado ou no futuro, ao passo que meditar é concentrar-se no presente.”

Quem chegou lá garante: os benefícios da meditação começam pelo repouso corporal, que, durante o período de concentração, é superior ao do sono. “Um homem dormindo consome seis vezes mais oxigênio do que meditando”, diz o pediatra e acupunturista Norvan Martino Leite, idealizador da Sala de Meditação do Hospital do Servidor paulistano. “Os batimentos cardíacos diminuem e aumentam no cérebro as ondas alfa e teta, associadas ao relaxamento.” A velha prática oriental de aquietar a mente está se expandindo no Ocidente de um modo inédito, apoiada em pesquisas científicas que buscam comprovar seus efeitos benéficos.

A última descoberta, realizada por pesquisadores da Universidade da Califórnia, indica que a meditação contribui até para evitar o acúmulo de gordura nas artérias – um dado que, segundo os estudiosos, fecha o circuito de achados recentes sobre a função preventiva da meditação nas doenças coronárias. Um deles, apresentado no ano passado por cientistas da Universidade Harvard, inclui imagens do cérebro obtidas enquanto praticantes regulares de meditação há mais de cinco anos meditavam no interior de câmaras de ressonância magnética. As chapas atestam que as regiões do cérebro ligadas às emoções e à função cardiorrespiratória mantiveram-se em hiperatividade durante todo o tempo da meditação, detalhe que para Sara Lazar, coordenadora do estudo, tem importância fundamental. “Elas comprovam o que os meditadores dizem sentir e mostram que a meditação promove alterações quantificáveis no organismo”, diz a pesquisadora.

Estudos realizados em outras universidades americanas, entre as quais Stanford e Columbia, já haviam evidenciado anteriormente que meditar ajuda a baixar a pressão arterial e reduz a produção de adrenalina e cortisol, dois hormônios que atuam nas situações de estresse. Além disso, a meditação estimularia a produção de endorfinas, espécie de tranqüilizante e analgésico natural fabricado pelo cérebro. (As endorfinas são responsáveis pela sensação de leveza experimentada em momentos de contentamento.)

A suposta capacidade de prevenir doenças coronárias com tão pouco esforço – outra forma de levar o corpo a reagir dessa forma é suar na academia de ginástica ou praticando esportes –, despertou o interesse até do governo dos Estados Unidos, através do Instituto Nacional de Saúde. O órgão patrocina, desde o ano passado, uma pesquisa de 17 milhões de dólares sobre o emprego de meditação transcendental no tratamento e na prevenção da hipertensão entre negros americanos. Se os resultados forem positivos, a meditação poderá integrar as futuras políticas de saúde americanas.

O ritual da meditação começou há 2 500 anos na Índia e foi, depois, difundido na Ásia pelos monges budistas. Despido de seu caráter religioso, transformou-se numa das técnicas novas mais populares no círculo médico americano. Na verdade, desde que os Beatles flertaram com o guru Maharishi Mahesh Yogi, na Índia, há pouco mais de 30 anos, o número de meditadores nos Estados Unidos jamais parou de crescer. Estima-se que eles sejam 10 milhões atualmente, a maioria gente que aprendeu a meditar em hospitais e clínicas como complemento a tratamentos médicos tradicionais. (Magic Johnson, você lembra, carrega no corpo o vírus HIV.)

É desse grupo também que emergem números sugestivos sobre os efeitos benéficos da meditação. Veja: entre mais de 11 000 pacientes atendidos no Centro de Redução do Estresse, da Universidade de Massachusetts, os sintomas físicos – geralmente dores, pressão alta e problemas digestivos – teriam diminuído, em média, 40% após eles meditarem duas vezes por dia durante dois meses.

No Brasil, onde seminários de um dia sobre meditação chegam a custar 300 reais, é também através dos hospitais que a prática começa a se disseminar entre a população. O primeiro passo foi dado pelo Hospital do Servidor Municipal de São Paulo, há 15 meses. Ali, duas monjas budistas treinaram uma equipe de 24 médicos nas técnicas de meditação Ch’an Tao, uma das dezenas de variações da prática, bastante simples, que consiste em o praticante concentrar-se na própria respiração. Agora, os médicos estão ensinando os pacientes. Outra experiência, fora do Centro-Sul, é comandada por um doutor em Física Teórica pela Universidade de Waterloo, no Canadá – o indiano Harbans Lal Arora –, no Hospital Geral e no Hospital Cesar Cals, em Fortaleza. Segundo o físico, pacientes que praticaram meditação antes de se submeter a cirurgias perderam 40% menos sangue durante a operação e voltaram para casa na metade do tempo previsto. Vinte doentes de Aids, também segundo Arora, apresentaram redução no número de vírus HIV no sangue.

Obviamente, há quem veja com reserva esse súbito interesse da medicina pela meditação. Richard Sloan, psicólogo e diretor de Medicina Comportamental do Centro Médico Presbiteriano de Columbia, nos Estados Unidos, por exemplo, desconfia de que se está diante de um “fenômeno de marketing”, com objetivo meramente financeiro e pouco resultado terapêutico. “Não há dúvida de que relaxar tem impacto positivo sobre o sistema nervoso, mas é discutível se isso é um efeito duradouro para a saúde ou apenas efêmero”, afirma. De qualquer modo, a adoção de meditação como complemento em tratamentos que exigem a redução do estresse não enfrenta maiores obstáculos na área médica e, por enquanto, tem o aval dos pacientes. “Há dois anos, eu mal conseguia falar devido a um efisema no pulmão e à arritmia cardíaca”, diz a empresária paulista Edda Dorothy Bragazza, atendida na clínica particular de Norvan, o pediatra e acupunturista do Hospital do Servidor. “Com a meditação recuperei a voz e me livrei da arritmia.”

Em princípio, meditar não tem contra-indicação, segundo praticantes e estudiosos. “Graças ao seu efeito relaxante, até pacientes psicóticos podem fazê-lo, desde que sob assistência profissional”, afirma o psicólogo Marlos Alves Bezerra, que acompanhou experiências com portadores de psicose maníaco-depressiva no Nordeste. O relaxamento, no entanto, é uma das etapas primárias da meditação, um estágio no qual a maioria dos praticantes costuma estacionar.

Como processo de autoconhecimento, a meditação profunda nem sempre produz uma agradável sensação de leveza a cada exercício. O objetivo da prática é limpar as memórias para que se chegue “à mente vazia, à mente aberta para a vida”, ensina Norvan. E isso pode acarretar, eventualmente, desgaste e mal-estar ao contato com as emoções mais profundas. Após essa “higienização mental”, no entanto, o resultado quase sempre é o amadurecimento interior e uma vida mais prazeroza, segundo Roger Woolger, doutor em Psicologia pela Universidade de Londres.

Foi o que descobriu o jornalista Caco de Paula, da revista Veja São Paulo, publicada pela Editora Abril. Caco atribui a seus cinco anos de prática meditativa a estabilidade emocional que lhe proporcionou mais paz e uma nova maneira de ver a vida (veja quadro na página 74). Nesse sentido, a meditação seria mais do que uma terapia, como lembra Sharon Salzberg, da Insight Meditation Society, em Barre, Massachusetts. “É um estilo de vida baseado na disciplina da mente.”

jmorais@abril.com.br

Há metafísica bastante em não pensar em nada, nos ensina Fernando Pessoa. Depois de meditar, ninguém é mais a pessoa que era antes. Eu não sou. E só tenho a agradecer por isso. Observar a respiração, entoar mantras ou simplesmente ouvir o próprio silêncio são ótimos meios de trazer a mente para casa e agir com maior atenção e serenidade. Submetidos a uma visão mais clara, alguns problemões são reduzidos à sua real insignificância. Dissolvem-se como sal na água. Eis porque cada vez mais pessoas descobrem os benefícios das práticas meditativas. Os níveis de consciência e percepção que se pode atingir são muito variáveis. Sou apenas um principiante, mas o pouco que experimentei já foi suficiente para mudar a minha vida. Comecei há alguns anos com ch’an tao, ou zazen, a meditação sentada. Depois, tive a alegria de conhecer um pouco de budismo tibetano, com sua riqueza de símbolos, mantras, movimentos de mãos, visualização de imagens e cores. Os vazios do zen, os signos múltiplos do tantra, as surpresas da meditação ativa e tantas outras técnicas levam a um só caminho: o auto-reconhecimento que nos permite desenvolver um bom coração e buscar uma vida com maior consciência e compaixão. Em muitas delas pode-se dispensar totalmente os rituais. A meditação é algo muito mais simples do que parece. Sob certo aspecto, é reconhecer as próprias emoções e transformá-las. Sob outros, é apenas ser inteiro em tudo o que se faz. A meditação não funciona quando se fala dela. Funciona quando praticada. A prática é tudo. O meditador só se aprofunda se quiser se transformar, localizar sua luz interna (todos nós já viemos com uma, de fábrica – com manual de instruções incluso). Observar-se nem sempre é fácil, mas os benefícios são extraordinários. Há muitos obscurecimentos que tornam as pessoas impacientes, raivosas, incapazes de perdoar a si mesmas e aos outros. A meditação nos deixa menos vulneráveis a esses comportamentos venenosos que, desatentos, repetimos mecanicamente. Perceber isso é um bom ponto de partida para buscar uma mente mais clara.

Não é preciso atingir o nirvana, a plenitude que os monges buscam em estados alterados da consciência, para tirar proveito da meditação. Não é indispensável sequer sentar no chão com as pernas cruzadas, a conhecida postura de flor-de-lótus a que se habituaram os orientais. Você pode meditar em casa, sem sair da poltrona.

Algumas dicas para melhorar sua performance meditativa:

• Respire fundo. Isso oxigena o cérebro e deixa a mente mais ágil. Se você estiver muito agitado, expire mais longamente para estabilizar a mente.

• Posicione o queixo paralelo ao chão e a coluna ereta com leve projeção das cervicais para trás, como se fosse corrigir sua curvatura.

• Mantenha a língua debaixo dos dentes da arcada superior e o maxilar relaxado. Para evitar que a boca fique aberta, esboce leve sorriso (lembra aquele sorriso dos budas? Trata-se de um gesto pragmático).

• Deixe os olhos semicerrados, mirando a 45 graus. Há quem diga que é melhor fechá-los, pois costumamos empregar 25% da nossa energia psíquica com a visão. Quem defende a primeira postura, afirma que olhos fechados facilitam a visualização e, através dela, a dispersão. Algumas técnicas meditativas, no entanto, estão centradas justamente na visualização.

• Concentre-se na respiração, acompanhando os movimentos do abdomen com uma contagem regressiva de 10 a 1. Recomeçe-a durante todo o tempo da meditação ou quando pensamentos desviarem sua atenção. Outra alternativa é entoar mentalmente um mantra, que pode ser uma única palavra que lhe soa bem. Por exemplo: amor. O resto é deixar fluir.

Na livraria: Emoções que Curam

Daniel Goleman (org.), Rocco, 1999.

Ch’an Tao – Essência da Meditação

Jou Eel Jia, Norvan Martino Leite e Lilian Fumie Takeda, Editora Plexus, 1998.

Na internet:

www.newscientist.com/nsplus/insight/big3/conscious

www.meditationcenter.com

www.palasathena.org.br

Fonte: http://super.abril.com.br/superarquivo/2001/conteudo_162511.shtml

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Este é o homem mais feliz do mundo?

Publicado por educaçãoevida em Agosto 27, 2008

Segundo a ciência, a resposta é sim. Mas o próprio monge francês Matthieu Ricard diz que a questão do título não importa. Mergulhe na mente do budista (e Phd em biologia) e entenda por que você não precisa viver em um mosteiro para ser feliz. Basta começar a meditar

Texto e Fotos: Haroldo Castro, de Katmandu

Inspiração nas alturas: Matthieu Ricard no mosteiro Shechen, em Katmandu, Nepal. O monge francês vive no Himalaia há 36 anos

No ano passado recebi centenas de e-mails de correntes. Um deles era sobre o “homem mais feliz do mundo”. Abri o arquivo, vi que se tratava de um monge francês residente no Himalaia e depois descartei o e-mail. Retive o nome do afortunado, mesmo achando estra-nho que um budista pudesse fazer tanto marketing pessoal. Alguns meses depois, quando preparava minha viagem ao Nepal, lembrei que o tal monge da internet vivia em Katmandu e fui atrás dele.

Matthieu Ricard mora no monastério Shechen, no bairro tibetano Bouda. Para chegar lá, naveguei por um emaranhado de ruelas. Passei por lojas de artesanato para turistas e de artigos religiosos para devotos. Entrei e dei de cara com um imponente e colorido prédio quadrado, de arquitetura tibetana: o templo principal. Ao seu redor estão os aposentos dos religiosos, com dezenas de portinholas enfileiradas em dois andares. Gyurmed Lodro, um monge nepalês de 29 anos, recebe-me. “Somos 300 aqui. Os mais idosos vieram como refugiados do Tibete, chegaram cruzando as montanhas. Os jovens nasceram no Nepal ou na Índia”, diz Gyurmed. Ele me mostrou a clínica do monastério, um trabalho social que beneficia a comunidade tibetana local. “Os pobres pagam apenas a soma simbólica de 20 rúpias (R$0,50). Atendemos 45 mil pacientes por ano com homeopatia, acupuntura, medi-cina natural tibetana, clínica dental e medicina da mulher.” Orgulho dos membros do mos-teiro Shechen, a clínica é financiada por doações de budistas estrangeiros e os direitos autorais dos livros de Matthieu Ricard.

Gyurmed levou-me até o escritório do monge francês, no segundo andar de um dos prédios de Shechen. Ricard está visivelmente ocupado. Sobre sua mesa de trabalho, repleta de papéis e livros, repousa um passaporte europeu. “Viajo amanhã para Paris. Enquanto conversamos, aproveitarei para arrumar minha papelada”, diz. Conto que o procuro por causa de um spam. Ele sorri, abana a cabeça e dá um suspiro profundo. “Nunca teria me autoproclamado como o homem mais feliz do mundo. Isso começou com um documentário da televisão austríaca. Em seguida, o jornal britânico ‘The Independent’ publicou uma reportagem anunciando que eu era a pessoa mais feliz do mundo”, afirma. “O que aconteceu é que participei de um estudo na Universidade de Wisconsin [EUA], para medir os benefícios da meditação. Todos os 12 voluntários possuíam uma longa experiência, com mais de 10 mil horas de práticas meditativas”, diz Ricard.

Arte e meditação: monge chega a um templo do mosteiro Tashilhunpo, em Shigatse, no Tibete, para sua prática diária

Os participantes enfrentaram uma bateria de eletroencefalogramas e tomografias cerebrais. Os resultados comprovaram que o grupo apresentava um alto nível de ondas gama (de “emoções positivas”) no córtex pré-frontal esquerdo, local associado com a felicidade e a alegria. No lado direito, que lida com ansiedades e frustrações, as ondas eram inexistentes. Talvez para exercitar a humildade, Ricard não confirma que seus resultados foram os melhores. “A importância da pesquisa foi provar que a mente é maleável. As conexões no cérebro não são fixas. Com esforço e tempo, elas podem ser modificadas, assim como a maneira como interpretamos o mundo”, diz.

Filho do filósofo Jean-François Revel e da pintora Yahne Le Toumelin, o monge é autor de vários livros. Dois estão disponíveis no Brasil (veja o quadro “Vá fundo”). Ele também é fotógrafo, com vários ensaios publicados. Por ter nascido em um berço rodeado de intelectualidade e arte, pergunto se as influências externas ajudam uma pessoa a ser feliz. “Na busca da felicidade, geralmente olhamos para fora, procuramos elementos externos e queremos possuir bens materiais. Quando as coisas vão mal, queremos corrigir externamente. Mas o controle que temos dos elementos exteriores é limitado e geralmente ilusório”, afirma. “Apenas uma porção pequena da felicidade, digamos entre 10% e 15%, relaciona-se com condições externas. Certamente, é mais difícil ser feliz se não ultrapassamos o estado de miséria. Uma boa educação, ter acesso à informação ou viajar ajudam. A genética também entra nessa equação: cerca de 25% de nosso potencial parece ser determinado por nossos genes. Mas tudo isso não é o suficiente para um indivíduo alcançar a felicidade. Os restantes 60% ou mais dependem de nosso estado mental. É a mente que traduz as condições externas em felicidade.” Ou em sofrimento.

As dores da alma formam um tópico notável no budismo. A busca de sua compreensão e eliminação foram o tema central do primeiro sermão de Sidarta Gautama, o Buda, no ano 528 a.C. em Sarnath, na Índia. O ensinamento tem quatro princípios simples, chamados de Nobres Verdades. A vida é uma cadeia de sentimentos. A causa do sofrimento é o apego, a ignorância ou a aversão. Para que o sofrimento cesse, é necessário cultivar o amor incondicional, desprender-se dos objetos de desejo e vencer a ignorância e a aversão. Enfim, para que isso aconteça, o Buda recomenda seguir um caminho de oito passos corretos (a compreensão, o pensamento, a linguagem, a ação, o modo de vida, o esforço, a consciência e a concentração corretos), sempre desenvolvendo a compaixão.

Monja feliz: Todzi, 18 anos, descobre o Tibete em sua primeira peregrinação. Ela mora na China, mas seus antepassados são tibetanos

“A mente é a especialidade do budismo”, diz Ricard. “Não considero o budismo uma religião. Não perdemos tempo discutindo Deus. A questão é irrelevante. Buscamos saber como a mente funciona. Precisamos refinar a percepção de nossa realidade.” Aí é que entra o papel da meditação. Uma mente mais tranqüila responde melhor aos desafios da vida, enquanto as emoções descontroladas levam ao caminho oposto. O ódio, a inveja, a raiva ou a arrogância são sentimentos que minam a felicidade. Parece simples. Mas por que continuamos sofrendo? Como se estivéssemos enfeitiçados por uma obsessão, persistimos em focar nossa atenção no sofrimento. Isso só provoca o aumento da agonia. Quando um tema nos angustia, por que nossos pensamentos insistem em regressar à origem da dor? A resposta está em nossa própria mente: ela não tem o treinamento adequado. Os sábios budistas confirmam que não basta erradicar todo e qualquer tipo de sofrimento para encontrar a felicidade. “Além de deixar de lado as emoções negativas, também devemos desenvolver as positivas”, diz Ricard.

O OUTRO CANDIDATO

O título de “homem mais feliz do mundo” de Matthieu Ricard é dividido com ao menos mais um monge budista. O nepalês Yongey Mingyur Rinpoche participou das mesmas pesquisas que Ricard, supervisionadas pelo professor Richard Davidson, da Universidade de Wisconsin (EUA). Rimpoche também alcançou elevados índices de atividade das ondas gama. Escreveu um livro, já traduzido para o português, “A Alegria de Viver”. Seu colega Matthieu Ricard assinou o prefácio da edição francesa. “Em sua essência, o budismo é muito prático”, escreve Mingyur Rinpoche. “Trata-se de fazer coisas que encorajem a serenidade, a felicidade e a confiança – e evitar outras que provoquem a ansiedade, a desesperança e o medo.”

Ele se baseia no princípio de que dois estados mentais não podem ocorrer simultaneamente. “Podemos ter um acesso de amor e outro, imediatamente depois, de ódio. Mas não podemos sentir ódio e amor ao mesmo tempo por uma mesma pessoa ou objeto”, afirma o monge. “Devemos habituar nossa mente a substituir emoções negativas por positivas. Quanto mais cultivarmos o amor e a bondade, menos espaço teremos para a raiva e o ódio em nossa paisagem mental. É importante saber quais são os antídotos que correspondem a cada uma de suas emoções negativas.”

Há quem diga que a felicidade é uma sucessão de pequenos prazeres. Mas Ricard ressalta que “o prazer é uma experiência fugaz – depende de circunstâncias exteriores, de um momento ou lugar específico. Quase sempre está ligado a uma ação”. Ele lembra que algumas pessoas sentem prazer até em se vingar e em torturar os outros. “A felicidade autêntica não está ligada a uma atividade. É um estado de ser, um profundo equilíbrio emocional.” Ricard argumenta que não existe razão para não buscarmos sensações agradáveis, sejam elas relacionadas com a natureza, com a arte ou ao lado de pessoas queridas. “Os prazeres tornam-se obstáculos somente quando perturbam o equilíbrio da mente e nos levam à obsessão por gratificações. O prazer não é inimigo da felicidade. Se é vivido num estado de paz interior e liberdade, o prazer adorna a felicidade, sem obscurecê-la”, afirma.

Retratos da felicidade budista (da esquerda para a direita): a paz de espírito de um noviço do monastério Taktsang, no Butão; a alegria de uma birmanesa no santuário da Rocha Dourada em Kyaikhtiyo, Mianmar; o sorriso franco de um jovem religioso do mosteiro Hemis, no Ladakh; a introspecção de um monge em prece no templo Jokhang, no Ladakh. Seus dedos entrelaçados formam um gesto sagrado, um mudra

Meu diálogo com Ricard estende-se por mais tempo do que eu esperava. Apesar de ele não demonstrar nenhum estresse com os preparativos de sua viagem, meu desconfiômetro avisa que devo encerrar a entrevista. Ele reconhece a gentileza e, generoso, oferece, em formato eletrônico, os originais em francês de seus dois livros mais célebres. Na saída de seu escritório, encontramos um casal de budistas franceses. Eles perguntam qual deve ser a postura em relação à China e ao Tibete. “Conversem com amigos, discutam o tema e falem com seus deputados. É importante informar a todos sobre o genocídio cultural que acontece no Tibete”, responde.

Saio do escritório de Ricard e ouço toques de tambores. Atraído pelo som, chego ao templo principal de Shechen. Alguns monges, visivelmente atrasados para o ritual, retiram suas sandálias e sobem a escadaria com agilidade. A enorme porta decorada está aberta. Sinto-me convidado. Depois de conversar com Ricard sobre as vantagens de desenvolver uma mente mais sadia, em harmonia com o mundo e consigo mesmo, não hesito em entrar no templo. Encontro uma almofada e sento para meditar. Deixo que os mantras embalem minha mente. Tomo consciência de onde estou. Agradeço o presente e lembro-me daquele spam que me inspirou a encontrar um ser humano tão notável como Matthieu Ricard. Talvez ele não seja o “homem mais feliz do mundo”, mas está fazendo sua parte para ajudar outras pessoas a serem mais felizes.

Haroldo Castro tem mais de 30 anos de experiência como fotógrafo, repórter, diretor de documentários e estrategista de comunicação. Conhece mais de 130 países e morou no Brasil, na França e nos EUA. Encontre um link para seu blog, o ótimo Viajologia, em www.galileu.globo.com

FONTE: http://revistagalileu.globo.com/Revista/Galileu/0,,EDR84137-7943,00.html

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Os genes de Deus

Publicado por educaçãoevida em Agosto 27, 2008

Edição 166 – Mai/05

ômica Studio

Crescimento de 7,5% ao ano das igrejas evangélicas brasileiras, um milhão de católicos presentes ao velório do papa João Paulo II no Vaticano, conversões em massa, na Índia, ao hinduísmo: o que esses eventos têm em comum? Dizer “Deus” é apostar em uma resposta arriscada. Se existe um deus, ou vários, ou não, é um dado que a ciência ainda não é capaz de provar, talvez nunca seja. Mas por que cremos é algo que já pode ser mais bem compreendido. E trabalhos recentes afirmam que as bases da fé estão nos nossos instintos primitivos, como a nossa tendência natural a comer mais do que precisamos, nossa preferência por parceiros fortes e saudáveis para a reprodução e a nossa capacidade de ser feliz (ou a falta dela).

Até um quarto de século atrás, os cientistas acreditavam que o comportamento religioso era produto da socialização ou da educação recebida em casa. Não é o que diz a pesquisa de Laura Koenig, psicóloga americana da Universidade de Minnesota, que acaba de divulgar o resultado de seus estudos com gêmeos. Em seu relatório, Koenig atribui ao DNA cerca de 40% de participação no nível de religiosidade de uma pessoa. É um número que impressiona. Para se ter uma comparação, sabe-se que os genes são responsáveis por 27% dos casos de câncer de mama, por exemplo.

Mais de 250 pares de gêmeos, idênticos e não-idênticos, responderam a perguntas sobre a freqüência de serviços religiosos, orações e discussões teológicas em suas vidas. Dados sobre pais e outros irmãos também foram coletados. Conclusão: quando eram mais novos e conviviam mais com outros membros da família, todos tendiam a ter um nível de espiritualidade semelhante, demonstrando forte influência do ambiente na decisão; na idade adulta, somente os univitelinos (que têm carga genética 100% igual) continuavam compartilhando os mesmos índices. “Quando os filhos saem de casa e entram na universidade ou no trabalho, a interferência dos pais começa a enfraquecer”, diz a pesquisadora. “Nesse ponto, temos de tomar as nossas próprias decisões e a biologia passa a falar mais alto.” Em suma: sejamos crentes ou céticos, a “culpa”, em grande parte, é da nossa genética.

A idéia de um “gene de Deus” refere-se ao componente inato do homem para a espiritualidade. Não significa que exista um gene que faça com que as pessoas acreditem em Deus, e sim que a predisposição a ser espiritual (seja seguir preceitos religiosos fechados, acreditar na existência de um ser superior ou buscar uma origem esotérica para o mundo) é herdada por nós geneticamente.

O trabalho de Koenig não é o primeiro a fazer essa proposição. Ano passado, Dean Hamer publicou “The God Gene”, livro em que explica como a fé está fortemente conectada ao nosso DNA. Chefe do laboratório de bioquímica do Instituto Nacional do Câncer dos EUA, Hamer foi ainda mais longe e deu nome aos bois. Ele afirma que pelo menos um gene específico é responsável pelo controle das substâncias envolvidas na emoção e na consciência religiosas.

A cara da sua fé

Os genes moldam nossa propensão para a espiritualidade, mas a religião que adotamos é decidida pelo meio. As pesquisas com os chamados “genes de Deus” contemplam essa característica: não importa qual a fé da pessoa avaliada, as chances de pontuações altas e baixas nas escalas são as mesmas.

É possível, porém, que a hereditariedade se manifeste de forma diversa em diferentes culturas e tradições. Seguidores de religiões mais rigorosas podem ser mais influenciados pela genética do que seitas mais liberais, ou vice-versa. Ainda faltam estudos que analisem a questão. O que várias pesquisas demonstram é que, na maioria dos casos, o ambiente de criação é a influência mais forte, não apenas pela óbvia facilidade de se freqüentar a mesma comunidade espiritual dos pais, mas também pelos valores que aprendemos como corretos.

Fortes porque crêem
É preciso ter cautela aqui. O VMAT2, como é chamado o gene, pode ser importante, mas certamente não responde sozinho pelo funcionamento de algo tão complexo. “Não há um gene para a religiosidade”, diz Laura Koenig. “O efeito genético está relacionado, na verdade, aos genes que influenciam a personalidade. É isso que faz com que algumas pessoas sejam mais propensas a acreditar em religiões do que outras.”

Se a religiosidade está mesmo sob influência da genética, fica implícito que esse traço foi selecionado durante o processo evolutivo. O que nos leva a crer que, provavelmente, trouxe vantagens adaptativas para os primeiros crentes. Algumas descobertas sugerem quais podem ter sido. Sabe-se que a espiritualidade já foi associada, por exemplo, com o comportamento altruísta, e a falta dela com índices maiores de criminalidade. No plano físico, estudos demonstram que o otimismo promovido pela fé está relacionado a uma saúde mais forte, avaliada pela menor incidência de derrames e enfermidades cardíacas. As taxas de abuso de drogas, alcoolismo, divórcio e suicídio são muito mais baixas entre os religiosos, que também sofrem menos de depressão e ansiedade do que a população em geral, e quando sofrem se recuperam mais rápido. Com certeza, traços que ajudaram nossos antepassados a viver mais.

Hamer admite que há provavelmente dezenas de outros genes, ainda por serem identificados, que desempenham papéis na capacidade de ser religioso. Mas a origem genética, insiste, é inegável. Para ele, só uma inclinação biológica para a espiritualidade poderia explicar o número cada vez maior de adeptos de seitas não-tradicionais e a presença de centenas de religiões no mundo inteiro.

Os crentes do mundo
A predominância de determinadas religiões por região mostra a influência do meio
Cristianismo
Maioria Católica Maioria Protestante Maioria Ortodoxa
Islamismo
Sunita Xiita
Religiões tradicionais chinesas Religiões tradicionais tribais Religiões tradicionais e cristianismo Religiões tradicionais, cristianismo e islamismo
Hinduísmo Judaísmo Budismo Xintoísmo e budismo

De fato, a religiosidade faz parte da experiência humana desde sempre. Mais de 30 mil anos atrás, nossos ancestrais já pintavam em suas cavernas imagens de sacerdotes e feiticeiros. Ao longo dos tempos, as fés institucionalizadas e tribais se espalharam de tal forma que não há lugar algum no globo que escape das estatísticas.

Só que o conceito da espiritualidade inata está longe de ser consenso. A própria psicologia bate o pé contra isso. Mesmo reconhecendo que os genes possam ser dominantes sobre o comportamento, o papel do ambiente não deixa de ser importante. A pesquisadora da Universidade de Minnesota ressalta esse ponto. “Influências do meio continuam tendo alto impacto sobre a religiosidade. Os indivíduos de uma determinada cultura podem ser extremamente observantes por razões culturais, as pequenas variações no nível de religiosidade entre eles é que se explicam pela genética”, explica Koenig.

Essa força universal também foi explicada por outra área do conhecimento, a psicologia analítica, introduzida pelo psiquiatra suíço Carl Jung (1875-1961). Segundo sua teoria dos arquétipos (conteúdos simbólicos da mente, compartilhados por toda a humanidade), a busca por Deus – ou pela plenitude, ou por si mesmo – é um elemento básico da psique humana.

Por dentro do cérebro que crê
Como a meditação e as orações mexem com a nossa estrutura interna
Lobo Frontal – É a parte mais desenvolvida do cérebro, responsável pela concentração, pelas emoções e pela autoconsciência. Atividade fica acelerada
Tálamo – O controlador dos nossos sentidos, esse órgão foca a nossa atenção pela forma como armazenar informações coletadas. A meditação reduz o fluxo de sinais
Lobo Parietal – Região que processa informações sensoriais sobre o mundo ao redor, orientando-nos no tempo e no espaço. Atividade fica reduzida
Formação Reticular – Como sentinela do cérebro, essa estrutura recebe os estímulos que chegam e nos põem em alerta. Estados alterados de consciência o amortizam

Experiência universal
Em termos religiosos e espirituais, é como se a necessidade de encontrar um sentido místico para a vida estivesse impressa na nossa alma. Pessoas que não são capazes de crer estariam desconectadas dessa necessidade primordial.

Enquanto as ciências humanas explicam a fé como um processo cognitivo, a abordagem neurológica vai em outra direção. Andrew Newberg, da Universidade da Pensilvânia, decidiu olhar para os rastros da espiritualidade no cérebro. Usando imageamento cerebral, ele pôde ver de perto o que acontece quando alguém medita ou reza. Medindo o fluxo da corrente sanguínea dos voluntários, avaliou que áreas eram responsáveis pela sensação de transcendência.

Quanto mais fundo as pessoas vão na prática, descobriu Newberg, mais ativos ficam o lobo frontal e o sistema límbico. O primeiro é onde se localiza nossa capacidade de concentração e atenção; o segundo é onde sentimentos poderosos, inclusive o êxtase religioso, são processados. Ao mesmo tempo, a região que controla nossas noções de tempo e espaço fica entorpecida. A combinação desses efeitos é uma experiência espiritual riquíssima. “Deus não é resultado de um processo de raciocínio”, diz o neurocientista. “Ele foi descoberto misticamente, pelo próprio maquinário cerebral. O homem não inventou Deus, o experimentou.”

Estágios da fé
Genes à parte, a espiritualidade não tem um botão que pode ser ligado e desligado, e uma tendência a crer não significa garantia de vida religiosa estável feliz. De acordo com o professor de teologia James Fowler, o desenvolvimento dessa área da vida segue o padrão de qualquer outro processo psicológico humano, ou seja, acontece por fases. A jornada religiosa completa começaria na infância, a partir de um estágio em que vemos o mundo como mágico, e seguiria até uma sexta etapa, em que o crente é um místico capaz de experimentar um profundo senso de unidade com o universo.

E Deus nessa história?
A maioria dos teólogos recusa-se a aceitar que a experiência de Deus seja reduzida a reações químicas no cérebro. Em geral, as religiões preferem a idéia de uma revelação vinda “de cima”. Para a ciência, a comprovação de uma origem genética para a fé e o mapeamento da crença no cérebro não dizem nada sobre a existência de Deus. As pesquisas apenas explicam por que há diferentes graus de envolvimento religioso entre as pessoas e que tipo de elevação provam aqueles que crêem.

Mas tudo isso pode, ainda, ser invenção de Deus. Há quem defenda até que os genes façam parte do sofisticado projeto divino para a humanidade. Enquanto as origens e os efeitos da religiosidade podem ser medidos pela ciência, a existência de Deus, só pela fé. Mas isso não significa ter de mantê-las separadas. Como bem apontou Albert Einstein, a ciência sem religião é manca e a religião sem ciência é cega.

Para ler
• “The God Gene”, Dean Hamer. Doubleday. 2004
• “Why God Won’t Go Away”, Andrew Newberg. Ballantine. 2002
• “Religion Explained”, Pascal Boyer. Basic Books. 2001

#Q:Teste – Quanto você crê?:#

Para saber a quantas anda a sua espiritualidade, responda às perguntas abaixo. Atribua um ponto para cada item verdadeiro.
  1. Com freqüência me sinto tão conectado às pessoas à minha volta que é como se não houvesse separação entre nós
  2. Com freqüência faço coisas para proteger plantas e animais da extinção
  3. Sou fascinado pelas muitas coisas da vida que não podem ser explicadas cientificamente
  4. Muitas vezes, quando relaxado, tenho “estalos” ou flashes inesperados de entendimento
  5. Às vezes me sinto tão conectado à natureza que tudo parece ser parte de um só organismo vivo
  6. Pareço ter um “sexto sentido” que às vezes me permite saber o que está para acontecer
  7. Algumas vezes senti como se eu fosse parte de algo sem limites de tempo e de espaço
  8. Com freqüência sou chamado de distraído porque me envolvo tanto no que estou fazendo que me desligo de todo o resto
  9. Com freqüência sinto um forte senso de unidade com todas as coisas ao meu redor
  10. Mesmo depois de pensar muito sobre algo, aprendi a confiar mais em meus sentimentos do que em minha razão
  11. Com freqüência sinto uma forte conexão espiritual ou emocional com todas as pessoas à minha volta
  12. Normalmente, quando estou concentrado em algo, perco a noção da passagem do tempo
  13. Já fiz sacrifícios pessoais reais para tornar o mundo um lugar melhor, como tentar prevenir guerras, pobreza e injustiça
  14. Tive experiências que tornaram tão clara minha missão na vida que me senti feliz e empolgado
  15. Creio já ter vivenciado percepção extra-sensorial
  16. Já vivi momentos de intensa alegria em que tive repentinamente uma clara e profunda sensação de unidade com tudo o que exista
  17. Com freqüência, quando olho para uma coisa comum, algo extraordinário acontece: tenho a sensação de a estar vendo pela primeira vez
  18. Gosto tanto de observar as flores brotando na primavera quanto de rever um velho amigo
  19. Muitas vezes as pessoas pensam que vivo “em outro mundo” porque sou completamente desligado das coisas ao meu redor
  20. Eu acredito que milagres acontecem
* Adaptado do inventário de personalidade criado pelo psiquiatra Robert Cloninger, da Universidade Washington, autor de “Feeling Good: The Science of Well-Being” (“Estar Bem: A Ciência do Bem-Estar”, sem tradução para o português)
Resultados
Acima de 14 pontos: Altamente espiritualizado, um verdadeiro místico
12 a 13 pontos: Bastante espiritualizado, às vezes se perde no momento
8 a 11 pontos: Espiritualidade na média; pode desenvolver melhor se desejar
6 a 7 pontos: Prático-empiricista, sem experiência transcendental
1 a 5 pontos: Altamente cético, resistente ao desenvolvimento da fé

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FONTE: http://revistagalileu.globo.com/Galileu/0,6993,ECT954012-2989-3,00.html

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Corpo

Publicado por educaçãoevida em Agosto 27, 2008

Do barateamento das cirurgias plásticas a novas formas de diagnóstico da saúde fetal, a ciência nunca foi tão longe na hora de nos proporcionar longevidade, beleza e bem-estar

AUXÍLIO-DOENÇA

1>>>{Você decide}
Hoje dá para escolher como ser tratado, pois os planos privados ou postos de saúde agora também cobrem terapias (até hoje chamadas de) alternativas. Todas são mais indicadas como auxiliares do tratamento convencional, mas são uma ajuda e tanto em certos casos. Veja algumas e suas indicações:

2>>>Acupuntura
Dores, estresse, ansiedade

3>>>Homeopatia
Inflamações, alergias, problemas respiratórios

4>>>Ortomolecular
Insônia, depressão, obesidade, problemas do sistema linfático

5>>>RPG
Dores crônicas no corpo

6>>>Meditação
Estresse, fadiga, enxaquecas, dores musculares

7>>>{A aprovação da proveta}
A fertilização in vitro já não é caso de manchete nos cadernos de ciência dos jornais. E muitos casais podem ser pais superando obstáculos do organismo. No Brasil, cerca de 12 mil procedimentos são feitos a cada ano

8>>>{Fogo amigo}
Há uma milícia formada contra os antibióticos, mas é fato que, sem eles, doenças arrasariam a sociedade. E aquela singela garganta infeccionada poderia dar cabo da sua vida

9>>>{Reação em cadeia}
No último mês de janeiro, mais um condenado pela justiça norte-americana foi libertado graças a um exame de DNA, que comprovou sua inocência em um caso de estupro há 27 anos. Bom viver num tempo em que a ciência está do lado dos inocentes…

10>>>{A hora dos genéricos}
Não é espetacular poder adquirir o mesmo tipo de medicamento de marca receitado pelo médico pagando apenas 30% do valor? Difícil não concordar em grau, número e gênero

11>>>{Bisturi popular}
O custo para ajustar um nariz mal diagramado caiu 50% nos últimos 20 anos e hoje está em torno de R$ 6.000. E esse é só um exemplo dos tratamentos estéticos que deixaram de custar os olhos da cara

OS AVANÇOS NA SAÚDE SEGUNDO OS MÉDICOS

12>>>…Coquetel antiAIDS simplificado

13>>>…Aceitação da Síndrome de Down

14>>>…Temos mais informações sobre as conseqüências do cigarro

15>>>…Cirurgia contra a obesidade

16>>>…Câncer não é morte certa

17>>>…Epidemias controladas

18>>>…Dieta carnívora não é vilã

19>>>{Eu não nasci de óculos}
Cerca de 72 mil cirurgias oculares são realizadas todos os anos no Brasil. É um recorde de pessoas que, em míseros minutos, dão adeus ao apelido de “fundo de garrafa”

20>>>{Vida longa}
Temos mais tempo, em média, para curtir a existência

EXPECTATIVA DE VIDA DOS BRASILEIROS

1960

56 anos

2007

72 anos

21>>>{Conserto de órgão}
Pensou em próteses, pensou em seios siliconados? Não apenas isso. Hoje o homem pode contar com braços e pernas implantados mais leves, de melhor movimento e com menor rejeição. No Laboratório de Biocibernética e Engenharia de Reabilitação, da Universidade de São Paulo em São Carlos, uma mão vem sendo desenvolvida para captar sinais elétricos do paciente e responder imediatamente aos comandos

TÁ NA CARA

22>>>{Belezura}
Quando compra um tubinho de hidratante, agora, o indivíduo leva também uma dose de nanotecnologia junto. Os novos cosméticos contam com a pesquisa dessa área para desenvolver produtos que eliminam, por exemplo, linhas de expressão. Além disso, as garotas têm armas de encanto poderosas à sua disposição, como…

23>>>… batom com hidratante, que não apenas dá cor aos lábios, mas os protegem

24>>>… uso de produtos naturais, como babaçu e pequi, e originários aqui mesmo do Brasil

25>>>… ação do botox em cremes, sem o uso das dolorosas agulhas

26>>>{Antes do tempo}
A obstetrícia desenvolveu formas de manter vivos bebês nascidos em até cinco meses de gestação. Com novas incubadoras e aparelhos, o sistema respiratório dos prematuros (ainda não inteiramente formado nas 20 semanas de gestação) pode ser auxiliado a funcionar até que a criança o desenvolva

NUMA RELAX

27>>>{Pegando leve}
Suar em bicas na ergométrica é coisa do passado. Agora a onda são os exercícios relaxantes e sem impacto, como:

28>>>… o pilates para alongamento

29>>>…o tai-chi-chuan, um aliado da boa postura e do poder de concentração

30>>>…a ioga desestressante

EM PAZ COM O DIVÃ

31>>>{O que era “loucura” virou normal}
Contar que se está fazendo terapia já não é pedir para ser chamado de pinel. O auto-conhecimento é respeitado hoje, assim como os vários empregos da psicologia

32>>>{Sem medo de dizer o nome}
Pesquisadores não confirmam se antigamente as pessoas sofriam menos de depressão ou se a doença apenas não era comentada e tratada. O fato é que, hoje, medicamentos específicos diminuem o sofrimento de quem sofre desse mal

33>>>{Cirurgias}
E pensar que, até o início dos anos 1980, não havia ultra-som na gravidez. Quando muito, tirava-se um raio-X no final da gestação para checar alguma questão mais grave. Com exames mais precisos, os tratamentos ficaram muito mais eficazes

34>>>{Regeneração}
As pesquisas com células-tronco abrem novos horizontes para a medicina regenerativa. E as polêmicas que o assunto levanta são imensamente positivas também, pois convida a sociedade para debater sobre ética e futuro

AJUDA QUE VEM DE CIMA

35>>>{O astro reina}
O sol perdeu sua aura de vilania! Pesquisas recentes mostram que se expor a ele é essencial, pois…

36>>>…sintetiza vitaminas, principalmente D, que auxilia na captação de cálcio para os ossos

37>>>…com os filtros modernos, é contida a ação maléfica dos raios ultravioleta

38>>>…estimula o bom humor

39>>>…tem efeito relaxante – e, com moderação, rende um lindo tom à pele

FONTE: http://revistagalileu.globo.com/Revista/Galileu/0,,EDG81842-7943,00.html

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O que é realidade?

Publicado por educaçãoevida em Agosto 27, 2008

Nossos cinco sentidos são fundamentais para que saibamos distinguir o real do virtual. mas as drogas e a tecnologia têm o poder de mudar essa história

Marcelo Gleiser

“A separação entre mente e corpo, que vem preocupando filósofos há milênios, é cada vez menos óbvia”

Como definir o que é realidade? Como distinguir o real do virtual, o existente da fantasia? “Fácil”, diria o leitor, “basta abrir os olhos, que fica óbvio o que é real e o que não é.” Será que a coisa é assim tão simples? Para começar, vamos pensar um pouco sobre como percebemos a realidade à nossa volta. Tudo começa, como afirmou o leitor, com o olhar. Melhor ainda, tudo começa com os cinco sentidos, que trazem ao cérebro a informação do que existe à nossa volta: você está lendo esta revista, pegando nela, sentado numa cadeira, ouvindo uma buzina ao longe, ou uma música, ou o cachorro chato do vizinho. Tudo isso é informação que vem de fora para dentro, do mundo para o nosso cérebro. Nele, essa informação é integrada e orquestrada para representar o que chamamos de realidade. Nossa percepção do real é criada pelo cérebro, resultado da integração da informação colhida pelos nossos sentidos.

E se o cérebro falhar? Existem inúmeras doenças neurológicas e psiquiátricas que distorcem o processamento de informação pelo cérebro. Por exemplo, pessoas que sofrem de esquizofrenia ou distúrbios psicóticos podem ouvir vozes em suas cabeças. Outros distúrbios neurológicos podem fazer com que pessoas possam ver palavras ou ouvir música a cores. Mesmo a depressão, que aflige milhões de pessoas, é uma distorção da percepção da realidade e seu impacto emocional. Drogas psicotrópicas tentam restabelecer o balanço químico do cérebro, de forma a restaurar o senso normal de realidade, seja lá como esse normal for definido. Outras, como o LSD ou a heroína, fazem o oposto, criando distorções tão poderosas na percepção da realidade a ponto de emocionar profundamente os seus usuários. Até droga supostamente sexual já foi inventada, o famoso ecstasy. É irônico que a origem do termo êxtase venha, aparentemente, dos filósofos pitagóricos da Grécia Antiga. Para eles, o estado de êxtase era atingido após meditação profunda, quando o filósofo finalmente compreendia a harmornia matemática do mundo e ouvia a música das esferas ecoando pelo Cosmo. Uma viagem muito diferente…

A separação entre mente e corpo, que vem preocupando filósofos há milênios, é cada vez menos óbvia. Da mesma forma que processos químicos regem nossa digestão, outros tantos regem o funcionamento do cérebro. São 100 bilhões de neurônios (mais ou menos o número de estrelas na Via Láctea, uma coincidência um tanto poética), interligados por trilhões de sinapses. Imagine a teia de informação que é o nosso cérebro, cada neurônio uma lâmpada numa gigantesca árvore de Natal, piscando quando ativada por uma corrente elétrica; uma galáxia dentro de nossas cabeças, imagem digna de uma “viagem” de LSD.

É nessa interface entre o biológico e o elétrico que encontramos a nova fronteira do real. Com o desenvolvimento de microchips cada vez menores e mais poderosos, surge uma nova medicina, e implantes biônicos deixam de ser coisa de ficção científica. Quando esses implantes são efetuados no cérebro, têm o potencial de não só melhorar nossa visão como, também, criar distorções da realidade. O game virtual do futuro será jogado dentro da cabeça, sem necessidade de usarmos os cinco sentidos: todos os estímulos serão efetuados diretamente no cérebro, sem intemerdiários. Levando essa idéia ao extremo, posso imaginar um futuro em que nem precisaremos mais ir à praia ou sair de férias: basta rodarmos o programa certo no cérebro e estaremos lá sem deixar nossa casa. A realidade virtual torna-se real, a distinção cada vez mais indistinguível.

Mas espere aí… já vi esse filme! Chama-se “Matrix”, claro, no qual humanos que vivem em casulos imaginam ter vidas normais, amando, chorando, viajando e jogando futebol. Será que chegaremos a esse ponto? Em termos tecnológicos, acho que é apenas uma questão de tempo. Por outro lado, a idéia me aterroriza. É difícil imaginar não tocar a pessoa amada e, mesmo assim, tocá-la, ou não mergulhar num mar azul cristal, cheio de peixes tropicais e, mesmo assim, mergulhar. Somos, ainda, prisioneiros dos prazeres sensuais, dos nossos corpos. É difícil prever se algum dia chegaremos a deixá-los inteiramente de lado e viver uma vida construída artificialmente na mente. No meio tempo, vale celebrar a realidade, aquela que nosso cérebro constrói usando os cinco sentidos.

Marcelo Gleiser, de 48 anos, é professor do Dartmouth College, nos Estados Unidos, e autor de cinco livros sobre ciência e conhecimento

FONTE: http://revistagalileu.globo.com/Revista/Galileu/0,,EDG80797-8076-198,00-O+QUE+E+REALIDADE.html

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NEUROCIÊNCIA – Falha nossa

Publicado por educaçãoevida em Agosto 27, 2008

Não tenha dúvidas: a supermáquina que carregamos em nossas caixas cranianas é muito mais poderosa que qualquer computador. O problema é que ela também vive dando pau. Saiba o que a ciência pode fazer para impedir erros humanos e novas catástrofes.

Flávia Pegorin e Pablo Nogueira

Imagine uma máquina com capacidade de processamento de 100 milhões de megabytes, um supercomputador. Pronto, pode parar de imaginar. Essa máquina existe e está dentro da sua cabeça. Com 100 bilhões de neurônios e 100 mil quilômetros de conexões, nosso cérebro tem uma sofisticação que é a meta dos gênios que produzem softwares no Vale do Silício. Agora, volte a imaginar: se máquinas bem menos potentes vivem dando pau, principalmente se submetidas a condições extremas ou sobrecargas, calcule o que pode ocorrer no interior da sua caixa craniana. É aí que reside — ao lado da preguiça, desinteresse, desatenção ou pura má-fé — o motivador de um dos mais desgastados clichês: errar é humano. Isso é inegável, mas há erros e erros, e um dos maiores é superestimar a resistência e a capacidade do nosso cérebro. Isso abre espaço a falhas que podem levar a episódios como os exibidos ao longo desta reportagem. Parte da solução para evitar que elas voltem a ocorrer está nesse supercomputador dentro da nossa cabeça.

PONTE EM MINNEAPOLIS

ESTRUTURA OBSOLETA Essa ponte de metal que cruzava o rio Mississippi, em Minneapolis, caiu na noite de 1º de agosto deste ano. Pelo menos sete pessoas morreram quando cerca de 50 carros caíram no rio ou se misturaram aos escombros 19 metros abaixo do nível da ponte. O acidente deixou mais de 80 feridos. Vai demorar um tempo para saber o que, exatamente, fez a ponte ruir. Construída em 1967, ela se assentava sobre um arco estrutural de metal. Seu desenho não é mais usado há décadas, porque uma única falha pode fazer com que a ponte inteira venha a baixo. Ela foi classificada como “estruturalmente deficiente”, condição que afeta 11% das pontes de metal do país. Por conta disso, ela passava por inspeções anuais desde 1993. No ano passado, sua estrutura foi classificada como em “condição ruim”. Está longe de ser a pior categoria. Numa escala que vai de zero a nove, recebeu nota quatro. Um zero acarretaria o fechamento da ponte. A famosa ponte do Brooklyn, em Nova York, também tem sua estrutura classificada como em “condição ruim”.

Alguns fatos colaboram para incentivar o raciocínio de que os nossos miolos tudo podem. Nos últimos 2 milhões de anos, o cérebro humano triplicou sua capacidade de, digamos, processamento. O incremento veio principalmente no neocórtex, a porção cerebral mais evoluída e que nos faz pensar, aprender, planejar e tomar decisões. Quanto maior o cérebro se torna, mais espertos ficamos, dizem os especialistas. Foi esse crescimento que permitiu ao homem usar ferramentas, desenvolver a linguagem, promover a interação social e constituir civilizações. Apesar de ter possibilitado todos esses avanços, os cérebros humanos precisam de descanso para funcionar na plenitude e com menos risco de provocar acidentes.

“Apesar de essa máquina aperfeiçoada dar ligação à nossa vida, ela também tem limites”, diz o professor Michel Hofman, do Instituto Holandês de Pesquisa Cerebral. “Apesar de tomar apenas 2% do nosso peso corporal, o cérebro utiliza entre 20% e 25% da energia que criamos. Quando o organismo fica cansado, naturalmente o cérebro piora sua performance. Errar, a partir daí, se torna fácil.”

CHERNOBYL

FALHA TÉCNICA Na madrugada de 26 de abril de 1986, os técnicos do reator quatro da usina de Chernobyl, na Ucrânia, cometeram um erro fatal. Em vez de desligá-lo, depois de horas de atividade, eles aceleraram o processo que faz os átomos de urânio se partirem para liberar energia. Superaquecido, o reator explodiu. Uma nuvem de partículas radioativas se espalhou pelo norte da Ucrânia, o sul da Bielo-Rússia e a região russa de Bryansk. A contabilidade oficial do governo da União Soviética apontou 31 mortos logo depois do vazamento na usina ucraniana. Fontes independentes calculam que, ao longo dos anos, de 7 mil a 10 mil pessoas tenham perdido a vida.

Basicamente, a falha humana pode vir da fadiga, da falta de sono, da opção por fazer tarefas demais ao mesmo tempo e do mau uso das regras para tornar uma atividade segura. Mas determinar a partir de qual momento corpo e mente entram em declínio é mais complicado. Cada indivíduo possui uma tolerância maior ou menor ao cansaço. Mas sabe-se que, a partir de certo ponto, a tendência de cometer erros aumenta para todos, indiscriminadamente.

Um estudo realizado pela Universidade de Stanford, nos EUA, submeteu indivíduos que não dormiam havia 19 horas a testes de atenção. Nas provas físicas e intelectuais, constatou-se que eles cometeram mais erros do que pessoas com 0,8 g de álcool no sangue, taxa equivalente à proporcionada por três doses de uísque puro. Ou seja, na hora de induzir ao erro, uma noite de sono mal dormida pode ser mais eficaz do que uma bebedeira.

PLATAFORMA P-36

FALTA DE COMANDO A plataforma petrolífera P-36, localizada na Bacia de Campos, litoral do Rio de Janeiro, era a maior do mundo. Em 15 de março de 2001, afundou no mar devido a três explosões em uma de suas colunas. Onze trabalhadores da Petrobras morreram. Erros de projeto e manutenção da P-36 foram as causas da tragédia, mas um dos relatórios culpa também a falta de comando. Segundo ele, o turno de 14 dias de trabalho de uma das equipes da P-36 estava chegando ao fim. Os petroleiros que estavam na plataforma teriam deixado um reparo no sistema de ventilação por conta da turma que estava entrando, pois, se começassem o trabalho, teriam de ficar até o fim, o que atrasaria a volta para casa. Nesse meio tempo, aconteceram as explosões justamente nesse sistema.

A mesma pesquisa avaliou tomografias computadorizadas do cérebro desses jovens privados de sono. Elas mostraram uma redução do metabolismo — nas regiões responsáveis pela capacidade de planejar e executar tarefas — e no cerebelo, órgão responsável pela coordenação motora. O processo de fadiga mental e corporal obviamente levou os voluntários do estudo a terem dificuldades na capacidade de acumular conhecimento e, além disso, demonstrou alterações de humor, comprometimento da criatividade, da atenção, da memória e do equilíbrio.

Segundo Márcio Mancini, doutor em endocrinologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, a necessidade de determinado tempo de descanso é uma característica de cada indivíduo, mas a média da população adulta precisa de 7 a 8 horas de sono por dia. Treinar a mente para dormir menos, a fim de ganhar “horas úteis”, não é uma opção muito saudável, mesmo que tenha sido apenas por uma noite.“ Basta um dia sem dormir para que o cérebro sinta a perda de concentração. E essas horas de sono a menos podem comprometer a saúde em vários níveis. Talvez a pessoa só sinta isso passados muitos anos, mas o fato é que certos hormônios têm papel vital no funcionamento do organismo, como no crescimento, e eles são liberados no momento do sono”, afirma Mancini.

CHALLENGER

NINGUÉM AVISOU? A explosão do ônibus espacial Challenger em 1986, pouco depois do seu lançamento em Cabo Canaveral, aconteceu devido a um problema nos anéis de borracha que faziam a vedação das juntas de um dos foguetes. Exposta a um frio com temperaturas próximas de zero grau, para o qual não fora projetada, a borracha perdeu a capacidade de se dilatar, o que iniciou o processo que levou à explosão. Os construtores do equipamento avisaram a Nasa do risco de mau funcionamento. Antes do lançamento, técnicos da agência constataram que a temperatura dos anéis estava bem abaixo do mínimo permitido, mas o fato não foi comunicado aos diretores da Nasa.

Ficar mais de 15 horas na ativa pode parecer exagero para alguns, mas é uma rotina para outros. Motoristas de caminhão, por exemplo, chegam a fazer turnos de 20 horas ao volante. O uso de anfetaminas (drogas estimulantes) torna-se comum entre muitos deles. Rogério M., caminhoneiro há 12 anos, diz que os curtos prazos de entrega das cargas é que o fazem trabalhar até 18 horas diárias. “Já tive muitos sustos. O pior que já me aconteceu foi ter saído da pista em uma estrada em Minas Gerais, mas por sorte a carreta freou a tempo, atingiu só uma placa de sinalização. Estava guiando havia três dias e parando apenas para comer e tirar um sono de duas, três horas.”

JADE BARBOSA

PRESSÃO EXTERNA No dia 14 de julho deste ano, 12 mil pessoas torciam por Jade Barbosa, 16 anos, que liderava a disputa individual geral na ginástica artística do Pan- Americano Rio 2007. Nas barras assimétricas, um erro derrubou Jade da primeira para a quarta colocação. Talvez pela falta de experiência, os gritos de estímulo do público intensificaram seu nervosismo, conforme admitiu a atleta. No dia seguinte, mais confiante, Jade se recuperou e conquistou o ouro no salto sobre o cavalo.

O motorista prefere não se identificar, pois trabalha em uma renomada companhia de entregas de alcance nacional, e o limite de trabalho não é nem sequer discutido ali. Quando o assunto são essas longas jornadas de trabalho, aliás, outra categoria que prefere se manifestar anonimamente é a dos controladores de vôo.

O sindicato nacional da categoria diz que hoje eles estão divididos mais ou menos pela metade: 50% de controladores civis e 50% de militares. Com um salário médio de R$ 1.600 mais adicionais, 90% dos controladores civis têm um segundo emprego. Os militares não se dão melhor: precisam cumprir outras obrigações da carreira e também têm um tempo reduzido de descanso. Pode não ter sido a única razão, mas essa situação foi escancarada cerca de um ano atrás, durante o então acidente mais grave já ocorrido no Brasil, a queda do vôo 1907 da Gol Linhas Aéreas em uma fazenda em Mato Grosso. De lá para cá, a situação não mudou muito, pois, em julho deste ano, com o novo recordista de mortes, o vôo 3054 da TAM, o problema voltou a ser levantado.

EXPEDIÇÃO SCOTT

PLANO MALFEITO “Se sobreviver, terei uma lenda para contar sobre a bravura, a força e a coragem dos meus companheiros.” Era assim que começava o diário do capitão Robert Falcon Scott (1868- 1912), que documenta o período em que ele usou sua brilhante carreira na marinha para tentar ser o primeiro homem a alcançar o Pólo Sul. O britânico perdeu a competição para o rival norueguês Roald Amundsen, que chegou ao pólo 35 dias antes de Scott (no centro na foto acima). O capitão morreu com os outros membros de sua equipe. Muitas críticas foram feitas à organização da viagem, como a decisão de Scott de usar pôneis siberianos em vez de cães e trenó.

No caso dos controladores, a falta de descanso não é o único gerador de falhas em potencial. Orientações da Organização da Aviação Civil Internacional dão conta de que um controlador não deve ter mais de seis aviões na tela do radar sob sua responsabilidade. Porém, em horários de pico, há relatos de que esse número chegue a 15 nos principais aeroportos brasileiros.

Um psicólogo da Universidade Vanderbilt, em Nashville (EUA), estuda essa capacidade (ou falta dela) de fazer atividades simultâneas e a possibilidade de isso influir no erro. René Marois afirma que prestar atenção em uma única tarefa de cada vez seria o mais eficaz método antifalha. “O problema é que nosso ritmo de vida é cada dia mais agitado. Não é incomum ver um motorista fazer uma curva, trocar a estação do rádio, falar ao celular e desviar de um ciclista.”

CLÁUDIA LIZ

ANESTESIA PERIGOSA Em outubro de 1996, a modelo Cláudia Liz sofreu complicações respiratórias quando se preparava para uma lipoaspiração, na Clínica Santé, em São Paulo. Submetida a anestesia, ela teve choque anafilático e, sedada, foi transferida às pressas para o Hospital Albert Einstein, onde permaneceu em coma induzido por quatro dias. O Conselho Regional de Medicina não encontrou indícios de erro médico e arquivou o caso. Em entrevista à revista “Marie Claire”, Claudia disse que houve erro, mas não propriamente médico: “Eu sei onde foi o erro deles: por medo, por eu ser uma pessoa famosa. Quando meu marido ligava, eles diziam: ‘Ela está dormindo, está se recuperando’. O erro foi não ter me levado imediatamente para um hospital”.

Marois estuda o chamado “attentional blink”, ou “piscada de atenção”. Ele selecionou 20 pessoas para um teste de monitoramento cerebral. Funcionou assim: fotos de um cão são-bernardo e de um terrier foram exibidas de relance em um intervalo de meio segundo. Entre elas, foram inseridas 20 imagens de gatos. Na tal seqüência, quase todas as pessoas deixaram de ver o segundo cão. Seus cérebros “piscaram”. Os cientistas explicam essa “cegueira” como uma alocação errada de atenção, quando as coisas estão acontecendo rápido demais para o cérebro detectar o segundo estímulo, e então a consciência é de alguma forma suprimida.

Um estudo semelhante detectou que as poucas pessoas que conseguem manter a consciência sobre as duas imagens, inicial e final, são especialistas em meditação, gente que treina por anos a fio como concentrar a mente.

É PRECISO CRIAR UMA CULTURA DE SEGURANÇA
Iraniano critica postura dos EUA em relação ao programa nuclear de seu país e analisa acidentes aéreos no Brasil

O iraniano Najmedin Meshkati é um especialista em segurança industrial nas áreas de energia nuclear, química e aeronáutica. Professor na Universidade do Sul da Califórnia, viaja regularmente ao seu país de origem e tem acompanhado indiretamente a construção da usina nuclear de Bushehr. Meshkati critica a maneira como os EUA e a ONU vêm lidando com o programa nuclear persa e diz temer a ocorrência de uma tragédia semelhante à de Chernobyl em solo iraniano. Meshkati também acredita que os grandes acidentes que aconteceram no Brasil nos últimos anos podem ajudar nosso país a reinventar sua cultura de segurança.

GALILEU: Em julho um terremoto ocasionou um incêndio e um vazamento na usina nuclear de Kashiwazaki, no Japão. Seus operadores disseram ter sido um incidente sem importância. Isso é verdade?
NAJMEDIN MESHKATI: Não concordo. A usina de Kashiwazaki pertence à Tokyo Electric Power Company. Essa companhia já foi pega falsificando dados em 2002, e cinco de seus altos executivos renunciaram. O problema está na cultura de segurança nuclear japonesa. Só depois de seis horas eles relataram a ocorrência do incêndio e admitiram um pequeno vazamento. No dia seguinte, reconheceram que o vazamento foi de milhares de galões de água (no total vazaram para o Mar do Japão 1.300 litros de água usada para resfriar o reator). A Tokyo Electric tem um histórico de segredos e de falsas histórias.
GALILEU: Por que você teme a possibilidade de um acidente na usina que o Irã está construindo perto da cidade de Bushehr?
MESHKATI: A usina começou a ser construída nos anos 1970. O projeto envolvia basicamente europeus, franceses e alemães. Após a revolução de 1979, os estrangeiros foram embora e a obra parou. No início dos anos 1990, o governo resolveu concluir a usina e pediu aos franceses e alemães que terminassem a construção. Eles se recusaram. O Irã decidiu então recorrer à Rússia, e em 1995 assinou um contrato de US$ 800 milhões para a conclusão da usina. No mesmo ano, os russos retomaram a construção. Para se assegurar da qualidade do trabalho, o Irã tentou contratar algumas companhias especializadas em monitorar esse tipo de empreendimento. Eu estimulei as autoridades a fazerem isso. Vou ao Irã uma ou duas vezes por ano, e meus ex-alunos trabalham no controle de segurança do programa nuclear iraniano. São poucas as empresas no mundo que têm a tecnologia para fazer esse tipo de avaliação. Todas se recusaram a trabalhar para o Irã, sob pressão dos EUA. A saída foi contratar os russos para monitorar o trabalho de construção — que está sendo feito pelos próprios russos. Eles não têm a expertise para isso e não vão fazer uma fiscalização apurada. Outro problema é o desenho da sala de controle. É o item mais crítico, pois ela é o coração e o cérebro das usinas nucleares. Se você analisar os acidentes de Chernobyl e Three Mile Island [nos EUA, na década de 1970], ambos começaram na sala de controle devido a erros de julgamento dos operadores. Há poucas companhias que podem fazer um bom trabalho no que tange a criar um projeto que lide com o risco do fator humano na sala de controle. Os russos não sabem fazer isso. Eu estive em Chernobyl e pude constatar que eles estão muito atrasados. Em 2005, Mohamed El Baradei [diplomata egípcio, diretor da Agência Internacional de Energia Atômica] ganhou o prêmio Nobel da paz e deu uma entrevista dizendo que a melhor maneira de evitar um outro Chernobyl é por meio da colaboração internacional. Então por que não ajudar o Irã? O Conselho de Segurança da ONU aprovou duas resoluções pedindo que o país interrompesse o enriquecimento de urânio. Tudo bem. Mas por que misturar isso com o processo de construção das usinas? A decisão de fornecer ou negar tecnologia na área de segurança não deveria ser guiada por critérios políticos. A tecnologia para fazer o monitoramento da construção ou a análise de risco do fator humano na usina não pode ser usada militarmente.

Medidas preventivas: Para o especialista em segurança iraniano Najmedin Meshkati (abaixo), novos radares e pistas não bastam para impedir tragédias como a do vôo 3054 da TAM, ocorrida em julho

GALILEU: O Brasil sofreu grandes acidentes nos últimos anos, como o afundamento da plataforma P-36, a colisão de dois aviões e o pouso fatal de um Airbus em julho. Qual foi sua impressão sobre esses eventos?
MESHKATI: Estudei com algum detalhe o acidente da P-36 em 2001. Tenho amigos na Petrobras que me mostraram os relatórios das investigações. E, como tive muitos alunos vindos do Brasil para estudar segurança aérea, também pude obter informações sobre a colisão aérea que ocorreu ano passado. Sei que na Petrobras os funcionários dão muita atenção aos procedimentos de segurança. O que eu gostaria de saber é o quanto essa cultura de segurança está presente também nos níveis superiores, administrativos. O Brasil é governado por uma pessoa que teve uma experiência pessoal com um acidente de trabalho. Por isso, tenho esperança de que consiga aprender importantes lições sobre a questão de segurança após esses acidentes aéreos. E que elas não se restrinjam a apenas comprar mais um radar ou a construir mais uma pista.
GALILEU: Como assim?
MESHKATI: O ideal seria que o presidente Lula apontasse uma comissão presidencial para investigar, por exemplo, os acidentes aéreos. Algo semelhante foi feito no caso da explosão do ônibus espacial Challenger, em 1986, e na explosão do Columbia, em 2003. Aliás, após a explosão do Columbia, concluiuse que as causas estavam na cultura de segurança da Nasa. O Brasil precisa criar uma comissão independente, formada por acadêmicos reconhecidos. Essa comissão poderia também analisar os demais grandes acidentes. E ela deveria não apenas avaliar as causas, mas também fazer recomendações sobre o que mudar nos procedimentos da indústria, do governo, das forças armadas. Somente o presidente tem esse poder, que poderia ser o maior legado do presidente Lula: assegurar o estabelecimento de uma cultura de segurança no País.

Veteranos do erro
Reza o senso comum que não há substituto para a experiência. Até aí, pouco a discordar. O problema é quando, por levar fé demais na própria tarimba, o detentor do conhecimento de causa baixa a guarda da atenção e deixa de seguir procedimentos básicos. Essa é apontada como uma causa da falha que mais provoca calafrios nos mortais: o erro médico.

De acordo com dados do Conselho Federal de Medicina (CFM), o perfil do médico que está mais sujeito a cometer erros é aquele profissional do sexo masculino, na faixa dos 40 anos e com mais de dez anos de prática. Médico, professor da UnB e membro do conselho de ética do CFM, Julio Cezar Meirelles justifica assim esses dados: “O médico de 40 anos tem uma falsa sensação de segurança, semelhante à do motorista de 40 ou 50 anos que evita usar o cinto. Ele nunca bateu e acha que nunca vai bater. Como esse motorista, o médico descuida um pouco da rotina de segurança e despreza algumas normas”.

E isso ajuda também a entender por que a maior concentração de erros acontece com mais freqüência em processos médicos menos complexos, em pequenas suturas ou procedimentos cirúrgicos elementares, nos quais o médico trabalha sozinho e está menos atento ao próprio trabalho. Por outro lado, uma cirurgia cardiovascular, afirma Meirelles, é um procedimento altamente seguro. Raramente ocorrem problemas ou imperícias. Isso é compreensível, afinal há uma equipe acompanhando, e, nos bons hospitais, a sala de cirurgia está repleta de equipamentos com tecnologia de ponta.

SONO É ARMA CONTRA ACIDENTES
Estudo mostra que, apesar de contar com um sistema de compensação, o cérebro funciona melhor depois de uma boa noite de repouso

Dá para sair da balada e ir direto para a prova? Claro que sim, mas o seu cérebro vai funcionar com capacidade reduzida. Isso apesar de nossos miolos contarem com um mecanismo que ativa determinadas regiões para compensar a fadiga ou o funcionamento inadequado de outras. Com as mais novas técnicas de pesquisa cerebral por ressonância magnética funcional, a Universidade da Califórnia fez um estudo comparando voluntários insones com outros que dormiram. Apesar de o cérebro tentar equilibrar o jogo, os descansados venceram.

1. LOBO FRONTAL: abriga o córtex pré-frontal. Associada à tomada de decisões, essa região fica mais ativa nos cérebros de quem passou a noite em claro. Apesar disso, os descansados foram mais eficazes em testes comparativos realizados pela Universidade da Califórnia
2. LOBO TEMPORAL: envolvido com aspectos complexos da visão, fica mais ativo no cérebro dos descansados
3. CEREBELO: área que responde pela postura, manutenção do equilíbrio e aprendizagem motora, não muda de acordo com o sono
4. LOBO OCCIPITAL: responsável por representar os estímulos que chegam pelos olhos, essa região cerebral praticamente não apresenta diferenças na comparação entre os voluntários
5. LOBO PARIETAL: ligado à performance aritmética e ao processamento de informações corporais como o tato, ele permaneceu inativo nos voluntários descansados e ficou ativo nos sonolentos

Além do relaxamento provocado pela fé excessiva na experiência, outra postura comportamental que pode levar ao erro — tanto na área médica quanto nas empresas — é a arrogância, ou seja, o sujeito não reconhecer o erro como seu. No mundo corporativo, há consultores que, como o especialista em manejamento comportamental Luiz Fernando Garcia, combatem a arrogância realçando o lado benéfico da falha humana.

“O erro é importante porque ele mobiliza no ser humano um estado de depressão. Não é a patologia depressiva, mas um estar deprimido. Esse é um tipo de mobilização que promove reajustes. Quem não pensa assim corre o risco de não diagnosticar onde está errando e de manter um padrão de repetição equivocado”, afirma o consultor.

Autor de um grande perfil do erro médico — encomendado pelo CFM em 2002 —, Meirelles aponta condições, além da experiência e da arrogância, que podem facilitar a ocorrência de falhas entre os seus colegas de estetoscópio: “Exigüidade no tempo do atendimento, indisponibilidade pessoal, instalações inadequadas, comunicação deficiente entre médico e paciente, anotações lacônicas no prontuário e decisões apressadas”.

É o sistema
Ao listar essas condições, o médico e professor resvala nos indutores de erros que vão além da parte que cabe a nós, humanos, nesse latifúndio de equívocos. Há quem afirme que o maior motivador de falhas, humanas ou não, está no ambiente ou no sistema que abriga o indivíduo. É o caso de James Reason, professor emérito de psicologia da Universidade de Manchester (Inglaterra) e uma das maiores autoridades mundiais no estudo dos erros causados por fatores humanos.

“As pessoas que cometem erros são na verdade as herdeiras, não as provocadoras, de eventos que provavelmente já faziam parte do sistema. Se condenamos indivíduos e isolamos essa pessoa do sistema, fracassamos em aprender coisas como o contexto do erro, as condições locais de trabalho e os fatores organizacionais que contribuíram para que isso acontecesse”, diz Reason. E ele usa uma regra de administração para reforçar essa idéia. Diz ela que as mesmas situações tendem a produzir os mesmos tipos de erro com diferentes pessoas. Assim, culpar alguém pode ser uma emoção muito satisfatória, mas não tem nenhum efeito benéfico.

BATALHA DE STALINGRADO

HERÓIS DA RESISTÊNCIA De olho no petróleo do Cáucaso e obcecado por tomar a cidade que levava o nome do líder soviético, Hitler enviou o 6º exército alemão, sob o comando do general Von Paulus, para cumprir a tarefa. Os combates começaram em agosto de 1942, mas Paulus não conseguiu superar a resistência soviética, que lutava dentro de cada casa. Os soviéticos começaram a envolver o exército alemão estagnado pelos flancos, à medida que o inverno se aproximava. Hitler foi vivamente aconselhado por seus generais a ordenar a retirada, mas mandou Paulus não ceder terreno ao inimigo. O resultado foi o cerco total dos alemães pelas tropas russas. Vários oficiais nazistas instigaram Paulus a tentar quebrar o cerco e bater em retirada, mas Hitler arrogantemente proibiu-o de adotar essa medida, assegurando que enviaria mantimentos por uma ponte aérea para as tropas cercadas. Essa ligação aérea, porém, foi um fracasso completo. Em fevereiro do ano seguinte, o 6º exército ruiu de vez. O resultado foi a perda de 400 mil soldados alemães e o início da derrocada germânica no front oriental, que levaria à tomada de Berlim pelos soviéticos. Hitler ainda acusou Paulus de fraqueza por não ter cometido suicídio após a derrota.

Para Reason, a busca por possíveis efeitos benéficos passa pelo desenvolvimento tecnológico. Apesar de defender o lado bom e necessário dos avanços, ele faz ressalvas: “Claro que as máquinas hoje estão bem mais confiáveis do que há quatro décadas. Mas a automação, que parece tirar o fator humano fora do circuito das falhas, não o faz, apenas realoca a fonte do erro. No caso de um avião, por exemplo, tira essa fonte da cabine do piloto e a coloca no programa do piloto automático”, que, claro, pode padecer do fato de ser uma criação humana. Outro exemplo da dificuldade das máquinas para nos “consertar” vem do mundo dos computadores. Em agosto, chegou ao mercado brasileiro o software CA Spectrum v8.1, uma ferramenta que permite aos departamentos de informática das empresas diagnosticar e corrigir erros humanos e falhas técnicas em seus sistemas. Trata-se de uma nova versão, o que significa que as anteriores precisaram ser aprimoradas para combater a criatividade humana — inclusive a dos programadores de software — na hora de falhar.

Ou seja, a tecnologia ajuda, mas não resolve tudo. Assim, na hora de combater as falhas humanas, talvez a postura mais prudente seja levar em consideração uma idéia do professor do Instituto Holandês de Pesquisa Cerebral Michel Hofman: “Avanços futuros, que minimizem a possibilidade dos erros, não virão apenas de forma natural. É preciso fazer alianças saudáveis entre o uso do cérebro e o uso da tecnologia”.

Vá fundo:
www.sciencentral.com
Na área “Life Sciences” há um link especial para o cérebro onde se pode saber as últimas novidades e pesquisas sobre o assunto

Múltiplas tarefas

Bêbado de sono

Fonte: http://revistagalileu.globo.com/Revista/Galileu/0,,EDR78706-7855,00.html

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O monge cientista

Publicado por educaçãoevida em Agosto 26, 2008

Edição 177 – Abr/06

Se não fosse um religioso, o 14º Dalai Lama poderia ter se tornado um pesquisador. Desde criança, o monge gostava de mirar as estrelas com seu telescópio. Sem estudo científico prévio, deduziu, ao observar as sombras na superfície da Lua, que o corpo celeste não emitia luminosidade, ao contrário do que ensinavam alguns textos budistas. Foi só o começo de sua relação com a ciência, que se consolidou em outubro de 1987. Nessa data, passou uma semana reunido com cinco cientistas ocidentais na Índia. A proximidade entre o budismo e as ciências cognitivas, pauta das discussões, deu origem ao Instituto Mind and Life (Mente e Vida), sediado nos EUA. A associação, dedicada a investigar a mente por meio das tradições científicas e budistas, promove encontros anuais entre o religioso e homens da ciência. ‘Em vista de alguns elementos dos ensinamentos de Buda serem incompatíveis com nosso atual conhecimento do mundo, a validação final dependerá da autoridade do raciocínio e da lógica’, declarou o Dalai Lama no primeiro encontro com pesquisadores. Afinal, o próprio Buda estimulava seus discípulos a testar suas afirmações. Qualquer semelhança com o método científico é uma coincidência muito bem-vinda, que o Dalai Lama celebra em ‘The Universe in a Single Atom’ (O Universo em um Único Átomo), seu livro mais recente. O líder vem ao Brasil pela terceira vez no final deste mês e vai falar sobre ciência e espiritualidade aos brasileiros.

Na opinião do líder espiritual, aspectos da cosmologia budista devem ser abandonados por não coincidirem com descobertas científicas

Por que um líder espiritual, porém, estaria tão interessado em desvendar os mistérios da física, química, cosmologia e neurobiologia? Certa vez, o Dalai Lama disse ao psicólogo Daniel Goleman, autor de ‘Inteligência Emocional’, que o budismo e a ciência não são perspectivas conflitantes acerca do mundo, mas métodos diferentes de chegar ao mesmo objetivo: a busca pela verdade. Para ele, investigar a realidade é essencial ao budista, e a pesquisa científica pode expandir seus conhecimentos. Entretanto, o religioso explica que sua meta ao colaborar com pesquisas neurocientíficas – principalmente as que estudam a meditação – não é aprimorar o budismo, mas contribuir para o benefício da sociedade, pois ele acredita que, com a educação da mente, as pessoas podem lidar melhor com suas emoções destrutivas.

O Dalai Lama já declarou diversas vezes – e reafirma em seu novo livro – que, se a ciência provar que algum preceito budista é incoerente, ele deve ser alterado. Um exemplo disso é o ’sistema Abhidharma’, uma das tradições da cosmologia no budismo. O Abhidharma descreve um planeta Terra chato, ao redor do qual corpos celestes como a Lua e o Sol revolvem. ‘O budismo deveria abandonar muitos aspectos da cosmologia Abhidharma’, escreve em ‘The Universe in a Single Atom’. O mestre procura não apenas entender as descobertas científicas, mas também compará-las com as lições milenares do budismo. ‘A descrição do comportamento de partículas subatômicas nos níveis mais diminutos possíveis traz o ensinamento de Buda sobre a natureza transitória de todas as coisas’, relaciona.

Em outros aspectos, budismo e ciência divergem. O lama (mestre) conta que, certa vez, um neurocientista lhe disse que todos os estados mentais se originam de estados físicos, e nunca no caminho contrário. ‘A visão de que todos os processos mentais são necessariamente físicos é uma suposição metafísica, não um fato científico. Sob o espírito da investigação científica, é fundamental que a questão continue aberta’, registra na obra.

O Dalai Lama lembra que, de acordo com o paradigma corrente da ciência, o único conhecimento válido é aquele derivado de um método estritamente empírico, apoiado pela observação, inferência e verificação experimental.

Vida no mosteiro
Monge brasileiro dedica-se à filosofia budista desde os 12 anos

Lama Michel, o ‘pequeno Buda brasileiro’

‘O mais importante na vida de um monge é manter os votos, dedicar a vida aos estudos, desejar atingir a iluminação para benefício de todos os seres e abandonar os venenos mentais como desejo, apego e raiva.’ O lama Michel Rinpoche, brasileiro de 24 anos, sabe do que está falando. Afinal, já passou a metade da vida estudando a filosofia budista. O budismo entrou na história de sua família em 1987, quando sua mãe, a psicóloga Bel César, organizou a primeira visita ao Brasil do lama Gangchen Rinpoche, que se tornaria mestre de seu filho. Aos 8 anos, durante uma viagem à Índia e ao Nepal, Michel conheceu outros lamas, que o identificaram como a reencarnação de um mestre. ‘Na época não dei muita importância’, diz o lama. ‘Mas, aos 12 anos, percebi que lama Gangchen era a única pessoa realmente feliz que conhecia, então quis ser como ele.’

Tomada a decisão, foi estudar filosofia budista na universidade monástica de Sera-Me, na Índia, para tornar-se monge. ‘Mas nem todo lama torna-se monge, e nem todo monge é um lama’, esclarece. Seguro, lama Michel nunca questionou o caminho que escolheu. ‘Nenhuma regra da vida monástica foi especialmente difícil de ser seguida. O mais complicado foi interagir com uma cultura completamente diferente’, diz. As normas do mosteiro, como não assistir à televisão e não sair sem autorização, podem variar conforme o local. ‘Mas ninguém fica vigiando o outro’, conta. Os monges também fazem votos durante sua formação, dos quais os básicos são: não matar, não roubar, não mentir, não usar substâncias intoxicantes e não manter relações sexuais.

Para o Dalai Lama, budismo e ciência compartilham aspectos filosóficos e metodológicos

Porém, em sua opinião, muitos aspectos da realidade, como a distinção entre o bom e o mau, a espiritualidade e a criatividade artística, caem inevitavelmente fora do escopo desse método.

Outra questão enfatizada no livro é a importância da observação individual, invalidada cientificamente, mas crucial no processo de autoconhecimento budista. ‘O método de ‘primeira-pessoa’ é essencial. A experiência de felicidade pode coincidir com certas reações químicas no cérebro, como aumento no nível de serotonina, mas nenhuma descrição bioquímica e neurobiológica pode explicar o que é a felicidade’, justifica.

Apesar de sua relação próxima com cientistas, o Dalai Lama teve de enfrentar oposição de alguns deles em novembro do ano passado, quando foi convidado a discursar na reunião da Sociedade para a Neurociência, em Washington. Uma petição propondo o cancelamento da palestra do religioso foi elaborada por um grupo de cientistas – muitos dos quais chineses, adversários políticos do governo tibetano no exílio. ‘Foi uma piada’, critica Sara Lazar, da Universidade de Harvard. ‘A maioria dos nomes na petição era falsa. O fato de que 15.000 pessoas assistiram à palestra mostra o interesse da comunidade científica em escutá-lo’, afirma.

Protesto pró-Tibete, em Londres

O neurocientista Zvani Rossetti, da Universidade de Cagliari, Itália, diz que o evento não é o local adequado para um religioso. ‘Por mais interessante que sua palestra tenha sido, não foi científica’, declara. ‘A meditação pode ser definida como a habilidade de direcionar o pensamento e a atenção, e é uma propriedade do cérebro, não do budismo. A alucinação é importante para a neurociência. Devemos convidar o papa para falar sobre milagres?’, questiona.

Antoine Lutz, cientista associado ao Centro Waisman, da Universidade de Wisconsin, discorda. ‘Houve um mal-entendido. O Dalai Lama é um humanista e tinha uma mensagem sobre a importância da pesquisa científica’, diz Lutz, que já participou de dois encontros do Instituto Mind and Life. E a mensagem que o Dalai Lama passou, em sua controversa palestra, foi de novo a necessidade de aproximação entre as disciplinas. ‘Embora a tradição contemplativa budista e a ciência moderna tenham evoluído a partir de raízes históricas, intelectuais e culturais diferentes, acredito que compartilhem aspectos significativos, especialmente na perspectiva filosófica e na metodologia’, declarou.

Um só território
Ao tomar o poder, Mao Tsé-tung iniciou o plano de unificar a China
Sob o argumento de que o Tibete fazia parte do território chinês e não podia cair nas mãos dos ‘imperialistas do Ocidente’, o líder comunista Mao Tsé-tung ordenou, em 1950, a invasão de 80 mil soldados no país. Um levante rebelde foi massacrado em 1959, o que provocou a fuga do Dalai Lama para a Índia, seguido por cerca de 85 mil conterrâneos. Segundo grupos exilados, cerca de 1,2 milhão de cidadãos morreram no conflito, número negado pelo governo chinês. A terra natal do Dalai Lama fica em uma região estratégica, entre duas potências nucleares. ‘Diante da configuração atual de poder, creio que a China não vai abrir mão do Tibete’, afirma o historiador Eduardo Bastos de Albuquerque, da Unesp de Franca.
Áreas reinvidicadas por tibetanos no exílio Território chinês, disputado com a Índia
Áreas tibetanas designadas pela China Área reinvidicada pela China como parte da RAT
Região Autônoma do Tibete (RAT), China Áreas historicamente ligadas à cultura tibetana

Cientistas próximos ao Dalai Lama não estão livres de críticas de colegas. Um estudo de Antoine Lutz, em parceria com o psiquiatra Richard Davidson, foi alvo de controvérsias. Os pesquisadores investigaram a mente de oito monges budistas enquanto eles meditavam sobre compaixão. Os resultados foram comparados com os de um grupo de dez colegiais, que haviam aprendido a meditar pouco antes do experimento. Os autores concluíram que os monges produziram padrões de ondas gama – associadas à concentração e ao controle emocional – muito mais fortes que os dos estudantes. Porém críticos alegam que diversos fatores, como diferença de idade entre os voluntários, podem ter influenciado o resultado. Para eles, o estudo não prova que a meditação promove emoções positivas.

‘É importante preservar os rigores científicos enquanto mantemos os componentes espirituais dessas práticas. Do contrário, podemos medir algo diferente daquilo que intencionamos’, pondera Andrew Newberg, professor de psiquiatria da Universidade da Pensilvânia.

Não é à toa que a meditação é um forte ponto de encontro entre budistas e cientistas. Para Daniel Goleman, todas as pesquisas relacionadas à prática possuem um objetivo comum: testar a maleabilidade do cérebro. ‘Há uma década, os neurocientistas acreditavam que nossos neurônios não se modificavam ao longo da vida. Hoje já sabemos que isso não é verdade, e ganham força os estudos sobre neuroplasticidade: a noção de que o cérebro muda conforme nossas experiências’, conta Goleman no livro ‘Emoções Destrutivas’, em que descreve os debates ocorridos em um dos encontros do Mind and Life. Se o treino mental pode ajudar a produzir emoções positivas, a meditação parece ser a melhor ‘ginástica’ para atingir esse objetivo. Associadas ou não à religiosidade, as práticas meditativas são variadas. ‘Algumas focam frases, imagens ou palavras, enquanto outras trabalham em uma ‘limpeza’ da mente e descanso no sentido de atingir a consciência pura’, diz Newberg. ‘Praticar meditação é questionar-se’, complementa a monja zen Coen Sensei.

Outro estudo que despertou interesse na comunidade científica foi o da neurocientista Sara Lazar. Ela desenvolveu a hipótese de que a meditação não somente alteraria ondas cerebrais, mas também poderia modificar estruturas físicas do cérebro. Para testar sua idéia, mediu a espessura do córtex, a parte mais externa do cérebro, de voluntários com e sem experiência nas práticas meditativas. Sua equipe descobriu que áreas associadas à atenção e ao processamento sensorial no córtex eram mais espessas nos meditadores. Além disso, o estudo mostrou que a diferença era maior nos mais velhos, sugerindo que a regularidade da meditação pode minimizar o estreitamento do córtex, natural no envelhecimento. ‘Nossas descobertas são consistentes com outros relatos, que demonstram que hábitos como tocar um instrumento musical também estão vinculados a um ganho de espessura do córtex’, afirmam os autores.

Neurociência da concentração
Pesquisadores usam meditação para investigar a mente
Para o neurocientista Andrew Newberg, da Universidade da Pensilvânia, a complexa tarefa mental da meditação é uma das áreas de estudo mais promissoras para a ciência na próxima década. O cientista realizou experimentos com monges budistas tibetanos usando a tecnologia conhecida como tomografia computadorizada por emissão de fóton único (ver quadro abaixo).

As imagens mostram um decréscimo, durante a meditação, da atividade do lobo parietal, área ligada à orientação temporal e espacial. A diminuição de fluxo sanguíneo nessa região pode ser a responsável pela sensação de ‘flutuação’ que às vezes ocorre na meditação. Já a parte frontal do cérebro, associada à atenção, está mais ativa durante a prática. ‘Faz sentido, já que a meditação requer alto grau de concentração’, avalia Newberg.

No Brasil, existe uma linha de pesquisa em meditação, ioga e outras técnicas complementares em saúde na Unidade de Medicina Comportamental do Departamento de Psicobiologia da Unifesp, coordenada pelo professor José Roberto Leite. Essa linha iniciou-se com o doutorado da psicobióloga Elisa Kazasa. A partir de um encontro com o indiano Rishi Prabakar, criador da técnica de Siddha Samadhi Yoga, a pesquisadora elaborou um estudo sobre a prática meditativa e respiratória, o pranayama. ‘Observou-se melhora de sintomas de ansiedade, depressão e baixo nível de atenção, dentre outros parâmetros avaliados’, diz Elisa.

Pesquisa mostra mudanças nos cérebros de monges, durante a meditação

Além de afetar ondas, função e estrutura, a meditação pode interferir na química cerebral. Um estudo do Instituto John F. Kennedy, na Dinamarca, demonstrou que, durante a prática, o nível de dopamina no cérebro aumenta. Esse neurotransmissor é relacionado a sensações de prazer e motivação. Embora seja importante confirmar os resultados, outros trabalhos sugerem que a meditação ajuda a reduzir o estresse e melhora o sistema imunológico. Alguns planos de saúde nos Estados Unidos já oferecem descontos para os associados que a exercitam com regularidade.

‘Como a ciência ainda não dispõe de instrumentos para mensurar objetivamente nosso mundo interior, as práticas meditativas, não apenas do budismo, fornecem importantes informações sobre esse aspecto de nossa natureza’, diz a psicobióloga Elisa Kazasa, pesquisadora da Unifesp. ‘Elas podem complementar informações obtidas por meio de instrumentos científicos, como inventários psicológicos, aparelhos de registro fisiológico e a moderna neuroimagem funcional’, opina. É o que também pensa Alan Wallace, ex-monge tibetano e um dos intérpretes do Dalai Lama nos encontros do Mind and Life. Wallace compara as práticas meditativas com um telescópio destinado a ‘olhar para dentro’, para que possamos conhecer nossa consciência.

‘Acho maravilhosa essa relação entre a ciência e o budismo, já que o próprio Buda era um cientista do interior’, diz o lama Michel Rinpoche. O monge ficou conhecido há alguns anos como o ‘pequeno Buda brasileiro’, por ter sido identificado como a reencarnação de um lama tibetano. ‘No Ocidente, ciência e religião sempre caminharam separadas. Por isso, não é de se admirar que haja uma resistência dos cientistas a aceitar o budismo’, afirma a psicóloga Bel César, mãe do lama Michel e ex-presidente do Centro de Dharma da Paz. ‘No entanto, o budismo não é uma religião, ou seja, um conjunto de dogmas. É uma filosofia que investiga, assim como a ciência, a natureza da mente’, ressalta. A psicóloga toca em um ponto fundamental: o budismo, por suas características essenciais, também pode ser definido como filosofia de vida, no lugar de religião. Talvez venha daí sua afinidade com a ciência.

O Dalai Lama conhece o laboratório de Richard Davidson, da Universidade de Wisconsin (à esq.), e conversa com o cientista Steve Kosslyn, no encontro de 2002 do Instituto Mind and Life (à dir.)

‘O conhecimento humano é setorizado para facilitar nossa compreensão’, afirma a professora Lia Diskin, fundadora da Associação Palas Atena, organizadora da visita do Dalai Lama ao Brasil. ‘Não se trata de juntar as duas disciplinas, mas abrir comportas para uma fecundar a outra’, diz Lia sobre a relação entre o budismo e a ciência. Porém ela ressalta que a ciência não pode ser invocada para explicar o indemonstrável. ‘Não se pode utilizá-la para validar a reencarnação, que faz parte de um universo desconhecido’, opina.

A ampla gama de práticas e ensinamentos pertencentes ao domínio do budismo certamente vai continuar a instigar os cientistas a ampliarem seus conhecimentos e irem além do universo material já conhecido. Se depender da vontade do Dalai Lama, a recíproca continuará a ser verdadeira. ‘Suponho que minha fascinação pela ciência ainda se encontra em um encantamento inocente pelas maravilhas que ela pode alcançar’, escreve. Aos 70 anos, Dalai Lama continua com o mesmo espírito curioso da infância, quando estudava astronomia por conta própria e desmontava relógios para ver como as engrenagens funcionavam.

Da índia para o mundo
Desde Buda, as escolas budistas ramificam-se pelo planeta

Monja Coen Sensei, da tradição zen Soto Shu

‘O budismo é tão variado quanto o cristianismo’, diz a monja Coen Sensei, representante no Brasil da tradição Soto Shu do zen budismo. A religião começou a se ramificar ainda no século 6º a.C., quando o príncipe indiano Sidarta Gautama, ou Shakyamuni Buda, fundou o budismo. As escolas diferem nos métodos, mas têm o mesmo objetivo: eliminar o sofrimento pela iluminação, para a felicidade de todos.

As tradições principais são a Theravada, predominante no Sudeste Asiático, e a Mahayana, da qual fazem parte o zen japonês, o chan chinês, a escola Terra Pura e as tibetanas. A Theravada busca a iluminação pela meditação e pela ‘visão intuitiva’, que tem por fim enxergar os fenômenos sem distorção de paixões ou preconceitos. Para o o zen e o chan, o estudo e as discussões das escrituras são infrutíferos, já que a iluminação se alcança somente pelo zazen, ou meditação. O budismo tibetano, também conhecido por lamaísmo, se aproxima das origens indianas, já que usa textos traduzidos diretamente do sânscrito. O lamaísmo agrega práticas de visualização e recitação à meditação.

As escolas podem variar até em questões de suprema importância, como a sucessão dos mestres. No zen budismo japonês, por exemplo, o monge segue uma longa carreira para tornar-se abade superior. Já no tibetano, o Dalai Lama é a reencarnação de Avalokiteshvara, o bodisatva da sabedoria, e portanto pode ser entronizado antes de começar seus estudos budistas. Bodisatvas são iluminados que ajudam outros seres a alcançar a mente de iluminação. Os budas, por fim, são os que atingiram a iluminação completa e se libertaram do sofrimento.

Vá fundo
Para ler

• ‘The Universe in a Single Atom’, Dalai Lama. Morgan Road Books, 2006
• ‘Emoções Destrutivas’, Daniel Goleman. Campus, 2003
• ‘Budismo’, Roberto Minganti. Globo, 2002
• ‘A Sabedoria do Buda’, Jean Boisselier. Objetiva, 2002

Para navegar
www.centrodedharma.com.br

www.dalailama.org.br

www.dharmanet.com

www.tibet.com

Para assistir
• ‘Kundun’, Martin Scorcese. EUA, 1997
• ‘Sete Anos no Tibete’, Jean-Jacques Annaud. EUA, 1997

A trajetória do Dalai Lama, de seu nascimento até hoje

1935 – Nasce Lhamo Dhondrub, na vila de Taktser, no Tibete
1937 – Dhondrub é reconhecido como a reencarnação do 13º Dalai Lama e, portanto, uma encarnação do Buda da Compaixão. Seu nome muda para Tenzin Gyatso
1940 – Aos 5 anos, é entronizado como o 14º Dalai Lama
1941 – Começa sua educação formal
1950 – Aos 15 anos, é incitado a assumir o status de chefe de Estado, após a invasão do Exército de Libertação Popular da China no território tibetano
1954 – Vai a Pequim negociar condições de paz com Mao Tsé-tung e outros líderes chineses
1956 – Durante visita à Índia, o Dalai Lama reúne-se com o primeiro-ministro Nehru e o premiê Chou para tratar da piora na situação do Tibete
1959 – Completa o doutorado em filosofia budista
1959 – A capital do Tibete, Lhasa, explode em manifestações, e o Dalai Lama refugia-se na Índia
1960 – Estabelece residência em Dharamsala, Índia
1963 – O Dalai Lama promulga uma constituição democrática, baseada nos princípios budistas e na Declaração Universal dos Direitos Humanos
1973 – O Dalai Lama e o Papa Paulo VI reúnem-se no Vaticano
1980 – Primeiro encontro com o Papa João Paulo II
1987 – O líder propõe um plano para a resolução do status do Tibete
1987 – Primeira reunião do Instituto Mind and Life, entre o Dalai Lama e cientistas ocidentais
1988 – Propõe em Estrasburgo, França, a criação de um Tibete democrático e com governo próprio, em associação com a República Popular da China
1989 – O líder espiritual do Tibete recebe o Prêmio Nobel da Paz, em Oslo, Noruega
1990 – Tibetanos exilados na Índia e em mais de 33 outros países elegem 46 membros da 11ª Assembléia Tibetana
1991 – O governo tibetano no exílio declara a Proposta de Estrasburgo inválida, face à atitude negativa das lideranças chinesas
1992 – Visita o Brasil pela primeira vez, durante a Eco-92
1999 – Em nova visita ao Brasil, participa de seminários e reuniões sobre espiritualidade, valores humanos e paz
2001 – O eleitorado tibetano elege diretamente o Kalon Tripa, ministério-mor do Gabinete. É a primeira vez em que o povo escolhe seus líderes políticos
2006 – 27 de abril: programada a terceira visita do Dalai Lama ao Brasil

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FONTE: http://revistagalileu.globo.com/Galileu/0,6993,ECT1170500-1706-4,00.html

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O instinto da cura

Publicado por educaçãoevida em Agosto 26, 2008

Edição 168 – Jul/05

Enquanto os centros avançados de pesquisa procuram tratamentos cada vez mais sofisticados para as doenças que ameaçam nossa saúde, uma ala da medicina decidiu dar um basta. Para esses “transgressores” da escola tradicional, hábitos saudáveis, que sempre estiveram à mão, podem ser o caminho para organismos mais sadios.

Um dos defensores dessa linha é o neuropsiquiatra francês David Servan-Schreiber, autor do livro “Curar”. Segundo ele, o corpo possui um instinto de sobrevivência aguçado que tratamentos naturais seriam capazes de ativar. Ele admite que isso não serve para todos os problemas – se você corta um dedo o corpo irá cicatrizar sozinho, mas se o corte for profundo será necessário dar pontos. Não hesita, porém, em afirmar que estamos simplesmente tomando remédios demais.

A culpa pode estar no nosso estilo de vida. “Muitas coisas mudaram e nos deixaram mais vulneráveis a doenças”, disse Servan-Schreiber, em entrevista a Galileu. “Hoje estamos muito menos sincronizados com nossos ritmos naturais do que costumávamos estar. Sabemos que a exposição à luz é importante para o nosso sistema emocional, por exemplo, mas não fazemos mais isso. A nossa nutrição também mudou e isso teve um impacto profundo sobre nosso bem-estar psíquico. As organizações sociais não são mais as mesmas. As pessoas em geral não moram na mesma cidade que seus pais e perdem o contato com a comunidade, o que também afeta a saúde emocional. São diversos fatores combinados que nos afastaram do ideal.”

Muitas coisas, também, saíram do nosso controle, como a qualidade da nossa comida. Ninguém reparou que, 50 anos atrás, os animais eram alimentados com pasto. Com isso o ômega-3, um dos constituintes mais importantes do cérebro, fazia parte da nossa dieta. Hoje damos a eles soja e milho, que não contêm o nutriente. A carne, o leite, os ovos e queijos que comemos são piores, portanto.

O que isso tem de novo? Nada, absolutamente. A grande virada é que a gente percebeu o que perdeu ao deixar tudo isso de lado e agora está sendo obrigado a voltar atrás. Os médicos também. Uma pesquisa defendida na Faculdade de Medicina da USP, de dezembro de 2004, mostra que 52% dos médicos brasileiros prescrevem ou endossam algum tipo de medicina complementar ou alternativa para seus pacientes atualmente, e 91% declaram querer saber mais. O que muitos estão descobrindo é que usar o equilíbrio da mente para curar o corpo não é nada esotérico, como pensavam, mas puramente fisiológico.

O poder de auto-regeneração que vemos no corpo afetado por um resfriado existe, da mesma forma, dentro do nosso cérebro. Nem tudo precisa de uma forcinha externa. Em muitas situações do cotidiano, a mente se encarrega do trauma sozinha. “Se você briga com seus filhos ou com seu chefe, você vai ficar chateado com isso por um tempo”, diz Servan-Schreiber. “Pode ter pesadelos, pode não conseguir se concentrar no dia seguinte. Mas normalmente depois de alguns dias, uma semana, no máximo, isso vai embora.”

Em outros casos, a doença é persistente, como depressão ou síndrome do pânico. A maioria dos problemas que vão parar nos consultórios médicos não é mesmo capaz de se curar sozinha. Quando isso ocorre, o organismo precisa de ajuda. A questão é que caminho seguir. “Nosso corpo tem instinto de cura. Se aprendermos a usá-lo de uma forma melhor, podemos reparar as coisas e voltar ao estado de saúde. Às vezes remédios intrusivos são necessários para estimular esse mecanismo. Outras vezes, caminhos naturais conseguem o mesmo efeito”, diz o neuropsiquiatra.

A hipótese de que o corpo é naturalmente orientado para a cura é vista com reservas. “Não acredito em mágica. Isso me parece simplista demais”, avalia Marcelo Marcos Morales, presidente da Sociedade Brasileira de Biofísica e professor da UFRJ. “Mas acredito, sim, que o equilíbrio de nossas funções fisiológicas, proporcionado pelo equilíbrio emocional, alimentação saudável e uma vida regrada, possa propiciar o bom funcionamento do nosso organismo. Assim ele poderá responder mais adequadamente a injúrias a que estamos subordinados.”

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O que é o budismo?

Publicado por educaçãoevida em Agosto 26, 2008

GALILEU Edição 144 – Jul/03 http://revistagalileu.globo.com/dot.gif

Diogo Cruz Medeiros, Rio de Janeiro, RJ

O eu é uma ilusão

O budismo é uma religião que surgiu por volta do século 5 a.C. no norte da Índia e, ao longo dos séculos, se espalhou por outras regiões, chegando a países como China, Japão, Nepal, Paquistão, Sri Lanka, Afeganistão e Tailândia, entre outros. Seu aparecimento, há cerca de 2.500 anos, se deve aos ensinamentos de Buda, um termo do sânscrito (idioma da Índia antiga) que significa “O Iluminado”, ou “Aquele que Despertou”. Segundo alguns estudiosos, Buda nasceu em 563 a.C., apesar de outras fontes indicarem seu aparecimento até um século mais tarde.

Conta-se que Buda, antes de se tornar iluminado, era um príncipe hindu chamado Siddhartha que, desde criança, nunca havia saído dos palácios de seu pai. Cercado por música, belas mulheres e felicidade, o príncipe não conhecia as aflições do mundo. No entanto, em uma visita pela cidade, aos 29 anos de idade, ele se deparou pela primeira vez com a velhice, a doença, a morte e com um asceta. A experiência o transforma profundamente. Disposto a descobrir o caminho que levasse ao fim dos sofrimentos, Siddhartha renunciou ao reinado de seu pai e partiu em busca de conhecimento. Durante seis anos, aprendeu técnicas de meditação e interrogou sábios, mas nenhum deles podia responder a todas as suas dúvidas. É então que Siddhartha se dirige a Bodh Gaya (“o lugar do despertar”) e, sentado debaixo de uma figueira, decide sair somente depois de atingir a iluminação.

Mesmo atacado por Mara, o demônio do ego, o príncipe alcança o estágio de “consciência iluminada” e, finalmente, torna-se Buda. A partir de então, começam seus ensinamentos doutrinários, que seriam transmitidos pelos próximos milênios.

Apesar de o budismo apresentar muitas diferenças de um país para outro, ele contém bases comuns a todos os seus seguidores. Segundo Buda, os seres do universo estão sujeitos a um processo contínuo de renascimento, sem fim nem início. A isso dá-se o nome de Samsara. As ações realizadas nas vidas passadas ditam as condições para as próximas; ou seja, atitudes virtuosas geram felicidade no futuro, e ações não virtuosas, sofrimento. Esse fenômeno é chamado de kharma. Os ensinamentos de Buda, que só foram colocados por escrito muitos séculos após a sua morte, formam um conjunto conhecido como Dharma. O termo, de difícil tradução, pode significar o ensinamento ou a doutrina de Buda.

O princípio mais fundamental do budismo é, para as pessoas não-iniciadas, difícil de ser compreendido. Segundo ele, não existe uma alma imortal. Cada pessoa é um processo, ou uma corrente de causas e efeitos, comandado pelo kharma. Ou seja, o indivíduo é uma coleção de constituintes momentâneos, que se destroem e se formam continuamente. É preciso compreender que a existência de um “eu”, ou um “ego”, é uma ilusão que precisa ser superada. Só assim a pessoa pode atingir o Nirvana, o fim do sofrimento e, portanto, o objetivo final dos ensinamentos de Siddhartha.

Fonte: “Buddhism, an Introduction and Guide”, de Donald Lopez Jr. Penguin Books, 2002; www.dharmanet.com.br

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